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Narciso às avessas, que cospe na própria imagem

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Por Nelson Rodrigues Nelson Rodrigues a postos para mais uma partida com o time pelo qual era capaz de tudo: o Fluminense. Hoje, o meu personagem da semana é uma das potências do futebol brasileiro. Refiro-me ao torcedor. Parece um pobre-diabo, indefeso e desarmado. Ilusão. Na verdade, a torcida pode salvar ou liquidar um time. É o craque que lida com a bola e a chuta. Mas acreditem: — o torcedor está por trás, dispondo. Escrevi acima que o torcedor não é um desarmado e provo. De fato, ele possui uma arma irresistível: — o palpite errado. Empunhando o palpite, dá cutiladas medonhas. Vejam o primeiro jogo com os paraguaios. Vencemos de cinco e podia ter sido de dez. Fizemos do adversário gato e sapato. Ora, para uma primeira apresentação foi magnífico ou, mesmo, sublime. Mas quando saí do Maracanã, após o jogo, vejo, por toda parte, brasileiros amargos e deprimidos. Mais adiante, esbarro num amigo lúgubre. Faço espanto: — “Mas que cara de enterro é essa?” O amigo rosna: ...

Os 150 anos de “Diário do subsolo” e um período decisivo na obra de Dostoiévski

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por Alfredo Monte Pouco depois de completar 40 anos, Dostoiévski (nascido em 1821) viajou pela primeira vez pelo continente europeu. A esse período correspondem certos títulos que terão decisivo impacto sobre sua obra madura: um romance curto, Diário do subsolo ( Zapiski iz podpolya , 1864 1 ); um fragmento, O crocodilo ( Krokodil , 1865); além do relato diretamente ligado à viagem, Notas de inverno sobre impressões de verão ( Ziminie Zamietki o lietnikh vpyetchatleniiakh  , 1863). Ressalvadas as diferenças, é um “salto” análogo ao que representa na trajetória de Machado de Assis a aparição das Memórias póstumas de Brás Cubas e de Papéis avulsos . I Diário do subsolo representou uma virada definitiva 2 na produção dostoievskiana e na prosa literária em geral (pois sua influência tornou-se universal). Com muitas traduções (e soluções diferentes para o título) 3 aqui no Brasil, comento-o, neste meu texto, utilizando a versão do poeta Oleg Almeida, dentro da ...

Os últimos poemas de Wisława Szymborska

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Alma era uma palavra-enigma. Sou seu maior problema. E os mapas? Os mapas a encantavam por seu dom de mentir ao implantar um mundo “não deste mundo”. Foram as últimas revelações que Wislawa Szymborska (Polônia, 1923-2012) deixou escrita, de seu punho, em 13 poemas póstumos. Dela, que é considerada um dos grandes nomes que recebeu o Nobel nas últimas décadas, apenas um grupo de amigos alcançou falar alguns deles antes de lhe viesse a morte em fevereiro de 2012. E entre os poemas lidos estava “Alguém a quem observo desde há um tempo”* cujo fim é ela mesma: Uma vez encontrei no mato uma gaiola de pombos. Peguei-a e para isso a tenho para que permaneça vazia. Uma estrofe que guarda uma história, mil histórias. Memórias que não peregrinam e determinam o rumo do pensamento e da atitude ante a vida. Como ela, a maioria de toda sua existência, sob o regime comunista polaco nos anos da cortina de ferro. “Para que permaneça vazia”. Vibra incessante o último verso d...

O mendigo Sexta-feira jogando no Mundial

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Por Mia Couto Lhe concordo, doutor: sou eu que invento minhas doenças. Mas, eu, velho e sozinho, o que posso fazer? Estar doente é minha única maneira de provar que estou vivo. É por isso que freqüento o hospital, vezes e vezes, a exibir minhas maleitas. Só nesses momentos, doutor, eu sou atendido. Mal atendido, quase sempre. Mas nessa infinita fila de espera, me vem a ilusão de me vizinhar do mundo. Os doentes são minha família, o hospital é o meu tecto e o senhor é o meu pai, pai de todos meus pais. Desta feita, porém, é diferente. Pois eu, de nome posto de Sexta-Feira, me apresento hoje com séria e verídica queixa. Venho para aqui todo desclaviculado, uma pancada quase me desombrou. Aconteceu quando assistia jogo do Mundial de Futebol. Desde há um tempo, ando a espreitar na montra** do Dubai Shopping, ali na esquina da Avenida Direita. É uma loja de tevês, deixam aquilo ligado na montra para os pagantes contraírem ganas de comprar. Sento-meno passeio, tenho meu lu...

Nenhuma vida, de Urbano Tavares Rodrigues

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Por Pedro Belo Clara O escritor Urbano Tavares Rodrigues Nesta nova edição, retoma-se a debate sobre os trabalhos do autor referido em epígrafe com o intuito de dar a conhecer aquele que foi o seu derradeiro romance, concluído apenas poucas semanas antes da sua morte, em Agosto de 2013. Editado em Outubro passado, e com a particularidade de possuir um fac-símile fragmentado do original escrito pela mão de Urbano Tavares Rodrigues, Nenhuma vida é, nas palavras do próprio autor, um “romance breve ”  que, em quatorze capítulos, consegue ser transversal às principais ideias e temas defendidos por Urbano ao longo da sua existência terrena. Como obra, digamos, de “fim de vida”, e conhecendo o autor como a grande maioria do público português o conheceu, nada mais para além disso se poderia imaginar. Embora, sublinhe-se, em Urbano coabitavam pacificamente as linhas, firmemente desenhadas, de um pensamento nítido e interventivo com a gentil brandura de um trato - apare...

Campeões

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 Por  Ferreira Gullar © Márcio Petini Não sei quem terá escapado à atmosfera de alegria e pânico em que o Rio mergulhou  nestas últimas semanas com os últimos jogos da Copa do Mundo. Sem saber como nem porque, vi-me de repente de ouvido grudado ao rádio, submetido a uma tortura diabólica: era como se cargas de eletricidade (ou o que fosse) me entrassem pelo ouvido numa frequência poderosa e instável que ora me fazia suar frio ora estremecer de expectativa e apreensão. Vejo-me agora, de longe. Prometeu doméstico com um abutre a me devorar pelo ouvido. Eu mesmo ligara o aparelho de tontura, eu mesmo cuidava dele regulando cuidadosamente o volume e a clareza do som, e se qualquer coisa interceptava a transmissão e de deixava livre por um segundo, tinha ímpetos de arrebentar o rádio, porque eu queria ser torturado! Vivia o drama de quase 60 milhões de expectativa e apreensão. Vejo-me agora, de longe. Prometeu do Brasil. Confesso que há ...