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Literatura e guerra

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Por Thiago Teixeira A Batalha de São Romão. Paolo Uccello.   São incríveis as descrições de guerra de Tolstói. Inesquecíveis as cenas de pontes destruídas, de canhões disparando contra a bateria inimiga, de mensageiros voando a cavalo, dos obuses cujos estilhaços derrubaram o príncipe André. Impossíveis de tirar da cabeça a Moscou em chamas e a guerrilha na floresta de taipa. Pedro de olhos vendados, sendo conduzido ao paredão.   Mais inesquecíveis as descrições do massacre brasileiro ocorrido na cidade de Canudos. Assistimos em Os sertões ao canhão de mil e setecentos quilos sendo puxado por uma parelha de cavalos, atravancando no meio do caminho, como um trambolho incômodo. Os militares cansados, com as roupas rasgadas pelos espinhos, comidos pela seca infernal, varados pelas balas vindas de todas as direções. Os canudenses numa luta encaniçada, escondidos como fantasmas em buracos, atirando com armas improvisadas, surpreendendo pelo dinamismo em uma tática de guerrilha de...

“Nosso trabalho ao escrever é funcionar como um canal para que a literatura exista”. Entrevista com Enzo Maqueira

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Por Pedro Fernandes Enzo Maqueira. Foto: Paula Moneta. Enzo Maqueira chegou ao Brasil em 2021 através do romance Hágase usted mismo ( Faça-se você mesmo , tradução de Mauricio Tamboni) pela PONTOEDITA, casa editorial independente que organiza um seleto catálogo com projetos diferenciados que buscam integrar o objeto livro a outras expressões artísticas em contato com o literário.   Em setembro de 2022, ele regressa com Electronica , que descrevemos (em texto futuro para este canal) como um romance acerca da crise de uma geração que alguma vez apostou nos paraísos artificiais enquanto possibilidade de um tempo de liberdade perene. No final da entrevista, o leitor pode saber mais sobre o livro desfrutar num excerto um pouco do seu conteúdo.   Antes, dez perguntas ao escritor que continuamente tem sido apresentado como uma das vozes mais proeminentes da nova narrativa latino-americana. Um escritor que até agora acredita que os da sua profissão não tenham, no âmbito li...

Literatura e revolução

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Por Gisela Kozak Rovero Ilustração: Vladimir Lebedev   Jean-Paul Sartre, em Que é a literatura? , exorta os escritores da primeira metade do século XX a dar o grande passo final: escrever uma literatura proletária. Irônico e demolidor com seus adversários, Sartre afirma que eles já conquistaram a liberdade de expressão; a desonestidade intelectual do filósofo e escritor francês clamou aos céus. A perseguição de intelectuais, artistas e escritores no campo socialista deixava muito claro que a liberdade de expressão não era uma conquista irremovível das vilipendiadas democracias liberais burguesas. O próprio Sartre, abandonando sua relação masoquista com o stalinismo, apoiaria de seu prestígio internacional a saída do futuro Prêmio Nobel de Literatura, Josef Brodsky, da União Soviética, para dar apenas um exemplo.   A modernidade exigia do homem ou da mulher de letras uma honestidade estética que era improvável entre escritores consentidos pela nomenclatura do socialismo real na...

Um trabalho contra as sombras

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Por Felipe de Moraes Primo Levi. Foto: Mario Monge   Pensar a obra de Primo Levi como um monumento da narrativa de testemunho, que não deixa esquecer as atrocidades do Holocausto, é sem dúvida essencial do ponto de vista histórico e cultural, ainda mais quando colocada em relação com outros depoimentos, manifestos, ou demais produções literárias ou memorialísticas de sobreviventes judeus que trazem a lume o funcionamento da máquina de extermínio nazista e o dia-a-dia nos campos de concentração, regidos por leis severas de obediência e de trabalho cujo ápice era o processo da total desumanização dos prisioneiros — Arbeit macht frei ; no entanto, se se adota unicamente tal perspectiva sociológica de leitura, a mirada sobre o caráter literário dos textos perde força, bem como a possibilidade de uma análise estética que uma obra como a de Levi suscita. Além do que, atentar para certos aspectos formais de uma obra pode revelar sentidos latentes que o comentário exclusivamente sociológic...

Chotaro Kawasaki, o escritor japonês que escrevia à luz de uma vela sobre caixas de cerveja

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Por Marta Ailouti   Autor periférico, referência fundamental do “romance intimista” no Japão do século XX, quando Chotaro Kawasaki tinha 40 anos passou a morar num barraco ao lado da casa dos pais na pequena cidade portuária de Odawara, antigo armazém que era usado para armazenar redes e outros instrumentos de pesca. Ali, sob a luz de uma grande vela e sobre alguns engradados de cerveja vazios, o escritor japonês dedicou horas e horas àquele trabalho pelo qual sacrificou toda a sua vida.   “Durante os dez últimos anos ele vive em um barraco de tábuas e telhado de zinco”, escreveu num de seus contos. “Nas noites de vento e chuva termina ensopado, apesar disso continua lendo e escrevendo sobre uma mesa feita de engradados de cerveja. Conta apenas com alguns pincéis e uma caneta para escrever, mas graças à inflação do pós-guerra ele consegue viver dos parcos lucros de sua escrita”.   Reivindicado por Kenzaburo Oē como um autor “irrepetível cuja obra não envelhece”, o Prêmio ...

Boletim Letras 360º #499

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    DO EDITOR   1. Caro leitor, no sábado, 3 set. ’22, divulgamos aqui no blog e em todas as nossas redes de convívio virtual o resultado do sorteio entre os apoiadores do Letras . O pacote com os três livros seguiu para as mãos do ganhador na segunda-feira.   2. Os próximos sorteios incluem livros da editora independente Trajes Lunares. Em breve, divulgamos aqui e nas redes quais são os títulos. Convido o leitor a conhecer mais sobre o clube de apoios e outras alternativas para ajudar o blog com o pagamento das despesas de hospedagem na web e domínio. Você obtém todas as informações aqui .   3. E lembro que: a aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste Boletim garante a você ganhar descontos e ajuda ao blog sem pagar nada mais por isso . Toda ajuda é bem-vinda   4. Obrigado por tudo. Um bom final de semana com descanso e boas leituras! Samuel Becektt. Foto: Henri Cartier-Bresson   LANÇAMENTOS   A Relicário Edições publica a...