Postagens

A tarde da sua ausência, de Carlos Heitor Cony

Imagem
Por Rafael Kafka Carlos Heitor Cony. Foto: Leo Ramos Conheci a obra de Carlos Heitor Cony muito recentemente, menos de um mês. Neste período, já li dois livros (o romance Pessach: uma passagem e a novela A tarde da sua ausência ) e já tenho mais um (o quase romance Quase memória ) na fila de leitura. Até o presente momento, tenho gostado demais da leitura de Cony por conta da simplicidade aparente que reina em seus textos sempre à serviço de um subentendido mais aprofundado, cheio de nuances e vida. A sua narrativa se delineia por frases curtas, certeiras, uma pontuação que aumenta a sensação de laconismo de uma narrativa que se propõe a dizer muito com pouco e cujo maior foco é o tempo e a memória. Em Pessach , o protagonista Paulo encara um panorama de quarenta anos de vida por um novo prisma, a possibilidade de entrar ou não em uma luta armada pela derrubada do regime ditatorial imposto pelos militares, com o nome de revolução, no ano de 1964, e que já durava bem uns...

Os limites invisíveis de Jarbas Martins

Imagem
Por Thiago Gonzaga   O poeta é o homem universal; tudo o que agitou o coração de um homem, tudo o que a natureza humana, em todas as circunstâncias, pode experimentar e produzir, tudo o que reside e fermenta num ser mortal – é esse o seu domínio que se estende a toda natureza. Arthur Schopenhauer Síntese e simplicidade demostram toda a aptidão criativa do escritor Jarbas Martins neste novo trabalho poético, que simboliza, também, um estado de espírito do  experiente bardo da cidade de Angicos: o da liberdade de criação através de haicais.  Arte originariamente japonesa, o haicai,  pela sua própria natureza, tem característica mais descritiva do que conceitual, por exemplo, e talvez por isto alguns críticos o encarem com certa reserva. Afrânio Peixoto, em seu livro  Miçangas  –  poesia e folclore , publicado em l93l, assim definiu o haicai: “Pequeno poema de três versos, de cinco, sete, cinco pés métricos, respectivamente, que r...

As devoradoras palavras de Roberto Menezes

Imagem
Por Alfredo Monte «.… é pegar pesado? Acho que não, sem sombra de dúvida, não...» 1 Fiquei tentado a enganar meu leitor, enfatizando o lado “história de vingança”, com toques macabros à Stephen King, de Palavras que devoram lágrimas, romance que faz parte da coleção digital Latitudes (e-galaxia). Não seria uma mentira nem algo descabido. Roberto Menezes não tem medo de incorporar o universo de King ou outras referências da indústria cultural  («ops, fiz de novo, como diria a britney»); no entanto, estaremos mais próximos da radicalidade e do efeito avassalador do texto do autor pernambucano (mas de vivência predominantemente paraibana, salvo engano) se o pensarmos na linhagem de um Paixão segundo G. H. (1964), de Clarice Lispector, ou de alguns filmes bergmanianos (como Através de  um espelho , 1961), no sentido de que derruba as escoras, que escava as fundações, que põe a nu os tapumes que cercam nossa condição humana. A própria narradora...

O sol é para todos, de Harper Lee

Imagem
Harper Lee no set  de filmagens de O sol é para todos , em 1961. “Quando tinha quase treze anos, meu irmão Jem sofreu uma fratura grave no cotovelo. [...] Continuo achando que tudo começou com os Ewell, mas Jem, que era quatro anos mais velho que eu, dizia que as coisas começaram bem antes. Ele dizia que começaram no verão em que conhecemos Dill e ele nos deu a ideia de fazer Boo Radley sair de casa. [...] Depois de obter  o diploma, meu pai voltou para Maycomb e começou a exercer a profissão. [...] Seus dois primeiros clientes foram as duas últimas pessoas condenadas à forca no condado de Maycomb. Atticus tinha insistido para que eles aceitassem a generosidade do Estado, que permitiria que continuassem vivos caso se declarassem culpados de homicídio. [...] Maycomb era uma cidade antiga, mas quando a conheci, era antiga e decadente. Quando chovia, as ruas viravam um lamaçal vermelho; o mato crescia nas calçadas e o tribunal parecia afundar no meio da praça. D...

Czesław Miłosz

Imagem
Czesław Miłosz nasceu em 1911 na região de Szetejnie, quando o país ainda pertencia ao Império Russo. Essa parte da geografia europeia passou por largas intervenções; essa região onde Miłosz nasceu, por exemplo, na época território da Lituânia, era uma parte da Polônia – esta que esteve dividida não só com o Império Russo, mas com a Prússia, a Áustria e até deixou de existir como Estado no fim do século XVIII e só veio ressurgir em 1919 com uma parte considerável dos antigos territórios. Ao final da Segunda Guerra Mundial as fronteiras da Polônia são deslocadas para o oeste, ficando esses importantes centros culturais poloneses sob domínio da União Soviética. Foi em Vilna, outra região polonesa, que Miłosz viveu sua juventude; interessou-se desde então pela poesia e, durante sua formação em Direito, foi um dos protagonistas do círculo Zagary que reunia poetas e leitores do gênero. O grupo vanguardista que ficou conhecido como os catastrofistas foi responsável por impulsioná-lo ...

Boletim Letras 360º #125

Imagem
Harper Lee nos anos 1950 em Monroeville. A escritora é centro das atenções do mundo inteiro pela chegada de Go Set a Watchmann . Mais detalhes ao longo deste boletim. O centro de todas as atenções dos leitores está para o universo de língua inglesa que recebe no próximo dia 14 a edição de um romance de Harper Lee até então autora de uma única obra, O sol é para todos (no Brasil, reeditado pela José Olympio). Neste boletim, aproveitamos, no instante quando lembramos o primeiro capítulo disponibilizado pelos jornais da Inglaterra e dos Estados Unidos algumas matérias que temos publicado aqui no blog. E o restante das notícias que circularam em mais uma semana no Facebook. Boas leituras! Segunda-feira, 06/07 >>> Brasil: Marcelino Freire repaginado e com textos inéditos em nova edição de Amar é crime O livro foi publicado em 2011 em pequena tiragem pelo coletivo artístico Edith, do qual Marcelino é um dos criadores e ganha reedição pelo Grupo Editorial Reco...