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Kárita e Kundera

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Por Rafael Kafka Quando conheci Kárita, lembrei-me da primeira experiência tida por mim ao ler A insustentável leveza do ser . Eu ainda era o Rafael que lia os livros pensando encontrar uma resposta concreta para os dilemas que se me apareciam na vida e levaria ainda anos para entender que muitas vezes a simples reflexão e exercício de crítica são as respostas melhores por indicarem mudança de olhar e direcionamento para além do óbvio. A primeira cena narrada deste romance é a de quando o autor supostamente encontra Thomas pela primeira vez. Ele então introduz um elemento muito comum em sua obra: uma reflexão a qual para leitores como o meu eu de 17 anos pode soar um andar em torno de nada para chegar a lugar algum. Curioso que reli o livro um ano depois da primeira vez na qual o lera e passaria dez anos mais ou menos sem ler nada de Kundera, até me deparar com o excelente A imortalidade . As reflexões existenciais de Kundera passaram a me encantar ainda mais, pois nã...

Uma forma de saudade, de Carlos Drummond de Andrade

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Por Pedro Fernandes Carlos Drummond de Andrade não alimentou o espírito narcisista – tentador e quase sempre o ar que sopra favorável à fogueira das vaidades de todo criador. O neto Pedro Augusto abre as notas reunidas em Uma forma de saudade com esta constatação ao recordar a opinião do avô acerca do trabalho do escritor em manter e tornar público seu dia-a-dia. Na opinião dele, a obra é suficiente para dizer sobre o autor e um diário, por exemplo, resultaria em objeto redundante, ou, ainda pior, puro exercício de exibição. Embora esta opinião do poeta de “No meio do caminho” tenha seu fundamento, ela é factível a diversos desenvolvimentos. Nela parece residir uma ideia segundo a qual os teóricos da literatura começaram por pensar a partir de uma negativa; na obra, haveria todas as marcas possíveis, ou quase isso, representativas de quem a escreveu, sendo impossível negar totalmente a presença do escritor na sua criação. Se, por vezes, Pedro encontra na obra do av...

Dunkirk, de Christopher Nolan

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Por Pedro Fernandes Foi comum ouvir, quando da apresentação de Dunkirk , que este filme era mais um sobre guerra. Mas não é. Não necessariamente nessa ordem. Toda a narrativa toma como pano de fundo o cenário de começo da Segunda Guerra Mundial – há mesmo cenas de combate aéreo e de ataques, mas os interesses estão em sublinhar desde aspectos individuais a coletivos que respondem por temas como superação, sobrevivência, convivência, empatia, força comunitária, conflitos de culturas etc. A história retomada é a da evacuação de Dunquerque; enquanto as forças de Adolf Hitler avançavam a largos passos sobre meia Europa, os britânicos necessitavam evacuar, numa mudança repentina de estratégia de ataque, 120 mil homens em cinco dias. A operação militar tinha o propósito inicial de levar 45 mil homens em dois dias; e, no fim, quase quatrocentos mil soldados conseguiram escapar entre 26 de maio e 4 de junho de 1940. Dos dez dias dessa operação, Nolan se concentra nos ú...

Que fazemos com “Lolita”?

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Por Laura Freixas Medo e hostilidade: é a reação de muitos ante o movimento #Metoo, isto é, ante o feminismo aplicado à cultura. Criadores, intelectuais se mobilizam pela liberdade de criação; tem que a ideologia se imponha sobre a qualidade como critério máximo; e afirmam o direito da arte de representar o mal. Este último argumento me parece o mais interessante e é nele em que vou me concentrar. Não podemos exigir, nos dizem quem assim pensa, romances, filmes, óperas que pintem um mundo mascarado, politicamente correto, com personagens positivistas e ações moralmente não reprováveis. A arte que assim se porta seria falsa. Tomemos, por exemplo (é de fato seu exemplo favorito) Lolita : a história de um homem de meia-idade, Humbert Humbert, que gosta de meninas. O mundo, nos dizem, está cheio de Humberts. Que ganharíamos censurando seu reflexo literário? Aceito de imediato: tomemos Lolita . E o que primeiro vejo é uma história de violência exercida por um...

Nem Joyce sabia para onde ia seu Ulysses

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Por Kiko Amat “Há muitas razões pelas quais a gente acredita que existem livros que ‘devem’ se ler”, afirma Mikita Brockman em Contra a leitura , “mas suspeito que (...) podem se resumir em insegurança intelectual, esnobismo, alguns preconceitos de classe, egoísmo e uma espécie de folclore supersticioso enraizado na tradição”. Já veem que o conceito de “prazer” está ausente da lista. O desejo voraz de ler um clássico “obrigatório” é tão raro como um desejo por escarola em pleno munchies . Alguém recorre aos clássicos canônicos por culpa e compromisso, sem esperança de diversão, igual à missa do galo. É um paradoxo. Ninguém sonharia em ouvir música pop para evitar passar bem o tempo (exceto os mais perversos, certamente).  A arte, por norma geral, não serve a esse fim. E, sem dúvidas, aqui está  Ulysses , o segundo romance de James Joyce. Um livro que só pode ser lido sofrendo. E deixem-me dizer, amigos meus, que (invertendo a máxima churchilliana ) nunca ta...

Boletim Letras 360º #264

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Na próxima semana iniciaremos uma promoção nova no Instagram do Letras. Para saber mais detalhes sobre e participar fica, então, o convite para seguir o @Letrasinverso. Sem mais o que avisar, vamos às notícias que fizeram parte, esta semana, do mural do Letras no Facebook. Victor Heringer, o vazio que fica e nunca nos passará. Segunda-feira, 05/03 >>> Brasil: A Editora UFMG reedita Passagens , de Walter Benjamin A notícia foi divulgada na semana anterior na página da editora aqui no Facebook. A nova edição do clássico título do pensador alemão se apresenta em três volumes. Passagens  é uma das obras historiográficas mais significativas do nosso tempo. A partir de Paris, a "capital do século XIX", especialmente suas galerias comerciais enquanto "arquipaisagem do consumo", são apresentados a história cotidiana da modernidade – com figuras como o flâneur, a prostituta, o jogador, o colecionador – e os meios de uma escrita polifônica q...