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A cosmologia do caminho

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Por Tiago D. Oliveira Uma orquestra de minorias , do nigeriano Chigozie Obioma, traduzido por Claudio Carina e publicado pela Globo Livros, é um romance fincado sob o conjunto de tradições e crenças de um   povo, a cosmologia igbo. Ele traz uma história que apresenta a relação de um criador apaixonado por aves, Chinonso, com Ndali, uma mulher da alta classe da Nigéria. A paixão dos dois evoca uma cena clássica na literatura, um conflito que se vale da diferença das classes sociais, mas que se reinventa a partir da estrutura narrativa e da voz de um narrador que se apresenta como Chi , o espírito guardião de seu hospedeiro, Chinonso.   Depois que Chinonso vê Ndali se encorajando para pular de uma ponte ele a convence de que seria um ato impensado e salva a moça plantando a semente de um interesse mútuo que se transformaria em um relacionamento amoroso. A forte oposição da família de Ndali à relação dos dois faz com que Chinonso queira ter um diploma para ser acei...

O retrato da solidão

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Por Joaquim Serra Paul Auster tem a notícia da morte do pai. É o gatilho necessário para tentar reconstruir na primeira parte de A invenção da solidão partes daquele enigmático homem. À maneira de um mosaico, a memória reconstrói a solidão dos últimos anos de vida do pai, a relação distante com o filho, o casamento como uma interrupção da vida que, mais tarde, depois do divórcio, ele retomaria. O autor de O livro das ilusões , A noite do oráculo , e o mais recente 4321 , já publicado no Brasil, volta aos primeiros de vida até o presente da composição de A invenção da solidão. O livro faz parte de suas incursões autobiográficas em que o autor opta por uma terceira pessoa para falar de si mesmo. Isso não confere veracidade à narrativa, mas distancia – ou às vezes aproxima – aquele que fala daquele que age. A primeira parte, “retrato de um homem invisível”, é uma busca do autor pelo entendimento da figura paterna. O pai é ausente, solitário, “o mundo ricocheteava nele,...

Elena Garro: poderes da palavra

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Por Lucía Melgar Criadora de mundos de luz e sombra, Elena Garro explorou todos as formas: o jornalismo, o roteiro para cinema, o ensaio, as memórias, a poesia, o teatro e a narrativa. A maestria de sua literatura e a criatividade inovadora são suficientes para situá-la entre os melhores nomes do universo literário espanhol. Grande leitora, conhecedora da literatura espanhola dos séculos de ouro, do romantismo alemão, do grande romance russo e da literatura fantástica do Rio da Prata, entre outras, configurou em seus textos um olhar agudo e sensível sobre seu tempo, uma imaginação deslumbrante e uma escrita fina, rica em matizes e contrastes. Testemunha de seu tempo, traçou em sua obra um amplo e lúcido mosaico dos avatares do século XX. Em seus romances e contos, farsas, dramas e memórias, aparecem cenas de uma história turbulenta e sombria; personagens encantadoras ou desprezíveis, presas na mediocridade do tempo cronológico ou ameaçadas por um destino fatal, que bu...

Boletim Letras 360º #333

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Durante a semana, a partir da edição 329 deste Boletim , recebemos inscrições para uma promoção que enviará a um leitor dois títulos dos seis indicados entre os destaques das publicações no mercado editorial brasileiro do primeiro semestre de 2019. Ficamos de anunciar o ganhador nesta postagem. Ontem, depois do encerramento das inscrições, às 22h, pedimos em nossa página no Instagram e Facebook a recomendação de um número entre 1 e 242, intervalo que assinala a sequência da quantidade de inscritos. Recebemos até às 10h de hoje 25 palpites, dos quais 6 para o número 13. E o número 13 na ordem de inscrições é o de Amanda Maria da Silva Carvalho, de Cocal, Piauí. Parabéns à ganhadora e desejamos ótimas leituras! A todos que contribuíram para a realização da promoção ficam nossos agradecimentos e o aviso que, para breve, virão outros momentos do tipo. A seguir as notícias que circularam durante a semana em nossa página no Facebook e outras dicas de leitura. Revelada uma série de tít...

Por uma aprendizagem pautada na autonomia

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Por Rafael Kafka © Keith Haring Há quem considere que as escolas brasileiras no geral são dominadas por um pensamento por demais liberal, em um sentido mais libertário, e que isso tem afetado o modo como os jovens aceitam receber ordens e reagem ao mundo exterior. A anomia na qual vivemos – que muitos chamam de “anarquia” – seria então fruto de uma juventude que não reconhece o poder da autoridade e não sabe reter seus impulsos, deixando-os vagar livremente. Desses impulsos soltos de modo irresponsável pode surgir e provavelmente surgirá a violência. As escolas brasileiras em geral são mal estruturadas e os professores pouco têm acesso à formação continuada. Isso faz com que muito do ensino na educação básica seja focado ainda em método expositivos e tecnicistas, com os estudantes lidando com saberes os quais não fazem sentido para sua vida, fator que por si só já seria suficiente para gerar desinteresse, um dos motivos iniciais da cadeia de indisciplina que p...

A promessa, de Friedrich Dürrenmatt

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Por Pedro Fernandes Algumas das expressões romanescas adquiriram um modelo repetido até a exaustão. É o caso do romance policial. Desde a publicação, em 1841, de The murders in the rue Morgue , de Edgar Allan Poe, que uma sorte de características tem servido à imaginação criativa de escritores de diferentes culturas: a cena casual de um crime, uma investigação em que todos são suspeitos e por vezes o criminoso é o menos provável, um detetive vestido dos princípios racionais capaz de desvendar o mistério com um simples ou um complexo exercício de estratagemas. A variedade de obras literárias ou de escritores que lidam com esses elementos levaram os estudiosos a compreenderem pelo menos duas categorias constitutivas do que podemos chamar por um modelo de romance: as histórias de detetives e as histórias policiais. As duas têm sua raiz na literatura criminal anglo-saxônica e se distinguem pela presença diferenciada do herói: numa, é um detetive particular e, noutra, um ou um g...