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Arco de virar réu, de Antonio Cestaro

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Por Pedro Fernandes “Você vive dentro de sua cabeça. Você não vive no mundo”. A afirmativa do narrador de Arco de virar réu contradiz sua própria percepção de sujeito: antropólogo, uma de suas preocupações reside na compreensão da estreita relação entre indivíduo e grupo. É preciso pontuar esses dois extremos da narrativa no intuito de compreender o contraditório enquanto elo enformante e estruturante da obra e esta perspectiva é igualmente elementar na própria condição enquanto sujeito idiossincrático e parte de uma organização comunitária. O entendimento acerca deste trânsito é fundamental para afirmar este romance de Antonio Cestaro entre os melhores da literatura brasileira recente. Tão logo o leitor atravesse uma estância marcada por uma descrição que irá reverberar em diversas outras passagens da narrativa, encontrará um narrador que se propõe fazer um relato familiar considerando como ponto de partida a ocasião quando este núcleo se vê em profunda crise – parte...

Seicho Matsumoto, pai da literatura proletária e policial no Japão

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Por Sergio Vera Escuta o milagre japonês? Não, não é a multiplicação dos pães e dos Pokémon. Tampouco a (enésima) ressurreição de Son Goku, mas o fulgurante crescimento econômico que o País do Sol Nascente experimentou (alguns estimam algo em torno de 10% do PIB) entre a segunda metade dos anos cinquenta e princípio dos anos setenta e tornou possível, depois de sair devastado da Segunda Guerra Mundial, o Japão se converter numa superpotência em poucas décadas. Um milagre ultracapitalista financiado pelos Estados Unidos, que provocou a queda do berço de bushido (o férreo código samurai) ante a corrupção política e o abuso de poder. Igualzinho a aqui, mas sem crise. E o melhor cronista do lado negro desse milagre foi Seicho Matsumoto, o fundador da chamada Escola Social, a primeira corrente genuinamente japonesa na História do País do Sol Nascente. Kiyoharu Matsumoto, verdadeiro nome do feitor, nasceu numa família muito simples de Kokura, por volta de 1909....

Literatura sob os escombros

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Por Luz Gómez García Wissan Al Jazairy. Spring of pain .  A batalha dos escritores  Nas letras árabes existia uma anedota que o século XXI derrubou: “Os livros se escrevem no Cairo, são impressos em Beirute e lidos em Bagdá”. Como tantas outras coisas da vida árabe depois das revoltas de 2011, agora nada é como era, tampouco o contrário. As certezas rareiam e o pensamento paradoxal domina também a literatura e a vida literária árabes, mais plurais que nunca. Depois de um século de construção de grandes narrativas, em que o romance se impôs como o gênero dos novos tempos, embora não alcançasse superar de um todo a aura da poesia, a literatura árabe afronta as misérias de um presente mais miserável do que nunca seria possível imaginar. Os autores iraquianos e sírios vêm fazendo o que fazem desde há décadas, rompendo sem tabus quando em outras latitudes árabes buscam válvulas de escape mais oníricas, líricas ou mais simbólicas. Hoje, iraquianos e sírios dom...

Sobre Joseph Roth: um kaddish para Áustria

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Por W. G. Sebald E o conde perguntou ao judeu: “Salomão, que pensas do mundo?” “Senhor conde”, disse Piniowsky, “já não penso nada de nada”. Joseph Roth, O busto do imperador Em maio de 1913, o jovem Joseph Moses Roth colocou um limpo ponto final no instituto alemão de Brody à sua infância e juventude nada livres de cuidados, ao terminar com a qualificação “sub auspiciis imperatoris”, a entrada de sua promoção, os exames para o bacharelado. Estava a ponto de cair no mundo, passando por Lemberg e Viena, e me parece que naquele momento virou as costas com pesar para sua pátria, embora aquilo a que renunciou, ao fazê-lo, se converteu logo para ele em símbolo de todos os irreparáveis negócios desastrosos que compõem a existência. Só em retrospectiva descobriu a Galícia; colocou no lugar de uma pátria destruída pela guerra, que com a dissolução do Império havia desaparecido definitivamente dos mapas, um vasto país nostálgico da Coroa. Roth, que quanto mais o temp...

Boletim Letras 360º #246

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No início da semana, dois espaços virtuais do Letras premiou leitores: na nossa página no Facebook sorteamos Zero K , o novo romance do escritor estadunidense Don DeLillo, e A família Manzoni , da escritora italiana Natalia Ginzburg; no Twitter @Letrasinverso sorteamos a caixa Lewis Carroll da Editora 34, que reúne os livros As aventuras de Alice no País das Maravilhas  e Através do espelho e o que Alice encontrou lá . Alcançamos assim a marca de 181 livros distribuídos em cinco anos. Contas prestadas, vamos   às notícias que copiamos durante a semana em nossa página no Facebook. O romance inédito de Ariano Suassuna chega às livrarias brasileiras. Segunda-feira, 30/10 >>> Brasil: A Editora Carambaia publicará um dos romances da lista de inéditos por aqui e que celebra 100 anos da primeira edição agora em 2017 Falamos sobre Húmus , de Raul Brandão. A obra considerada uma das mais inovadoras de literatura portuguesa do sécul...

A pedagogia em tempos de ódio

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Por Rafael Kafka Soube que o Movimento Escola sem Partido ganhou na justiça o direito de anular o critério do ENEM na correção das redações do certame o qual zera todas as composições que firam os Direitos Humanos. Com o choque, vi-me novamente com meus 17 anos tentando a prova pela primeira vez e lendo os critérios da redação, que naquele ano tinha o tema do poder transformador da leitura. Quando olhei a parte que falava da redação não poder ferir os Direitos Humanos, tive uma reação de repulsa, nada comparada a nenhuma das reações que hoje pululam nas redes sociais, mas ainda assim muito curiosa para o meu eu de hoje. Fui criado com muita influência dos programas sensacionalistas, principalmente depois que a faixa de desenhos do SBT, no começo da tarde, passou a ser trocada por novelas mexicanas das mais insuportáveis, as quais levaram minha família a cultivarem programas com jornalistas sem formação intelectual alguma pregando a limpeza da população pobre sob a forma ...