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As Teixeiras e o futebol

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Por Rubem Braga Com os Andradas tínhamos feito uma espécie de pacto; a gente não jogava bola na rua defronte a casa deles, mas um pouco para cima, onde havia um muro que dava para o quintal da casa; em compensação, eles deixavam a gente pular o muro e apanhar a bola quando caía lá. Mas o muro não era bastante comprido, e assim o nosso campo abrangia, como eu ia dizendo, algumas janelas das Teixeiras. As quais, eu também já disse, não apreciavam o futebol. Quando a gritaria na rua era maior, uma das Teixeiras costumava nos passar um pito da janela, mandando a gente embora. O jogo parava um instante, ficávamos quietos, de cara no chão – e logo que ele saía da janela a peleja continuava. Às vezes aquela ou outra Teixeira voltava a gritar conosco – começavam por nos chamar de “meninos desobedientes” e acabavam nos chamando de “moleques”, o que nos ofendia muito (“Moleque é a senhora!” – gritou Chico uma vez), mas de modo algum nos impedia de finalizar a pugna. ...

Polêmico nos palcos

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Por Dirceu Alves Jr Chico Buarque ao lado do elenco de Ópera do malandro  em confraternização.  A disparada de Chico Buarque ao sucesso e às polemicas começou sem ele mesmo perceber. Diante do estouro de A Banda no II Festival de Música Popular Brasileira, na TV Record, o compositor de 22 anos se viu alçado à condição de unanimidade nacional. Mais de 50 mil compactos vendidos em poucos dias, um salário polpudo para comandar o programa de televisão Pra ver a banda passar , ao lado de Nara Leão, e uma agenda de shows por cidades que o bem-nascido rapaz jamais havia situado no mapa. Recebido pelas autoridades, o novo ídolo desfilava a céu aberto em carros do corpo de bombeiros e era alvo de meninas desesperadas por um autógrafo ou, quem sabe, um contato mais próximo. “Não lembro de ficar muito nervoso. Para mim aquilo era uma brincadeira”, contou ele, que, em 1966, enchia o bolso de dinheiro. Tamanho assédio incomodava o tímido Chico, que não via a conexão de se...

O futebol-arte e a rivalidade na música de Chico Buarque de Holanda

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Por Valdomiro Neto Chico Buarque em jogo amistoso entre artistas realizado no Maracanã durante a década de 1980. Vou me apropriar da frase de Martinho da Vila antes de cantar “Valsinha” em um show comemorativo para dizer que “Chico Buarque de Holanda é um dos meus compositores prediletos”. E nos seus mais de 40 anos de carreira, que se estendem até hoje para nossa felicidade, o futebol teve presença marcante. Em várias entrevistas, em momentos distintos, Chico disse que quando jovem queria ser jogador de futebol (que bom para nós, fãs, que acabou enveredando pelo caminho da música). A nossa “única unanimidade nacional”, nas palavras de Nelson Rodrigues, tem como ídolo o ex-ponta direita Pagão, que fez fama com as camisas de Santos e São Paulo. Em um documentário que faz parte de uma série que chegou a ser veiculada pela TV Bandeirantes, Chico diz que quando jogava imitava os trejeitos do ex-jogador, como as mãos meio moles e os “dribles aéreos”. Dono do Politheama, time ...

Zico, Zeffirelli e a energia abandonada

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Por Antonio Callado Está bem arraigada no espírito da gente a ideia de que permitimos que se separasse, em nossa cultura, o físico do espiritual. A imagem que nos obceca – aparentada à do paraíso perdido ou a de alguma fazenda em que tenhamos passado a infância – é a das antigas olimpíadas, em que a poesia e os cânticos se misturavam às competições. Sófocles, como lutador, era muito bom no ringue. E era dançarino. Liderou em 480 a.C. o coro que celebrou a vitória de Atenas contra os persas. Era então um jovem atleta. Desfilou pelado. No entanto, reconhecidas as diferenças, surge uma suspeita. A de que se os intelectuais e artistas perderam, por preguiça, contato com o mundo dos músculos e do esforço físico, os atletas continuam ligados ao mundo da emoção e do esforço mental, mesmo em pleno reino do profissionalismo. Vejam o futebol. As imagens da Copa estão ainda com a gente. Tanto as equipes modestas – a de Honduras, por exemplo, ou a dos Camarões, – como as da Fr...

Copa do Mundo de Literatura

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Sim, o futebol, tema que vimos perscrutando em alguns nomes da literatura nacional e estrangeira num conjunto de compilações que tem circulado por aqui quase que diariamente nesse período de Mundial, pode ser um elemento e tanto para falar sobre literatura! Publicação do caderno “Galeria” do jornal A Tribuna , de Santos, nosso colunista Alfredo Monte trouxe a magnífica ideia de uma listinha básica com dicas literárias de países que estão na Copa do Mundo. Ao invés de um embate para no final sair um ganhador, todos os citados são ganhadores e merecem, certamente a atenção dos leitores. “Infelizmente, não é possível estabelecer uma relação de igualdade entre as produções literárias dos países participantes da Copa por uma razão muito simples: a lacuna nas traduções. Nenhum escritor de Camarões (Grupo A), da Costa do Marfim (C), sequer da Costa Rica (D), ou do Equador e Honduras (o que desfalca muito o grupo E), e olhe que são países do nosso continente, falantes de uma língua-ir...

Em “Fazenda Modelo” ele deu nome aos bois

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Por Dirceu Alves Jr “De cada três músicas que faço, duas são censuradas. De tanto ser censurado, está ocorrendo comigo um processo inquietante. Eu estou começando a me autocensurar. E isso é péssimo.” Em desabafo publicado na imprensa no início dos anos 70, Chico Buarque assumiu que não estava tão imune ao objetivo da ditadura militar – o de calar ou, pelo menos, inibir a criatividade do artista. Depois de 14 meses de exílio na Itália, entre 1969 e 1970, o compositor reencontrou o Brasil no auge da repressão com o governo de Emílio Garrastazu Médice (1969-1974). O veto ao samba “Apesar de você” inaugurou uma sequência aparentemente infindável e, mesmo que o álbum seguinte, Construção (1971), tenha saído sob a condição de que Chico alterasse alguns versos, o compositor sentiu a necessidade de ares menos viciados para respirar. Procurou driblar a birra dos homens de farda no teatro, criando ao lado do cineasta Ruy Guerra o musical Calabar – o elogio da traição . Às vésperas...