Seis poemas de Li Bai
Por Pedro Belo Clara
(Seleção, versões e notas)*

IN MEMORIAM¹
(o poeta chora Ho Chi-Chang)
O lugar de Ssu-ming tinha um louco,
Ho Chi-Chang, o vento e os ribeiros punham-no frenético.
A primeira vez que o vi, em Chang-an,
Chamou-me “um deus no exílio”.
Oh, estimado amante da taça,
Tornou-se a erva debaixo do pinheiro —
Ele que deu a sua tartaruga dourada em troca de vinho.
Agora, sozinho, recordo-o — e as lágrimas caem.
PARA TU FU, DA CIDADE DA COLINA ARENOSA²
Por que vim até aqui, afinal?
A solidão é o meu destino na Cidade da Colina Arenosa.
Velhas árvores erguem-se junto às muralhas da cidade;
Escutam-se, dia e noite, as atarefadas vozes do outono.
O vinho de Luh não tranquiliza o meu espírito,
Nem as comoventes canções de Chi o tocam;
Todos os meus pensamentos correm até ti,
Com as águas do Min seguindo para sul, sem cessar.
REINVINDICAÇÃO
Se o céu não amasse o vinho,
A Estrela do Vinho³ não existiria nas alturas;
Se a terra não amasse o vinho,
A Nascente do Vinho⁴ não brotaria desta terra.
Se céu e terra amam o vinho,
Para quê um bebericador mortal sentir-se envergonhado?
O vinho translúcido, assim escutei,
Tem a apaziguadora virtude dum sábio;
Enquanto o vinho encorpado é rico, dizem,
Como a fértil mente dos sensatos.
Tanto o sábio como o sensato foram bebedores,
Para quê procurar por semelhantes entre deuses e trasgos?
Pega num jarro cheio, e o universo é teu.
Tal é o arrebatamento do vinho,
Que o sóbrio jamais receberá.
AS LÁGRIMAS DO EXÍLIO
A maré esvazia, as águas regressam ao mar.
O meu amigo retorna a Wu5⁵ depois do exílio.
Perguntei-lhe sobre as agruras dum desterrado.
As lágrimas caíram-lhe como pérolas do Mar do Sul⁶.
A APANHADORA DE LÓTUS
Na orla do rio Jo-Yeh⁷, apanha flores de lótus;
Conversa com as amigas e ri entre os lírios.
A água clara, tocada pelo sol, reflecte as suas roupas alegres,
As mangas perfumadas tremendo ao de leve com o vento.
Mas quem são os cavaleiros na margem do rio?
Dois-a-dois, três-a-três, cintilam através dos salgueiros inclinados;
Os cavalos relincham por entre as flores abertas e desaparecem.
Ela vê-os e detém-se — com o coração angustiado.
A SENHORA WANG-CHAO⁸
I.
A Senhora Chao escova a sela de pérolas incrustada;
Monta o seu palafrém e chora,
As lágrimas humedecendo as rosadas maçãs-do-rosto.
Hoje, uma senhora de berço no Palácio de Han⁹;
Amanhã, numa terra distante
— escrava dos bárbaros.
II.
A lua sobre o Palácio de Han
E por toda a terra de Chin,
Vertendo uma torrente de luz prateada,
Diz adeus à radiante senhora.
Segue pela estrada do Portão das Jóias —
A estrada que não mais irá percorrer.
A lua regressa ao seu lugar sobre o Palácio de Han,
Erguida desde os mares orientais,
Mas a radiante senhora casa-se a ocidente,
Não mais voltará.
Nas montanhas da Mongólia, as flores são feitas
Das longas neves invernais;
A de sobrancelhas de mariposa, com o coração partido
Enterrada está nas areias do deserto.
Em vida faltou-lhe o ouro,
O seu retrato foi distorcido.
Na morte deixa um pequeno monte verde,
E o mundo inteiro enche-se de lamentos.
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Notas
1 O amigo que o poeta chora era um jovem cortesão, natural de Ssu-ming (hoje Siming), lugar para onde, posteriormente, se retirou — vindo depois a falecer. A tartaruga referida seria, decerto, algum amuleto ou adorno que este usava com frequência.
Chang’an era a capital da China durante a Dinastia Tang. Hoje, denomina-se Xian.
2 Também grafado Du Fu (712 – 770), um dos maiores poetas chineses de sempre, amigo de Li Bai. Ambos pertencem ao restrito grupo dos “Imortais” da poesia daquele país.
A cidade onde o poeta se encontra é Shacheng, uma cidade de fronteira, desolada e melancólica.
3 Uma mítica divindade celeste da China antiga. Dizia-se inspirar e supervisionar todos aqueles que manufacturassem uma bebida alcoólica. Escritores e poetas tomavam tal estrela pela origem cósmica do vinho.
4 Localizada na zona ocidental de Kansu (Gansu), foi considerada uma antiga fonte natural de vinho. A lenda remonta ao ano de 121 a.C., quando um famoso General foi presenteado pelo Imperador, após uma importante vitória, com um jarro de vinho de fina qualidade. Desejando partilhar o sublime presente com as suas tropas, despejou o vinho numa nascente ali perto. Conta-se que a nascente, ao prová-lo, passou a oferecer vinho na vez de água.
Deu o nome à actual cidade de Jiuquan.
5 A região hoje designada de Jiangnan, a sul do rio Yangtzé.
6 Um mar semifechado que é parte do Oceano Pacífico, onde se observa um imenso número de pequenas ilhas. Vai de Singapura até ao estreio de Taiwan.
7 Rio localizado em Chehkiang (Zhejiang), na região oriental da China. Desagua no conhecido Lago Espelho (Ching Hu).
8 Uma das primeiras vítimas dos casamentos políticos na China antiga. Devido à situação conturbada que então se vivia, o Imperador Han, de seu nome Yuan-ti, começou a realizar casamentos forçados com os líderes das tribos bárbaras por forma a evitar constantes invasões aos seus domínios.
A Senhora Wang-Chao pertencia ao harém do Imperador. Diz-se que a beleza das mulheres que o compunham era quase indiscritível. Por conveniência, ordenou que se pintasse um retrato de cada uma delas. Todas as mulheres subornaram o artista incumbido da tarefa, por forma a abrilhantar as suas pinturas — certas que o Imperador nunca se iria desfazer das mais belas. A pobre senhora do poema não foi tão astuta, pelo que saiu bastante desfavorecida no seu retrato. Quando chegou o momento de dar uma das suas mulheres em casamento a um chefe tártaro, o Imperador não hesitou em escolher Wang-Chao. Os preparativos foram feitos e a promessa cumprida. O Imperador viria a descobrir o seu erro, mas era já tarde demais.
A dita senhora faleceria em terras bárbaras. Conta-se que sobre o pequeno monte da sepultura as ervas estavam sempre verdes.
9 Referência à dinastia que governava quando se deu este episódio (de 206 a.C – 220 d.C., com uma breve interrupção pelo meio: a instauração da Dinastia Xin).
* A partir das versões inglesas e anotações elaboradas por Shigeyoshi Obata para The Works of Li Po, The Chinese Poet (E.P. Dutton & Co., New York City, 1922. reimpressão da Kessinger Publishing)
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