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Bolítica

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Por Décio Pignatari Há dez anos atrás, no começo da primavera, atravessei a Mancha rumo à Inglaterra, em companhia de um inglês e um israelense. Este lutara contra os nazistas, no exército de sua majestade britânica, e perdera as duas pernas dando combate aos árabes, nas lutas pela independência de seu país. Não era judeu – era israelense, fazia questão de frisar, mostrando um certo orgulho e uma certa irritação na necessidade que sentia de afirmar sua nova nacionalidade. O outro era um operário de volta das férias, velho e bem humorado militante do Partido Comunista inglês. Com não menor orgulho, exibia sua carteira de filiação, datada de 1935. No meio da travessia, a barcaça começou a jogar; o israelense não podia manter-se de pé, no convés: penoso demais. Ajudamo-lo a descer para o bar, com as suas três pernas mecânicas (uma sobressalente que carregava numa caixa) e voltamos para cima, o inglês e eu, rumo a um estranho bate-papo, entre solavancos ...

Narrador em amadurecimento

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Por André Albert Chico Buarque é compositor ou é escritor. Nunca os dois ao mesmo tempo. Cada livro novo é uma imersão numa rotina metódica. O confortável apartamento do Leblon, com uma magnífica vista que vai do Arpoador até Niterói, é trocado por outro, mais espartano, no andar de baixo. Lá é o retiro onde o escritor assenta os pensamentos que surgem em longas caminhadas pela cidade. Andarilho como quase todos os protagonistas de seus livros, Chico tem suas melhores ideias enquanto caminha pelas ruas cariocas ou de Paris, onde mantém uma segunda residência e para onde foge se é preciso apressar o passo da escrita. o final da tarde é o momento em que se senta para escrever. A atividade, às vezes, adentra a madrugada, num lento exercício de lapidação. Na opinião do amigo e também escritor Eric Nepomuceno, “uma espécie de Penélope que desfaz hoje o feito ontem, não à espera do improvável Ulisses, mas da palavra exata”. Obcecado pelos termos mais apropriados para o que quer ex...

As Teixeiras e o futebol

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Por Rubem Braga Com os Andradas tínhamos feito uma espécie de pacto; a gente não jogava bola na rua defronte a casa deles, mas um pouco para cima, onde havia um muro que dava para o quintal da casa; em compensação, eles deixavam a gente pular o muro e apanhar a bola quando caía lá. Mas o muro não era bastante comprido, e assim o nosso campo abrangia, como eu ia dizendo, algumas janelas das Teixeiras. As quais, eu também já disse, não apreciavam o futebol. Quando a gritaria na rua era maior, uma das Teixeiras costumava nos passar um pito da janela, mandando a gente embora. O jogo parava um instante, ficávamos quietos, de cara no chão – e logo que ele saía da janela a peleja continuava. Às vezes aquela ou outra Teixeira voltava a gritar conosco – começavam por nos chamar de “meninos desobedientes” e acabavam nos chamando de “moleques”, o que nos ofendia muito (“Moleque é a senhora!” – gritou Chico uma vez), mas de modo algum nos impedia de finalizar a pugna. ...

Polêmico nos palcos

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Por Dirceu Alves Jr Chico Buarque ao lado do elenco de Ópera do malandro  em confraternização.  A disparada de Chico Buarque ao sucesso e às polemicas começou sem ele mesmo perceber. Diante do estouro de A Banda no II Festival de Música Popular Brasileira, na TV Record, o compositor de 22 anos se viu alçado à condição de unanimidade nacional. Mais de 50 mil compactos vendidos em poucos dias, um salário polpudo para comandar o programa de televisão Pra ver a banda passar , ao lado de Nara Leão, e uma agenda de shows por cidades que o bem-nascido rapaz jamais havia situado no mapa. Recebido pelas autoridades, o novo ídolo desfilava a céu aberto em carros do corpo de bombeiros e era alvo de meninas desesperadas por um autógrafo ou, quem sabe, um contato mais próximo. “Não lembro de ficar muito nervoso. Para mim aquilo era uma brincadeira”, contou ele, que, em 1966, enchia o bolso de dinheiro. Tamanho assédio incomodava o tímido Chico, que não via a conexão de se...

O futebol-arte e a rivalidade na música de Chico Buarque de Holanda

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Por Valdomiro Neto Chico Buarque em jogo amistoso entre artistas realizado no Maracanã durante a década de 1980. Vou me apropriar da frase de Martinho da Vila antes de cantar “Valsinha” em um show comemorativo para dizer que “Chico Buarque de Holanda é um dos meus compositores prediletos”. E nos seus mais de 40 anos de carreira, que se estendem até hoje para nossa felicidade, o futebol teve presença marcante. Em várias entrevistas, em momentos distintos, Chico disse que quando jovem queria ser jogador de futebol (que bom para nós, fãs, que acabou enveredando pelo caminho da música). A nossa “única unanimidade nacional”, nas palavras de Nelson Rodrigues, tem como ídolo o ex-ponta direita Pagão, que fez fama com as camisas de Santos e São Paulo. Em um documentário que faz parte de uma série que chegou a ser veiculada pela TV Bandeirantes, Chico diz que quando jogava imitava os trejeitos do ex-jogador, como as mãos meio moles e os “dribles aéreos”. Dono do Politheama, time ...

Zico, Zeffirelli e a energia abandonada

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Por Antonio Callado Está bem arraigada no espírito da gente a ideia de que permitimos que se separasse, em nossa cultura, o físico do espiritual. A imagem que nos obceca – aparentada à do paraíso perdido ou a de alguma fazenda em que tenhamos passado a infância – é a das antigas olimpíadas, em que a poesia e os cânticos se misturavam às competições. Sófocles, como lutador, era muito bom no ringue. E era dançarino. Liderou em 480 a.C. o coro que celebrou a vitória de Atenas contra os persas. Era então um jovem atleta. Desfilou pelado. No entanto, reconhecidas as diferenças, surge uma suspeita. A de que se os intelectuais e artistas perderam, por preguiça, contato com o mundo dos músculos e do esforço físico, os atletas continuam ligados ao mundo da emoção e do esforço mental, mesmo em pleno reino do profissionalismo. Vejam o futebol. As imagens da Copa estão ainda com a gente. Tanto as equipes modestas – a de Honduras, por exemplo, ou a dos Camarões, – como as da Fr...