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Samuel Beckett segue em pé

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Por Marcos Ordóñez Minha admiração por Samuel Beckett cresce a cada novo mergulho em seu mundo. Volto a lê-lo e penso num grande pássaro, com asas de albatroz e bico de gaivota sobrevoando todos os tópicos vertidos na sua obra. Beckett niilista? Já disse demasiadas vezes e sigo sem acreditar nisso. Penso melhor num Beckett realista, num Beckett combativo, num Beckett otimista. Sempre me chamou a atenção uma frase sua, escrita durante a Ocupação: “Prefiro viver numa França em luta que numa Irlanda neutra”. Beckett combativo: poucos sabem que militou na Resistência, por cujas ações (as de separada importância, qualificou-as de “coisas de jovem escoteiro”) obteve a Cruz de Guerra. O grande misantropo era também, ao dizer de quem o conheceu, um homem “infinitamente amável e bondoso”. Harold Pinter contava, comovido, uma história que viveu com ele no início dos anos 1960: em sua casa, à noite de seu primeiro encontro, Beckett se levantou e percorreu várias farmácias de Paris às c...

Raduan Nassar: apresentação de um escritor entre tradição e pós-modernidade

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   Por Maria José Cardoso Lemos Raduan Nassar. Foto: Antonio Milena. Descrever a trajetória de Raduan Nassar é uma tarefa perigosa, pois ele embaralha seus rastros, quer pelo silêncio, quer pela repetição constante de suas respostas, respostas sempre pouco esclarecedoras, como que a evitar uma autorreflexão sobre sua obra. Alguns, irritados com sua postura, pensam até tratar-se de uma estratégia de marketing desse ator / autor que interage com sua pequena obra-prima na sua recepção atual, obra que, parcimoniosamente, vem retornando sempre ao cenário cultural por meio de novas publicações, traduções e adaptações cinematográficas. Raduan Nassar é filho de imigrantes libaneses que chegaram ao Brasil em 1920, se instalando em Pindorama, no norte do Estado de São Paulo. Nascido em 1935, vinte anos depois mudou-se para São Paulo, onde se formou em Filosofia. Em 1967, fundou com seus irmãos o Jornal de Bairro , um semanário que chegou a atingir a tiragem de 160 ...

Sartre e a recusa do Prêmio Nobel de Literatura

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Já era muito tarde quando Jean-Paul Sartre enviou em 14 de outubro de 1964 uma carta a academia sueca que outorga o prêmio Nobel pedindo-lhe que não o incluíssem entre os possíveis ganhadores nem nesse ano e nem no futuro. O filósofo francês também avisava que, no caso de o galardoarem, recusaria o reconhecimento. A carta chegou com um mês de atraso. Serviu já para consolidar a recusa. Em setembro a Academia já havia decidido quem seria o Nobel de Literatura daquele ano: o próprio Jean-Paul Sartre. A carta, que marca um novo elemento a uma das recusas mais soadas da história da cultura foi publicada por esses dias no diário sueco Svenska Dagbladet e recopiada em jornais ao redor do mundo. A publicação do material se dá, como de praxe, depois da abertura dos arquivos da Academia meio século depois: ao terminar 2014, portanto, se pode acessar aos documentos correspondentes a 1964. Há algum tempo, segundo diz o diário The Guardian , já se havia especulado durante antes que...

Boletim Letras 360º #100

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Em 2015, as livrarias brasileiras recebe uma nova tradução para a Autobiografia  de Agatha Christie. Mais detalhes ao longo deste boletim. Chegamos ao fim da primeira semana de retorno do blog com as postagens diárias. Esperamos ter um 2015 de alta e excelente produção. E se estamos atravessando mais um fim de semana juntos tem de ter as notícias que circularam em nosso ponto de encontro mais movimentado da web : a página do Facebook. Segunda-feira, 12/01 >>> Brasil: Virginia Woolf e O sol e o peixe É este o título de um ensaio da escritora e título que dá nome a uma coletânea que reúne nove de suas prosas. Nelas, Virginia contrasta a visão de um eclipse total do sol com a dos peixes num aquário de Londres; discorre sobre Montaigne e sobre a paixão da leitura; relembra, em traços delicados e comoventes, a convivência com o pai; teoriza sobre a nascente arte do cinema e sobre as relações entre a literatura e a pintura; enaltece as paradoxais vantagens d...

As adaptações de obras literárias para o cinema em 2015

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Cena de Vício inerente - filme baseado no romance de Thomas Pynchon com estreia para fevereiro de 2015. A cada ano parece que a lista aumenta: além da febre de ser baseado numa história real (já repararam nos filmes que estão no páreo ao Oscar do ano que, quase todos, assim se apresentam?), a outra febre são as adaptações literárias. E em 2015, os leitores terão muito o que ler antes de ir ao cinema. Janeiro 1.  Livre O filme é dirigido por Jean-Marc Valleé; é um dos favoritos ao Oscar; e é baseado no livro de mesmo título de Cheryl Strayed. Aos 22 anos, Cheryl Strayed achou que tivesse perdido tudo. Após a repentina morte da mãe, a família se distanciou e seu casamento desmoronou. Quatro anos depois, sem nada a perder, tomou a decisão mais impulsiva da vida: caminhar 1.770 quilômetros da chamada Pacific Crest Trail (PCT) — trilha que atravessa a costa oeste dos Estados Unidos — sem qualquer companhia. Cheryl não tinha experiência em caminhadas de longa d...

Houellebecq e a polêmica sobre seu novo romance

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Michel Houellebecq voltou a um tema caro. A publicação de seu novo livro que chegou coincidentemente na mesma semana do atentado a agência do Charlie Hebdo ganhou as rodas da polêmica a ponto da obra ser tida no rol dos escândalos de 2015. O tema caro, logo já pode o leitor deduzir, é o Islã. E o motivo para tudo chama pelo título de Soumission (título ainda inédito, mas já declarada publicação no Brasil para breve). Trata-se de um relato futurista que retrata uma França convertida ao regime islâmico depois da vitória de um novo partido, a Fraternidade Muçulmana, nas eleições de 2022. O candidato Mohammed Bem Abbes, supera Marine Le Pen no segundo turno das eleições, graças ao apoio do resto das forças políticas, decididas a impedir a vitória inevitável da ultradireita. O país desenhado por Houellebecq, imagem deformada da França de hoje, é erguido pelos últimos resíduos de uma democracia agonizante e está composta por cidadãos desencantados pela política, unicamente inter...