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Sôbolos rios que vão, de António Lobo Antunes

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Por Emma Rodríguez Quando António Lobo Antunes participou da Guerra de Angola se dedicava a escrever cartas; cartas nas quais falava de muitas coisas e que nasciam de sua necessidade de comunicar que estava vivo. Para o escritor português os romances que escreve também partem desse desejo. O que faz é colocar-se junto do leitor e dizer-lhe: “estou aqui, contigo, diante deste mistério que não compreendemos, um mistério que nos ultrapassa e que, como dizia Lorca, nos faz viver”. Assim me contava numa conversa que mantivemos na época da publicação de O arquipélago da insónia . Agora, meu o retorno à sua obra se dá com Sôbolos rios que vão , um romance que seduz com aquela perseverança da memória, com os rumores de um passado que nunca desaparece, que se torna presente enquanto exista alguém que siga mantendo suas recordações. Já ao iniciar a nova viagem estive consciente de que as atmosferas do velho casarão desse “arquipélago”, um casarão cheio de quadros fotográ...

As grandes ondas, de António Barahona (Parte II)

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Por Pedro Belo Clara Eis um facto agora incontornável: a religiosidade da poesia, ou a poesia como veículo do e para o Divino, está explícita no grosso dos poemas compilados neste livro. Daí aflora o perfume místico que embeleza certos trabalhos e o carácter quase onírico que, mais raramente, reveste outros. Mas ambos são, sem dúvida maior, os pilares centrais que sustentam o poético habitáculo de António Barahona. Além disso, e de modo mais subtil, pode depreender-se uma intenção de busca que em certos versos surge admitida por meios mais abertos, aspecto esse que também se considerará transversal aos demais 1 . Falamos de poética e naturalmente as razões do seu ofício, bem como diversas questões ou ilustrações referentes à sua prática, não poderiam ocultar-se deste trabalho cujas notas já lançadas serviram apenas o intuito de trazer da obscuridade certos ângulos da face que ostenta. No poema “As caves do murmúrio”, que recebe uma breve referência a Mário Cesariny, ...

Boletim Letras 360º #168

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Marcel Proust numa das fotografias do conjunto de objetos últimos do escritor que vai a leilão. Mais detalhes ao longo deste Boletim. Foto: Soteby's. Antes de passar às notícias que fizeram a semana do Letras in.verso e re.verso nas redes sociais, gostaríamos de deixar os leitores na expectativa sobre nossa próxima promoção. Depois do sorteio da edição de Todos os contos , de Clarice Lispector, já temos novas ideias. Fiquem atentos! No mais, uma visita às novidades do rico universo literário. Segunda-feira, 02/05 >>> Brasil: Toda obra de Katherine Mansfield ganhará publicação por aqui Uma das edições mais recentes da obra de Mansfield no país foi publicada numa coleção editada pela Cosac Naify, a Mulheres Modernistas; era uma antologia de contos. Agora, toda bibliografia da escritora neozelandesa ganha edição no Brasil pela Autêntica Editora. O trabalho é do brasileiro Rogério Bettoni que foi selecionado para a edição 2016 do programa de residência d...

Sete pontos da filosofia da composição de Edgar Allan Poe

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Edgar Allan Poe sempre aparece em muitas listas e artigos literários não apenas porque alcançou elevada popularidade com os seus escritos, mas porque foi um escritor que muito teorizou sobre o que escreveu – seja o conto, seja a poesia.  Quando vivo, não apenas por isso; na época em que se casou com sua prima aos 27 anos – ela tinha 13 – já há muito circulava entre vários grupos de jornais artigos seus sobre fofocas do mundo literário. Sim, estava atento de que o universo do qual fazia parte era diverso e oferecia material de igual forma para tornar público e esse talvez seja o principal valor que o levou tornar-se quisto então. Agora, além dessa última observação em tom de fofoca, é preciso voltar a compreender o lugar desse Poe que deu forma a todo um universo literário e à maneira com a qual passou para as gerações futuras – sim, porque não foram os textos de certa pitada trivial aqueles que o fizeram a figura que se tornou para as gerações de depois. Poe é um...

Uma visita guiada ao Ulysses, de James Joyce

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Por Pedro Fernandes Quantos livros nascem a partir de uma só obra literária? Muitos. Tantos quantas forem as possibilidades de leitura e o desvelamento de situações, temas, forças, sentidos produzidos pela criação e apreendidos pelo leitor crítico. Em alguns casos, o enigma de uma obra, por mais que seja explorado – e muitas vezes até de forma repetitiva como se averigua em muitos dos trabalhos acadêmicos sobre escritores que chamaria aqui de obsessão de um público leitor –, permanece adormecido durante largo tempo. Muitas vezes é preciso que alguém distanciado desse endeusamento que acomete até o mais frio dos críticos pela figura do escritor ou pela sua obra, afinal a empatia de natureza pessoal tem se firmado como um critério de sustentação da escolha do estudioso por determinado livro e autor, para que uma leitura realmente criadora dê novo fôlego à obra em questão. Sim, a tarefa do crítico não é a de tornar palpável aquilo que o leitor comum não consegue compreend...

Truman Capote: nem a literatura e nem o jornalismo se escrevem a sangue frio

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Por Omar Nieto Se a tão conhecida narrativa jornalística tem sua origem na crônica literária do século XIX, o termo romance de não-ficção cunhado por Truman Capote tem outra conotação: a intenção de acomodar feitos reais numa estrutura dramática que altere o menos possível a verdade proporcionada pela fonte real. O mesmo Truman fez a distinção numa entrevista concedida a George Plimpton em 1966, quando se diferencia de escritores-jornalistas como John Hersey (autor da primeira grande crônica sobre a bomba atômica), Tom Wolfe, Norman Mailer, e mesmo Oscar Lewis quem em Os filhos de Sánchez explora a violência de uma família da zona de Tepito, na Cidade do México. Sobre elas, disse Capote na referida entrevista: “O livro de Oscar Lewis é um documentário, um trabalho de edição das gravações, sem dúvidas, habilidoso e comovedor, mas não é um escrito criativo. Hiroshima (de John Hersey) é criativo – no sentido que Hersey não está descrevendo algo fora de um...