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Receita de um poeta

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Emilio Nanni Não nos preocupemos com as palavras Elas caem não sei de onde Vêm de cheio uma após outra A galope ou fugindo do negro de nós E escapam, derrapam, ficam e fincam em versos, por vezes destoados, mas versos. Não faria sentido Ficar sentado, parado, perdido no vácuo do papel A suspirar por donzelas, por outros eus, pelo mundo A esse modo as palavras correm, têm medo de como serão usadas Elas preferem ser abusadas e caírem mortas-vivas, rotas, num verso sem fim. Não há necessidade de arrumá-las como que numa prateleira Elas vêm faceiras, gostam mesmo é da desordem Porque é na liberdade, no caos, que se ergue o sentido Que se mostram coerências, coesões É no desconexo que se ergue o poema. * Acesse  o e-book  Palavras de pedra e cal  e leia outros poemas de Pedro Fernandes.

Butch Cassidy e Sundance Kid, de George Roy Hill

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"Raindrops Keep Fallin' on my Head", cantada por B. J. Thomas no longa, foi uma das músicas mais cultuadas da história do western Este western conta a história, baseada em fatos reais, vivida pelos amigos Butch Cassidy (Paul Newman) e Sundance Kid (Robert Redford) e seu grupo de assaltantes de trens e bancos (Bando do Buraco na Parede), que fogem da polícia por todos os Estados Unidos e depois para a Bolívia. Juntos, eles funcionam como muitas outras duplas: Cassidy é o cérebro, expert em arquitetar planos para conseguir dinheiro ilegal. Sundance é o executor, atira como ninguém. Apesar de foras-da-lei, a dupla conquista a simpatia do público pelo humor. Assim, Roy Hill popularizou a lenda em torno da dupla de criminosos que já era conhecida, mas tornou os bandidos agradáveis ao público (graças também ao poder de sedução dos então galãs Newman e Redford, que retornariam juntos em 1973 em Golpe de Mestre , outro grande sucesso do mesmo diretor). O retrato da ...

A sangue frio, de Truman Capote

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Por Pedro Fernandes A sangue frio é tradução para o português do original In cold blood do estadunidense Truman Capote. O livro foi publicado em 1966, mas um ano antes da prestigiada revista The New Yorker  adiantou aos leitores o primeiro dos quatro capítulos. Trata-se, em linhas gerais, de um romance que relata o assassinato de uma família de camponeses de Helcomb, interior dos Estados Unidos. O enredo gira em torno de Richard Hickock e Perry Smith que descrevem com certa maestria e em tom adocicado, muito pelo encantamento do escritor pelo caso e os assassinos (principalmente o segundo, com quem, dizem as más línguas, teria tido um envolvimento amoroso) o assassinato de Herb Clutter, Bonnie Clutter, sua esposa, e os seus dois filhos, Kenyon e Nancy. Trata-se de uma obra que marcou a literatura estadunidense porque foi uma das primeiras do chamado rol literatura jornalística, em que o escritor se dedica a contar determinado fato de jornal na forma de romance. De...

José Saramago escreve sobre Lygia Fagundes Telles

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No último mês, o Instituto Moreira Salles deu a conhecer outra edição de sua fabulosa publicação que reúne, num material de altíssima qualidade visual, gráfica e conteudística, dossiês sobre alguns dos nomes mais importantes da nossa literatura. A publicação chama-se  Cadernos de Literatura Brasileira e é apresentada desde 1996, constituindo-se, desde já, em material obrigatório de informação e formação sobre nossos escritores e parte no panorama de nossa memória cultural.   A edição saída agora homenageia a escritora Lygia Fagundes Telles (a jovem mostrada no registro que abre esta postagem). Autora de uma vasta, significativa e bem-desenhada obra, que transita entre o conto e o romance. Sobre sua literatura, Antonio Candido, outro dos nossos expoentes, já disse que tem o mérito de obter "a limpidez adequada a uma visão que penetra e revela, sem recurso a qualquer truque ou traço carregado na linguagem ou na caracterização"....

Ler o Dom Quixote

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Por Pedro Fernandes Depois de Crime e castigo , de Dostoiévski, essa me foi a obra mais cara à leitura, entretanto, me parece ser essa a característica do clássico: a de marcar seu leitor por todas as vias possíveis, como se a leitura, para ser tida realmente como tal, devesse nos jogar no seu calabouço e de lá nos arrastar aos poucos, trazendo-nos, dessa experiência, carregados de uma nova camada de humanidade agarrada à nossa figura. Como disse certa vez, num texto anterior a este sobre Os sertões , de Euclides da Cunha, renovo aquelas imagens de grande teatro para o clássico de Cervantes. Composto numa época de transição, clara sátira ao fadado romance de cavalaria, entretanto, sem reduzir-se a tanto, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha nos coloca diante de uma grande arena, que é a Europa medieval povoada de tipos que vão desde o mais popular e picaresco ao sofisticado e grave; Dom Quixote é, sem dúvidas, uma grande aventura da linguagem, conforme entendeu Michel...

O poeta que há em Ariano Suassuna

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Ariano Suassuna. Foto de Assis Hoffmann Para muitos, isso deve ser uma novidade. Conhecido mais pelo seu trabalho como dramaturgo pelo já consagrado sucesso O auto da compadecida e por sua produção romanesca com títulos como  A pedra do reino , é necessário dizer que Ariano Suassuna é também poeta. Ainda anônimo, como reconhece o escritor num texto de 2000 para o jornal Folha de São Paulo ; ao comentar acerca do diálogo entre ele e uma leitora, em que ela se apresenta como poeta anônima, Ariano desabafa: “Sou relativamente conhecido como romancista e mais como dramaturgo; como poeta sou ‘anônimo, casual, trágico, inconsequente’ e também ‘fruto e produto do casamento entre a urbanidade e a melancolia de pastos antigos’; pastos esses que, no meu caso, eram povoados de belas cabras agrestes, esquivas, quase selvagens e que pareciam pequenos antílopes, extraviados das savanas da África, das serras do Líbano ou das mesetas da Península Ibérica nos tabuleiros e carrascais dos se...