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Ruy Guilherme Barata

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Por Pedro Fernandes Em alguns casos, não fosse a presença de um nome entre as referências da crítica ficaríamos por conhecer e cairia no total esquecimento determinados autores e obras, ou ainda, ficaria a obra circunscrita à lembrança dos mais próximos e do chão onde habitou o seu autor. Entre essas circunstâncias de limbo ― recorrente mesmo entre escritores vivos ― está o caso de Ruy Guilherme Barata. Para muitos, sobretudo os de fora da terra de origem do poeta, o primeiro contato com este nome se desenvolve a partir da leitura de um texto, nem tão conhecido assim na farta obra que escreveu, de Antonio Candido. Chama-se “Poesia ao norte” e foi publicado pela primeira vez quando o jovem crítico havia assumido, há não muito tempo, uma coluna no importante jornal Folha da manhã ¹.   Foi nesta seção, batizada de “Rodapé”, que Candido deu a conhecer alguns nomes que mais adiante se tornariam fundamentais na cena literária brasileira, entre eles Clarice Lispector e João Cabral de Mel...

Boletim Letras 360º #396

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    DO EDITOR   1. Caros leitores, fica disponível para leitura e partilha com os amigos uma nova edição do Boletim Letras 360º. E, em nome do Letras, reitero o agradecimento pela sempre companhia do fiel leitor e deixo o pedido de trazer aqui os seus mais achegados que admiram os livros e a literatura. Fique bem. Boas leituras! Ray Bradbury. Dois novos livros do escritor estadunidense publicados no Brasil, um deles é a edição especial do seu romance mais conhecido. LANÇAMENTOS   Livro reúne textos pouco conhecidos da produção ficcional de Walter Benjamin.   O contador de histórias e outros textos propõe uma nova tradução anotada do clássico ensaio de Walter Benjamin, no qual a figura do contador de histórias é apresentada a partir de um comentário crítico da obra do contista russo Nikolai Leskov. Além do célebre ensaio, nas primeiras traduções intitulado O narrador, o livro também reúne textos da ainda pouco conhecida produção ficcional do autor: quinze contos...

A superfície de Hemingway (II) – O moderno em A volta do soldado

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Por João Arthur Macieira Ernest Hemingway. O escritor esteve na Primeira Guerra Mundial e trabalhou para a Cruz Vermelha na Itália como motorista de ambulância.  No ensaio de Eric Auberbach, “A cicatriz de Ulisses”, é comentada a forma como o reconhecimento da cicatriz do herói – disfarçado de mendigo, ocultando-se de sua esposa Penélope e dos demais – é suficiente para fazer com que sua antiga ama, Euricléia, perceba a verdade escondida sob aquela superfície. O evento é marcado por diversas características da narração homérica, onde tudo “modelado com exatidão e relatado com vagar”. Na epopeia, essa narração atinge as superfícies dos objetos com iluminação ; cuja potência é capaz de arrancar o leitor do Canto XIX, e levá-lo aos tempos do acidente que garantiu a cicatriz a Ulisses, em sua juventude. A coexistência de temporalidades distintas só pode ser percebida na passagem a partir da percepção de Euricléia; que, mesmo sob a imagem do mendigo, é capaz de atravessar a superfície e...

Desonra, de J. M. Coetzee

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Por Pedro Fernandes   É recorrente entre os leitores de J. M. Coetzee que uma de suas principais frentes criativas reside em revelar a complexidade étnica-social de seu país natal com o acurado interesse de alguém em distanciamento mas incapaz de negar os estreitamentos da pertença. É possível que este conceito seja derivado de Desonra uma vez ser este o romance do escritor sul-africano mais provocativo nesse sentido, principalmente se atentarmos para as implicaturas entre campo e cidade, ou mesmo certa dificuldade entre as leis pessoais e o estamento jurídico herdado, como se sabe, dos modelos ocidentais. Nele repousa a síntese de perfeita e radical impotência do sujeito, capaz de nos colocar entregue a certo fatalismo do fim, com todas as características do ocaso, a ruína, a perdição, a usura, a penúria, o opróbrio, a injustiça, marcas que transformam o futuro numa impossibilidade, o recomeço numa utopia inviável. Isso significa que este lugar forjado pelo romancista não é exclu...

Damas da lua, de Jokha Alharthi

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  Por Joaquim Serra Apesar do arcaico mundo ficando nas tradições, a escrita de Jokha Alharthi em Damas da lua é ágil e moderna. Os recortes das vidas são feitos através do registro coloquial de seus personagens, dos ditados populares que viram máximas sintetizadoras e regem comportamentos e pensamentos, do passado e do presente narrativo. Damas da lua intercala entre um narrador em terceira pessoa, este, através do indireto livre, mostra o que pensa as personagens, e a narrativa em primeira pessoa de Abdallah, marido de Mayya. Mayya é uma costureira destinada a se casar com o filho de um comerciante. Esse tal destino, que força a vida e os laços, é feito por um contrato entre seus pais. Mayya não ama o marido. Abdallah, o filho do comerciante, ama a mulher e se preocupa com os filhos. É dele a voz em primeira pessoa que recorda em fragmentos as longas barbas do pai, a demência do velho que, antes da morte com seu discurso e perdido no tempo, relembra e grita para o filho puni...

Tema ou técnica? II – Mário de Andrade e a verdade pessoal do artista

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Por Guilherme Mazzafera  “a obra é tanto mais artística quanto mais definidos os seus canais de expressão” Herbert Read 1 Kazimir Malevich. Três mulheres. Em “A raposa e o tostão”, texto originalmente publicado em 1939, Mário de Andrade alerta sobre os jovens escritores de então que, dotados de evidente valor, mas apressados e “ignorantes dos problemas da forma”, pensam que escrever é simplesmente “deixar correr a pena sobre o papel” (ANDRADE, 1944, p. 93). Em um diagnóstico mais amplo, reconhecendo a grande vitalidade e produtividade do período, Mário observa:  “A literatura brasileira está numa fase de apressada improvisação, em que cultura, saber, paciência, independência (só pode ser independente quem conhece as dependências) foram esquecidos pela maioria. E foi principalmente esquecida a arte, que por tudo se substitui: realismo, demagogia, intenção social, espontaneidade e até pornografia.” (p. 94) Diante desta situação, Mário advoga pela nec...