Das influências pitagóricas segundo Charles Kahn

Por Afonso Junior




Durante muito tempo, o sistema conceitual de Aristóteles parece ter moldado o que se entendeu por filosofia — até mesmo influenciando a erudição medieval e moderna. É famosa a colocação de Galileu de que o estagirita era seu mestre, ainda que tenha desafiado suas premissas. Talvez por isso, alguns sábios da Antiguidade, como os pitagóricos, medidos pelo método aristotélico, tenham sempre ganhado um espaço menor na pesquisa, mesmo que tenham sido reconhecidas suas “influências”, desde Platão até o pensamento científico. 

Pitágoras e os pitagóricos: uma breve história, de Charles Kahn, faz parte dessa redescoberta de um dos sistemas mais originais e de maior impacto na história do pensamento ocidental. Uma das grandes rupturas dos saberes iniciáticos como o pitagorismo (praticamente fundido ao orfismo em determinado momento), é a “criação da alma imortal”, a ideia de que a alma homérica, simples hálito do ser vivo, que vive como sombra sem força no Hades, passa a responder por seus atos e deve, portanto, reeducar-se e purificar-se. 

Filolau, na segunda metade do século V a. C., é a primeira fonte escrita dos pitagóricos, e já cita que a “ordem do mundo” foi “unida harmoniosamente” — a harmonia vista como princípio de união cósmica, desenvolvido em termos de razões numéricas e escalas musicais. Aristóteles, por sua vez, dirá que para os pitagóricos “todas as coisas são números”, ou seja, todo o cosmos é ordenado por meio da proporção. Outro tema que teve “engajamento” no Ocidente foi este dos padrões racionais no universo, a música das esferas, que enfatizou o estudo das “ciências irmãs” desde a Antiguidade: astronomia, música, aritmética e geometria. 

Pitágoras, figura envolta em mitos, retratada com mais detalhe em escritores tardios como Diógenes Laércio (c. séc. III d.C.), Porfírio (discípulo de Plotino, falecido em c. 305 d.C.) e Jâmbico (discípulo de Porfírio, falecido em c. 325 d.C.), teria nascido em Samos (ilha próxima à costa da atual Turquia) no século VI a.C. e migrado para Crotona na chamada Magna Grécia (o sul da Itália atual, colonizada pelos gregos desde o século VIII a.C.).

Ali formaram-se grupos que se reuniam em assembleias para os akousma (“uma audição”) e seguiam um modo de vida que, por exemplo, compartilhava a propriedade entre todos e só permitia o consumo de animais sacrificados (de acordo com a religião cívica), comportamento depois transformado em vegetarianismo estrito. Teriam exercido influência política mais ou menos por 150 anos no sul da península, até que uma revolta popular de meados do século V parece ter queimado seus locais de culto e perseguido seus líderes. Temos notícia de seu reaparecimento em Roma no chamado neopitagorismo; para muitos filósofos neoplatônicos, Platão era o herdeiro maior de Pitágoras. Um autor do fim da Antiguidade teria atribuído 80 obras a Pitágoras e 200 a seguidores deste (Kahn, 2007, p. 104). “A moda de produzir literatura pseudopitagórica durou por mais de um milênio e cobriu todos os ramos da filosofia” (p. 106).

Já em fins do século III a. C., segundo Kahn, se perceberia uma mistura de elementos estoicos e pitagóricos, como nos Cadernos pitagóricos de Alexandre Polímato. O estoico Posidônio (início do Século I a.C.) poderia ser um precursor do movimento neopitagórico em Roma, tendo incorporado uma visão das emoções atribuída a Pitágoras (Kahn, 2007, p. 126). De fato, para quem, por exemplo, estuda o estoicismo romano, surge o paradoxo de que, como nas tragédias de Sêneca, a alma una e inteligente do estoicismo grego se mostra arrastada pelas paixões. Talvez isto possa ser atribuído à importância da doutrina pitagórica (assim como de sua versão platônica) no ambiente cultural romano. Kahn pensa, por exemplo, que foram os mitos de Platão que tornaram a reencarnação (metempsicose) aceitável, já que “nos primeiros dias, a conversa de reencarnação de Pitágoras fora tema de riso” (Kahn, 2007, p. 185).
 
