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Gustave Flaubert ou a invisibilidade autoral

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Por Toni Montesinos Gustave Flaubert. Ilustração: J. J. Sempé   Já dizia a dupla formada por Jules e Edmond de Goncourt, em seu diário de 1860, cujos relatos da história relegou ao esquecimento, mas cujo sobrenome tem eco constante no meio cultural gaulês e até internacional para o prêmio assim chamado, o que passou a ser realizado para cumprir com uma vontade registrada em testamento por Edmond. Referimo-nos a esta afirmação — “Oh, querer fazer algo novo custa caro!” — dita num período quando a França estava sofrendo uma avalanche de acontecimentos logo após Luís Napoleão Bonaparte, presidente da Segunda República Francesa, dar um golpe de estado para se tornar Napoleão III. Algo que geraria, como consequência direta no campo literário, o exílio de Victor Hugo e um clima de censura perpetrada contra os meios de comunicação.   Por exemplo, em 1853, os Goncourt foram processados ​​por um artigo que pretendia refletir o ambiente da rua de onde moravam até o endereço do jornal pa...

Boletim Letras 360º #457

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    DO EDITOR   1. Caro leitor, na semana seguinte o Letras alcança 15 anos online.  2. Desde quando começou timidamente como um espaço pessoal para abrigar textos aleatórios, registros de leituras colhidos noutras regiões desse universo ao que somos hoje, 15 anos é um longo tempo. Nada aqui foi gratuito e tudo foi/ e é a duras penas.  3. Vale pensar que este espaço tem contribuído para o debate sobre a literatura e o literário num país que sempre deitou vistas grossas para o assunto ou se utiliza dele para subterfúgios outros, uma vez que padecemos da triste mania de reduzir a leitura a algum fator utilitário.  4. Não é fácil, é verdade, mas continuamos.   5. Lembro que no dia 26 de novembro, se divulgará o resultado do primeiro sorteio do nosso pequeno clube de apoios à manutenção do blog. Levará um kit com três livros ofertado pela Editora Mundaréu. Você pode saber tudo sobre como participar aqui . Se estiver numa das redes do blog, pode consultar m...

O libertino moderado

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Por Juan Claudio de Ramón Cocanha. Pieter Bruegel   Existe um problema com a libertinagem e consiste em saber se somos a favor ou contra. É um ideal válido e alcançável? Depende do que se entende por libertino, diremos. Vamos pensar em todos os seus nomes: hedonista, dissoluto, depravado, desordeiro, vicioso, pervertido, canalha, festeiro etc. Cada um deles designa um grau de excesso que merece um julgamento diferente. Admiramos o amigo sedutor que conhece os corpos indistintamente, cada noite uma perfeição diferente; nós o imaginamos transbordante de alegria e secretamente o invejamos; mas basta imaginar uma presa abandonada, um cônjuge traído, para que certo verme comece a furar a nossa consciência. Mais um delito e nos separamos; um limite ultrapassado: nojo. Mas onde está esse limite? Existem cinismos e crueldades que nos divertem. Outros que nos enojam. Entre eles há toda uma gama de perversões que levantam dúvidas: polegar para cima ou polegar para baixo? E, supondo que soubé...

Autobiografia, de José Luís Peixoto

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Por Pedro Fernandes José Luís Peixoto. Foto: Reinaldo Rodrigues.   No discurso de recepção do Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago estabelece um jogo cuja prática exerceu ao longo dos romances que escreveu. Ao se reconhecer mestre e aprendiz de suas criaturas de tinta e papel — aliás, o título desse texto de dezembro de 1998 é “De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz” — o escritor viola propositalmente o lugar do leitor ao lhe atribuir um papel participativo na conformação da obra literária. Trata-se de uma dialética capaz de renovar ainda o estatuto do ficcional; não é o caso de um retorno ao infinito debate acerca dos limites entre o imaginado e o vivido, estirando-se para o primeiro polo dessa relação — até porque entre um e outro, a compreensão do escritor se apresenta indistinta. É, sim, a renovação de uma leitura sobre a existência enquanto aprendizagem constituída no limiar da fabulação e da ação.   O itinerário do protagonista deste romance de ...

Vestígios de um tempo de dor

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Por Tiago D. Oliveira   Ao voltar para o lugar onde viveu a sua juventude com todos os arroubos que a memória fornece para o tempo, um agente do sistema de informações passa a administrar uma empresa de segurança em um bairro paulistano e vai reencontrar seu passado em alguns rostos que fizeram parte de um tempo que insiste em reaparecer.   O Brasil estava mergulhado num período em que os militares tomaram conta do país e a violência se instaurava sem sinal algum de que sairia de cena. Jornalistas, operários, militantes, dirigentes políticos, a tortura era a ferramenta principal de um método que quase sempre culminava com desaparecimentos. Os militares tomaram o poder e afirmaram que a democracia retornaria aos poucos para o Brasil, mas o que realmente aconteceu foi uma indiscriminável onda de assassinatos e ações violentas.      Vestígios. Mortes nem um pouco naturais , de Sandra Abrano, editado pela Bandeirola, é um thriller político que se passa em São Paul...

Os personagens vis em Haruki Murakami

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Por Paula Luersen   Haruki Murakami. Foto: Nathan Bajar “Não existem pessoas más nos seus romances”. Haruki Murakami diz ter ouvido essa frase de uma de suas leitoras quando estava iniciando a carreira como escritor. Ele comenta no livro Romancista como vocação , que passou algum tempo pensando sobre a avaliação e concluiu que talvez a leitora tivesse razão: “nessa época eu estava com mais interesse em criar um mundo pessoal – harmonioso, por assim dizer – do que em compor obras muito complexas. Antes de tudo eu precisava criar e estabilizar o meu próprio mundo, uma espécie de abrigo para enfrentar o mundo real”. Sempre julguei essa elaboração de Murakami de uma honestidade reveladora. Ao externar esse tipo de reflexão sobre o que produziu como escritor, ele mostra que muito antes de partir de ditames ou de preceitos relacionadas à literatura enquanto campo de pensamento – entre eles, a histórica incumbência da representação – Murakami precisava atender a uma necessidade própria, s...