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Carlos Drummond de Andrade e o tempo das revistas

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“Essas revistas, lidas, relidas, alisadas no excelente papel couché, fizeram minha iniciação literária, muito imperfeita mas decisiva. Guardo até hoje visualmente de cor, por assim dizer, páginas e páginas das duas. Sei a posição das gravuras, os títulos das matérias”.    Drummond,  Tempo vida poesia     Capa da 1ª edição de A revista , de julho de 1925. O periódico tinha com um dos dirigentes Carlos Drummond de Andrade. Quase todo ele também foi escrito pelo poeta. Foto: Arquivo on-line da Brasiliana/ USP. Reprodução/Divulgação. Quando eu era criança, lembro-me que minha avó costuma guardar entre uma pilha de velhos papéis aquilo que ela chamava por folhetos. Havia entre eles os cordéis e estes sim eram os folhetos, mas havia também algumas revistas; O cruzeiro era uma delas, lembro-me bem. Esses papéis avulsos eram o entretenimento dela nas horas vagas na fazenda. Devem ter sido lidos de frente para trás e trás para frente até serem incorporad...

Carlos Drummond de Andrade e o cinema

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Cineteatro Glória, em Belo Horizonte, 1929. Depois que foi para BH, na década de 30 Drummond esteve aí várias vezes e anotou no seu diário o título dos filmes assistidos. Foto:  Acervo do Museu Histórico Abílio Barreto “ só quem assistiu à infância do cinema no Brasil pode avaliar o que era essa magia dominical das fitas francesas e italianas, sonho da semana inteira. ” Carlos Drummond de Andrade,  Tempo vida poesia Não seria o primeiro certamente que teve atração pela sétima arte. No catálogo da exposição José Saramago – a consistência dos sonhos , organizada por Fernando Gómez Aguilera, há uma lista expressa de filmes que o escritor português assistiu e anotou o feito.  E foi olhando para essa galeria bem particular que decidi procurar sobre a relação de Carlos Drummond de Andrade com o cinema. Outro princípio também é o fato de o próprio poeta ter atuado num documentário dirigido por Fernando Sabino e David Neves, em 1972, O fazendeiro do ar , homônimo de u...

Carlos Drummond de Andrade e a arte de escrever cartas

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“Nas cartas que escrevo costuma insinuar-se o rascunho da grande carta (grande? ou conterá só duas linhas?), mas bem sei que não adianta rascunhar o que não pode ser previsto e menos ainda planejado. Ou a carta se faz espontaneamente na brancura da folha, tão imperativa que só me resta assiná-la, ou todo o meu empenho literário de reunir as expressões mais adequadas resultará na caricatura de um documento que independe de estilização e mesmo a repele. A correspondência da vida inteira torna-se o esboço inútil de uma única peça postal que não tenho aptidão para compor, e não me é ditada, mas que exige ser escrita.   Estamos nisto, eu e a minha carta, já concreta, palpável, legível de tão imaginada: em sua plenitude branca.”  Carlos Drummond de Andrade, “Projeto de carta”,  Os dias lindos    Bilhete que Carlos Drummond de Andrade escreveu a Clarice Lispector após ler De corpo inteiro . Foto: Acervo da família. Arquivo Museu de Literatura da Fundação ...

Carlos Drummond de Andrade e a arte de desenhar

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“Rabiscar figurinhas sem saber mesmo o que sairá do traço canhestro. Seria ótimo ter nascido caricaturista. Na rua, ao ver desconhecidos, costumo identificá-los: ‘Este foi desenhado pelo Kalixto. Esta é puro J. Carlos. Olha ali a gordona do Raul. Quem inventou esse foi Ziraldo.’ Penso num museu de caricatura, que não sei se existe no exterior, e que eu visitaria sempre, se existisse no Rio.”  Carlos Drummond de Andrade, “1.º de janeiro de 1976”, O observador no escritório .   Edição para os quadrinhos de Robinson Crusoé  publicada na Revista Tico e teco , em 1911. Um dos primeiros contatos de Carlos Drummond de Andrade com a arte do desenho foi  com revista. O poeta Carlos Drummond de Andrade tinha verdadeiro apreço pelo traço do desenho e pelas artes gráficas. Logo cedo, ainda criança teve seu primeiro contato com os traços dos quadrinhos, como a adaptação para os quadrinhos de Robinson Crusoé (foto) que leu aos nove anos e retomaria a personagem comp...

Recriar o “Eu”, de Augusto dos Anjos

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Por Pedro Fernandes Fac-símile com opinião de Carlos Drummond de Andrade acerca do livro Eu , de Augusto dos Anjos. A imagem está disponível no tumblr do professor Moreno Barros, aqui . “ Li o  Eu  na adolescência e foi como se levasse um soco na cara. Jamais eu vira antes, engastadas em decassílabos, palavras estranhas como simbiose, mônada, metafisicismo, fenomênica, quimiotaxia, zooplasma, intracefálica... E elas funcionavam bem nos versos! Ao espanto sucedeu intensa curiosidade. Quis ler mais esse poeta diferente dos clássicos, dos românticos, dos parnasianos, dos simbolistas, de todos os poetas que eu conhecia. A leitura do Eu foi para mim uma aventura milionária. Enriqueceu minha noção de poesia. Vi como se pode fazer lirismo com dramaticidade permanente, que se grava para sempre na memória do leitor. Augusto de Anjos continua sendo o grande caso singular da poesia brasileira. ” O depoimento é de Carlos Drummond de Andrade para o livro de Augusto dos Anjo...

Da arte da escrita para a da pintura

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José Saramago é autor de um romance intitulado Manual de pintura e caligrafia . Ao redor desse texto já se contaram algumas anedotas, uma até pelo próprio escritor português, quando disse ter tomado conhecimento de um professor de artes plásticas na África que não hesitou em comprar uma leva significativa desse livro para trabalhar junto com sua turma de pintura; deixara se levar de primeira pelo o que o título dizia. O mesmo já aconteceu, por exemplo, com O Evangelho segundo Jesus Cristo . Alguém terá comprado o livro por acreditar que ali estivesse mais um evangelho perdido que fora só agora encontrado ou mesmo que ali estivesse um livro de autoajuda. Mas, minha ideia de recuperar um dos primeiros livros do escritor Prêmio Nobel de Literatura é para recuperar o enredo ali presente: um pintor de retratos, um dos últimos da sua espécie, decide se aventurar pelo trajeto da escrita. Avança pela crônica de viagem e à medida que esse interesse se materializa, sua posição em relação ao que...