O tipo de pitagorismo da escola de Sextius, presente na formação de Sêneca, misturava elementos pitagóricos e estoicos. O ascetismo pitagórico, com a ideia de que a alma é temporariamente unida ao corpo, reflete-se na luta de Seneca contra o vício, que indica uma crença na parte irracional da alma. A escolha pela virtude corresponde a visão do externo como indiferente (a felicidade é independente de coisas externas). Sêneca reflete o neopitagorismo de Ovídio com seu “voo pelos astros” (Hadot, 2014, p. 294) no seu tratado Questões naturais. Apolônio de Tiana (que viveu sob Nero, Vespesiano e Nerva) também usa, em seu tratado em parte preservado por Eusébio, Sobre os sacrifícios, linguagem similar, vendo um estilo de vida ascético como um regime de purificação para libertar a alma inteligível da prisão do corpo (Kahn, 2007, p. 181). 

Márcio Thamos (2011) cita como exemplos da ampla influência pitagórica em Roma a descida de Eneias aos Campos Elísios no Canto VI da Eneida, Cícero (por exemplo, seu “O sonho de Cipião” no Da República) e Ovídio (que fecha as Metamorfoses com o próprio Pitágoras). De fato, segundo Plínio, o fórum romano recebeu uma estátua de Pitágoras durante a Guerra Samnita (298-290 a.C.) e Quinto Ênio (c. 239 a.C. – 169 a.C.), “pai da poesia romana”, inseriu no proêmio de seus Annales (sua epopeia histórica) a reencarnação pitagórica (Kahn, 2007, p. 116). 

Pitágoras também é visto como padroeiro de homens santos: figuras como o egípcio Bolo de Mantes (c. 200 a. C.), proto-alquimista, Nigídio Fígulo (I a.C.), restaurador do pitagorismo em Roma, o citado Apolônio, Alexandre de Abonuteico (século II), com seu oráculo e deus-serpente Glicão, chamado “o novo Asclépio”, que teria influído até mesmo sobre Marco Aurélio na campanha sobre os alamanos (Kahn, 2007, p. 182), seriam “sophoi, sábios, no domínio da religião e do oculto” (p. 183), representando um aspecto do pitagorismo na cultura popular do império. 

Humanistas do século XV, os primeiros a terem acesso à literatura filosófica grega em séculos, como Marsilio Ficino, Pico della Mirandola e Johann Reuchlin, lendo Proclo e Jâmbico, também adotaram a filosofia pitagórica como praticamente indistinta da filosofia platônica. “Como os platônicos pagãos da Antiguidade tardia haviam ligado Pitágoras à sabedoria oriental depositada nos oráculos caldeus, os platônicos cristãos do renascimento podiam ligá-lo à Bíblia hebraica como enriquecida pela interpretação cabalista” (Kahn, 2007, p. 197). Ainda na astronomia moderna de Copérnico e Kepler esta filosofia exerce influência: este último teria sido o último “cientista pitagórico” na tradição do Timeu platônico (p. 211), agora que as “forças físicas” de causalidade newtoniana começam a ser o novo paradigma. 

Pitágoras é uma das marcas de sucesso da Antiguidade, “vendeu bem” conquistando corações e mentes por séculos. Seja na busca de purificação para libertar a alma do corpo, seja na investigação das proporções do universo, nossa cultura ocidental deve muito a estes símbolos, paisagens e atmosferas que nutriram infinitos sonhos. O trabalho de Kahn é erudito, sintético e claro, mapeia uma tradição longa e complexa com firmeza sem esconder sua variedade, como corresponde. Uma ótima lembrança de que o trabalho exigente pode ser acessível. 


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Pitágoras e os pitagóricos: uma breve história
Charles H. Kahn
Edições Loyola, 2007, 240 p.



Referências

Hadot, Pierra.  O que é a filosofia antiga? São Paulo: Edições Loyola, 2014.
Kahn, Charles H. Pitágoras e os pitagóricos: uma breve história. São Paulo: Edições Loyola, 2007.
Thamos, Márcio. As armas e o varão: Leitura e tradução do canto I da Eneida. São Paulo: Edusp, 2011.


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