Robinson Crusoe e os naufrágios necessários
Por Marcelo Jungle
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| Daniel Defoe. National Maritime Museum, Greenwich, Londres. |
Daniel Defoe é o autor de Robinson Crusoe, informação que precisa ser mencionada antes de discutir sua obra mais conhecida. Ele quase se tornou inexistente por conta da fama de Robinson. É um típico caso em que o personagem suplanta o autor e isso diz muito do que este livro se tornou: uma história conhecida de todos e que poucos ainda leem. Um estranho fenômeno transformou-o em literatura infantil, mas é preciso também dizer que esse livro não é apenas isso, nem apenas o relato, repleto de aventuras de piratas e canibais vividas pelo náufrago que passou 28 anos em uma ilha deserta.
Otto Maria Carpeaux resume bem essa dualidade ao chamá-lo de “maior livro infantil da literatura universal” para, na frase seguinte, reconhecer que “aquele espírito poético revelou-se na angústia quase religiosa, inglesamente reservada, do homem perdido nos desertos infinitos do oceano, existência sem horizontes definidos — não um exemplum vitae humanae, mas uma visão da condição humana. Na história da literatura inglesa, Defoe é como um Robinson Crusoe. Será difícil apontar-lhe precursores; e não tem, no sentido estrito, sucessores” (Carpeaux, 2008, p. 1060). Também o enredo de Robinson Crusoe é como se tivesse sido esquecido em alguma ilha deserta da literatura.
Publicado em 1719, tornou-se um best-seller, provavelmente por se agregar à narrativa de Alexander Selkirk (1676-1721), marinheiro escocês que foi abandonado numa ilha deserta na costa do Chile, onde passou quatro anos. Esse acontecimento recebeu grande cobertura jornalística à época e Defoe era, antes de tudo, jornalista. Ele teve não só a inspiração no acontecimento, como o senso de oportunidade para escrever, aos 59 anos, um dos livros mais vendidos e conhecidos de todos os tempos.¹
Não se pode negar que a imagem heroica serviu para difundir o livro mundo afora, traduzido em quase todas as línguas e com mais de 700 versões. Isso foi importante, mas o livro é muito mais do que um romance de aventuras. Todo esse sucesso pode ter ofuscado a dimensão literária, universal e humanística da obra. A incapacidade de ficar, a fuga que se repete apesar da percepção e das advertências sobre a destruição que trará, são o tema deste ensaio, que foca no episódio da ilha e no que o antecedeu. Essa leitura, vale dizer, é uma entre as várias possíveis; não há necessidade de confrontá-la ou defendê-la perante outras, pois a variedade de interpretações é a marca dos grandes livros.
De início, é necessário atentar ao que precede o naufrágio.
Robinson nasceu em York, filho de um comerciante de origem alemã. Logo no início, o pai tenta dissuadi-lo de qualquer vida aventureira, fazendo um longo elogio à “condição média” da vida, que prioriza a estabilidade confortável da classe média inglesa em detrimento dos extremos da riqueza, do poder, da pobreza ou do trabalho braçal. É um discurso quase filosófico sobre contentamento e limites. Robinson ouve, mas não absorve. Ao negar a vida morna que lhe propõe o pai, ele repetidamente reconhece ser levado por um impulso que não consegue dominar: algo que chama de destino, de “fatalidade oculta”, de propensão a uma vida errante que a razão condena, mas que ele obedece de qualquer forma. Aos dezenove anos, embarca em um navio na costa britânica e já enfrenta seu primeiro naufrágio. Uma tempestade violenta ao largo de Yarmouth o assusta tanto que ele promete a si mesmo voltar para casa e obedecer ao pai, caso sobreviva. O navio vai a pique e a tripulação consegue escapar num bote. A tempestade passa e o medo também. Mas a vergonha fica:
“Em relação ao retorno, a vergonha se opunha às melhores sugestões propostas a meus raciocínios, já que logo pensava como ririam de mim os vizinhos e quão acabrunhado eu poderia me sentir ao encarar não só meus pais, como também todas as outras pessoas.” (p. 27)²
Após uma temporada em Londres, superados esses pensamentos, ele parte em uma viagem comercial à Guiné, na África, que se revela bem-sucedida e lhe rende um lucro modesto. Sente-se inspirado pelo acerto de sua insubmissão. Numa segunda viagem à mesma região, porém, é capturado por piratas e passa cerca de dois anos como escravo, até fugir e ser resgatado por um navio português que o leva ao Brasil. Estabelece-se na Bahia como plantador de cana, mas a própria prosperidade o arrasta de volta ao mar: outros plantadores propõem-lhe financiar uma expedição à África para trazer escravos, aproveitando sua experiência anterior. Robinson aceita, contra o próprio juízo, movido por ganância e inquietação. É nessa viagem que ocorre o segundo e famoso naufrágio, decorrente de uma tempestade perto da foz do Rio Orinoco. Só ele sobrevive, lançado sozinho na praia da ilha.
