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Hilda Hilst: a transgressão fundamental

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Por Neiva Dutra  "Ler é como pensar, como rezar, como falar com um amigo, como expor ideias, como ouvir música, como contemplar uma paisagem, como sair para dar um passeio pela praia..." estas palavras, do escritor chileno Roberto Bolaño, sintonizam perfeitamente com a apresentação de Hilda Hilst. A escritora brasileira, que nasceu em 21 de abril de 1930 e faleceu em 4 de fevereiro 2004, foi traduzida para o francês e o inglês desde a década de setenta, ao italiano e ao alemão desde a década de noventa, ao espanhol a partir de 2002. Viveu uma existência marcada pela emoção, a solidão e o amor, manifestando-se a favor da liberdade feminina em todos os âmbitos e no mais amplo sentido. Hilda Hilst é um dos protagonistas fundamentais da paisagem literária brasileira do século XX, com mais de quarenta livros escritos em verso, prosa poética, dramaturgia e crônica, publicados entre 1950 e 2003. É uma poetisa consciente de suas ações e de suas palavras; lúci...

Boletim Letras 360º #167

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Mário de Sá-Carneiro: Portugal lembra os 100 da morte do poeta e mentor do modernismo português através de uma leva de eventos e com eles a revelação de alguns materiais inéditos. Mais informações ao longo deste boletim. Esta é mais uma edição do Boletim Letras 360º. O Letras in.verso e re.verso vai para dez anos online muito em breve. Isso dá quantas semanas? Bem, não calculamos. De vida nas redes sociais, se a memória não nos trai vai para seis anos. E isso dá quantas semanas? Também não calculamos. Mas, desta postagem, lá vão 164 semanas. Ah, o tempo! Segunda-feira, 25/04 >>> Portugal:Exposição revela peças raras e inéditos de Mário de Sá-Carneiro Há entre as primeiras edições raras, incluindo um impecável exemplar do livro de poemas Dispersão , manuscritos nunca reproduzidos, como o das "Sete canções de declínio", e até a única carta de Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa que não está na Biblioteca Nacional de Portugal, e uma amarelecida f...

Mal-entendido em Moscou, de Simone de Beauvoir

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Simone de Beauvoir escreveu Mal-entendido em Moscou  entre 1966 e 1967. O texto deveria formar parte da compilação de A mulher desiludida , mas foi a própria autora quem acabou discordando depois da ideia a ponto de não publicar esse material; ele ficou inédito até 1992, quando a revista Roman trouxe como um título póstumo. No Brasil, o livro vem a lume pela Editora Record, com tradução original de Stella Maria da Silva Bertaux, em 2015. Protagonizam o relato Nicole e André, um casal de professores parisienses que, já aposentados e na década de 1960 – década considerada no texto como antessala da decrepitude –, realizam uma viagem a Moscou para encontrar-se com Masha, a filha de André. O périplo realizado pelas três personagens é identificado pelos biógrafos de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir com a viagem que os dois fizeram pela União Soviética no verão de 1966, acompanhados de Zonina, tradutora para o russo da obra do filósofo e uma de suas possíveis amantes. ...

As leituras de Virginia Woolf

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Você gostaria de saber o que liam – e o que diziam – seus escritores favoritos? Na web há um projeto, o UK Reading, constantemente em atualização, que apresenta facilmente, através de uma base de dados aberta que pretende documentar a história da leitura na Grã-Bretanha entre 1450 e 1945 e compreende, entre outras coisas, as experiências leituras de escritores famosos como Charles Dickens, Katherine Mansfield, Henry James ou Virginia Woolf. Sobre esta última há muita informação e aqui selecionamos alguns de seus comentários sobre diversos livros e escritores, em cartas escritas em distintas épocas e à distintas pessoas.    1. Sobre Crime e castigo , de Dostoiévski “Você não pode imaginar com qual desejo caímos sobre o material impresso, tantas vezes adiado pela necessidade de escrever. Li três novos romances em dois dias. Leonard desfrutou de Old Wives Tale como gatinho com um novelo de lã. Depois desta vertiginosa correria, agora corri com toda velocidade até Cr...

Salim Miguel

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Um silêncio que se constrói em torno de uma obra cujo interesse não se deixa contaminar pela sede do mercado não pode servir de parâmetro para dizer que um escritor e uma obra são menores; em grande parte, é esta uma clara displicência, primeiro dos seus contemporâneos, depois dos leitores sempre mais suscetíveis a encontrar e ficar restrito ao que lhe é oferecido como produto de primeira qualidade no dobrar de uma esquina. Muitos já terão reparado reiteradas vezes que o mal está não no escritor ou obra que se escondem mas naqueles que de algum tempo passaram a controlar e determinar o que tem se firmado como padrão de leitura. Nesse território de displicências ganha o leitor que não se deixa levar pelo que o mercado lhe impõe e busca de alguma maneira reconhecer o que está fora desse eixo; sim, porque fora dele, ainda se concentra boa parte do que podemos chamar de boa literatura. Assim se passa com a obra de Salim Miguel. Despreocupado em atender a demanda castradora ...

O Bairro, de Gonçalo M. Tavares

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É possível que a crítica já tenha se cansado de repetir a mesma constatação – que mesmo óbvia é necessário sublinhar quando o assunto é a literatura de Gonçalo M. Tavares: sua obra é possivelmente o projeto literário mais ambicioso e singular da atual literatura de língua portuguesa. Com um estilo que conjuga densidade e sobriedade expressiva, a capacidade de síntese e a ambiguidade, o escritor é dono de uma prosa afiada como um aforismo e certeira como um verso. Fora de seu país, outros escritores – não só a crítica – assim o compreende: Enrique Vila-Matas, por exemplo, em Espanha, já disse que Tavares é um dos seus mais valiosos nomes da literatura. Além da quase unanimidade da crítica e dos seus contemporâneos – há quem torça o nariz para certas experimentações estéticas suas – há outro fator que colabora na construção de seu nome dentro e fora de Portugal: sua obra está traduzida em mais de quatro dezenas de países. Um dos elementos que chama atenção é a capacidade ar...