O naufrágio não é, portanto, acidente puro; é desfecho de uma sequência de desobediências, promessas quebradas e cobiça (o mar, o lucro, agora o tráfico) que Robinson nunca conseguiu conter. A “vergonha do retorno” ganha nova força: é a vergonha de falhar mais uma vez, depois de repetidas advertências ignoradas. E a ganância da viagem final, buscar escravos para expandir a própria riqueza, é o último gesto de apetite mundano antes da solidão total que vai dissolvê-lo. Não é, desse modo, a primeira repreensão que funciona, mas aquela que não deixa alternativa. O tema existencial é desconfortável: como nos tornamos mais verdadeiros ao tocar a borda daquilo que não podemos possuir, transcendendo a solidão como processo de autoconhecimento e guinada espiritual. Ou, ainda: como todos podemos estar, em algum momento de nossas curtas vidas, presos na ilha imaginária de um naufrágio real.
Virginia Woolf disse que, onde esperaríamos encontrar a solidão e a alma, Defoe nos põe diante de um grande pote de barro. Ela está certa quanto à materialidade da narrativa; contudo, o que mais se sente no livro é a solidão. A transformação do personagem ocorre através dos objetos. A presença concreta do outro é abolida no exato momento em que Robinson se vê jogado na praia da ilha. Ele ainda não sabe, mas seu desespero inicial em nada pode lhe servir, pois não há ninguém para se compadecer de sua desgraça. Era hora de embarcar numa nova viagem, em direção ao enfrentamento de si mesmo e da experiência do encontro com a permanência. Daniel Defoe constrói uma realidade que representa o horror de um nada insuportável, cuja única saída é ficar, junto com a valorização dos objetos que restaram e de seu próprio interior, antes incontrolável. A solidão absoluta.

Justo ele, que nunca conseguiu ficar em lugar nenhum, vê-se forçado, pela primeira vez, a permanecer — e é isso que produz a alteração no personagem. Agora ele se vê obrigado a fazer reuniões consigo mesmo (“Reuni-me em conselho comigo mesmo”), ouve as críticas do que chama de “minha consciência” e descobre a existência de dons que jamais imaginou ter ou desenvolver.
Esse percurso de engrandecimento pessoal é particularmente empolgante. O que fazemos de nós mesmos nessas situações é o que temos a aprender com Defoe e sua lendária história. É o centro da existência que lhe resta, como o simbolismo que toda ilha carrega: perceber-se sozinho em uma ilha deserta pode ser uma experiência valiosa, que revela muito da condição humana e daquilo que nos move. No entanto, temos facilidade com brincadeiras como “o que você levaria para uma ilha deserta?”, mas imensa dificuldade em admitir que essa condição de abandono e silêncio nos causa desconforto só de pensar que podemos um dia estar nela. Robinson resume a transformação e evoca o mito do refúgio, baseado na vida apartada dos desejos e da necessidade de validação externa:
“Em meio a essas atividades, completei meu quarto ano na ilha e celebrei o aniversário com a mesma devoção e consolação de sempre; graças a um estudo constante, à aplicação circunspecta da palavra de Deus e ao amparo de Sua graça, havia adquirido um conhecimento diverso do que possuía antes. Diferente era agora minha noção das coisas. Olhava o mundo numa dimensão distante, que não me dizia respeito nem me incutia desejos e de onde não esperava o que quer que fosse: era como se de fato eu nada tivesse a ver com ele, nem provavelmente nunca viesse a ter; já lhe conferia a mesma realidade que talvez a ele atribuamos numa vida futura, qual seja, um lugar em que vivi, mas do qual acabei saindo; bem que me caberia dizer, como a Lázaro disse o Patriarca Abraão: ‘Entre nós e vós existe um grande abismo’.” (p. 150)
Para Defoe, o processo da busca interior inicia-se com o naufrágio pessoal. Mas qual salvação é essa? Sair do degredo e voltar à civilização? Robinson gasta boa parte do tempo inicial buscando meios para atingir esse objetivo. Todavia, em um dado momento, sente-se grato pela vida que leva. Outra salvação poderia ser a aceitação de sua nova condição: viver afastado do mundo de pecado, onde as fugas não eram mais necessárias:
“Mas eu só dava valor àquilo de que tirava proveito imediato. [...] A natureza e a experiência vivida me ensinaram, após justa reflexão, que todas as boas coisas do mundo logo deixam de ser boas quando não nos são mais úteis. O avarento mais ambicioso e sovina iria se curar do vício da ganância se estivesse em minha situação [...]. Tinha algum dinheiro em ouro e prata, ao qual já aludi, que correspondia a cerca de trinta e seis libras esterlinas; mas por lá ficava, ai de mim, essa coisa inútil, ordinária e sórdida.” (p. 151)
Assim, o pote de barro alcança um significado muito maior do que, por exemplo, os valores coletados do navio naufragado ou porventura outros bens que deixou para trás após o naufrágio. Esse é o movimento natural do puritano Robinson ao transferir seu impulso de felicidade para um mundo que ele reproduz conforme sua natureza, inclusive teológica.
O fim dessa condição, com o aparecimento de Sexta-feira e, mais tarde, de outros dois náufragos, após anos de solidão numa existência com objetivos bem definidos, começa a transformá-lo novamente. Aliás, essa transição tem início bem antes da saída da ilha ou mesmo do encontro com outros seres humanos perdidos. Isso acontece quando Robinson passa a ser dominado pelo medo, pela presença de algo que ele não sabia o que era, representado por uma solitária pegada na praia. O mundo externo que invade seus domínios dá a dimensão de que a origem da perdição pode estar nos pequenos sinais diários. Normalmente não sabemos medir sua relevância e somos governados pela imaginação do desconhecido. É como se pensássemos que os naufrágios estão ao nosso redor o tempo todo, os alheios e os nossos, e que são eles que vão nos definindo. Robinson é sugestionado pelo temor da retomada de sua vida antiga, o que implicaria novas formas de fugir ou um novo fracasso, agora pelos imensos desertos da civilização.
Ali encerra-se o processo civilizatório individualista que ele se propôs a construir em sua ilha. Após a chegada de outros humanos, Robinson começa a nutrir sonhos de poder, sentindo-se um monarca, com apenas três súditos, desenvolvendo em sua mente desejos que há muito não o habitavam:
“Pensei em mim cheio de súditos, minha ilha agora povoada, e eu às vezes de fato me dava à reflexão zombeteira de como estava parecido com um rei. Toda a terra, por um lado, era de minha propriedade, e sobre ela eu tinha indubitável poder de mando. Por outro, meu povo estava na mais completa sujeição: eu era senhor absoluto e legislador de todos, que me deviam a vida e se achavam prontos a sacrificá-la por mim, se necessário. Era também de se constatar que o reino contava apenas três súditos, cada um de uma religião. Meu ajudante Sexta-Feira era protestante; seu pai, canibal e pagão; o espanhol, papista: mas eu permitia liberdade de consciência em todos os meus domínios, o que aliás só digo de passagem.” (p. 270)
A permanência, agora, precisa ser justificada. Nosso personagem começa sua viagem de volta a conquistas que dependem do outro, reerguendo seu passado colonial, que o levara até ali. A partir daí, podemos considerar o experimento encerrado, pois Robinson sai da ilha, mas não sai ileso da lição que ela lhe impôs: a de que ficar, tantas vezes evitado, era a única fuga que lhe restava fazer. Ele parte não apenas como um sobrevivente físico, mas como prova da transitoriedade de nossas vidas, o que revela como os desejos podem formar e moldar nosso destino, para além dos desígnios imediatos da imaginação.
Rousseau, em Émile (1762), aponta Robinson Crusoe como o único livro que seu aluno deveria ler: modelo de autossuficiência natural, despojado de tudo o que é irrelevante. Ao final, descobrimos que esse “despojamento”, apesar de não poder ser tomado por falso, é transitório e não resiste fora de um ascetismo forçado. A ilha converte Robinson, mas não o purifica completamente. A solidão suspende seus desejos sociais; quando o outro reaparece, reaparecem com ele o domínio, a hierarquia e a vaidade. Mas, ao mesmo tempo, tudo mudou. Ou talvez mude, a cada vez que reconhecermos nossos próprios naufrágios.
O que faríamos nessa ilha com nós mesmos? Eis a pergunta que Daniel Defoe nos deixou.
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Robinson Crusoe
Daniel Defoe
Daniel Defoe
Leonardo Fróes (Trad.)
Nicolás Robbio (Ilus.)
Ubu, 2021
Nicolás Robbio (Ilus.)
Ubu, 2021
432 p.
Notas
1 Para uma descrição aprofundada da trajetória do livro, veja-se o artigo de Maria Ligia Coelho Prado e Valdir Donizete Santos Junior, “Robinson Crusoe: circulação e apropriações de uma trama transatlântica”, aqui em Transatlantic Cultures, 2020.
2 Todas as citações de Robinson Crusoe foram extraídas da tradução de Leonardo Fróes, publicada pela Ubu Editora (2021).
Referências
Carpeaux, Otto Maria. História da Literatura Ocidental. 3 ed. Brasília: Senado Federal, 2008. Vol II.
Defoe, Daniel. Robinson Crusoe. Tradução de Leonardo Fróes. São Paulo: Ubu Editora, 2021.
Prado, Ligia Coelho; Santos Junior, Valdir Donizete. Robinson Crusoe: circulação e apropriações de uma trama transatlântica. Transatlantic Cultures, abril 2022.

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