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Boletim Letras 360º #572

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    DO EDITOR   Olá, leitores! O Letras procura bons leitores que escrevam sobre livros (ficção, poesia, teatro), filmes ou assuntos intrinsecamente ligados ao universo literário. Se você possui este perfil, pode se juntar a este projeto. A inscrição é simples:   - basta enviar através do e-mail blogletras@yahoo.com.br até o dia 16 de fevereiro de 2024, um resumo biográfico e três textos inéditos;   - para saber como organizar os seus textos e mesmo conhecer um pouco da linha editorial do Letras , é importante acessar e ler as informações disponíveis aqui ;   - se restar qualquer dúvida, pode procurar pela gente no e-mail referido ou na DM das nossas redes sociais: no Twitter, Facebook ou Instagram.   Sua inscrição é muito bem-vinda!     Ray Bradbury. Foto: Yousuf Karsh.   LANÇAMENTOS   Ray Bradbury expõe o lado sombrio da indústria do cinema .   Lançado pela primeira vez em 1990, Cemitério de lunáticos é o segundo volum...

Lolita é Nabokov

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Por Monika Zgustova Vladimir Nabokov e o tio Ruka , 1908. Arquivo: The Vladimir Nabokov Literary Foundation   Os pais de Vladimir Nabokov costumavam passar o verão em Vyra, numa mansão com um grande jardim nos arredores de São Petersburgo. Depois de um daqueles almoços tardios, longos e fartos, tão característicos do gosto dos russos abastados antes da revolução, os anfitriões e convidados saíram para tomar café no terraço. Vladimir, que tinha oito anos naquela primavera de 1907, ficou retido por seu tio Vasili Rukavishnikov, um diplomata, ou Ruka , como o chamavam seus colegas de trabalho nas embaixadas. Ruka , que em russo significa “mão”, foi o apelido que também se enraizou na família. Quando os comensais saíram para a esplanada, o tio sugeriu ao rapaz que ficassem os dois sozinhos na sala de jantar inundada pelo sol.   Sentou a criança em seu colo e acariciou-a gentilmente, sussurrando palavras brincalhonas e travessas em seu ouvido; o pequeno Vladimir sentiu-se env...

Fim de poema: cartografia do suicídio

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Por Pedro Torrijos Juan Tallón. Foto: Pablo Araújo. Cesare Pavese morreu em 26 de agosto de 1950 em Turim. Alejandra Pizarnik morreu em 25 de setembro de 1972 em Buenos Aires. Anne Sexton morreu em 4 de outubro de 1974 em Boston. Gabriel Ferrater morreu em 27 de abril de 1972 em Sant Cugat del Vallès. Os quatro cometeram suicídio.   Há alguns milhões de anos, um hominídeo tomou a decisão de atravessar o rio que tinha à sua frente. A água que bebia todos os dias, serena e plana na margem, golpeava contra as pedras do centro da correnteza com a violência de um rio batendo nas pedras que se interpõem no seu caminho. Mais do que tudo porque a linguagem daquele hominídeo ainda não havia desenvolvido o conceito de metáfora. Ao chegar na outra margem, ele se tornou um explorador e a civilização iniciou então a sua jornada. Desde então, sempre quisemos ir mais longe. Sempre quisemos saber o que existe do outro lado, visitá-lo, conhecê-lo, reconhecê-lo, desenhá-lo, contá-lo. Sempre quisemos...

“Pobres criaturas”: ânsias de liberdade (e sexo)

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Por Ernesto Diezmartínez Perto da última parte de Pobres criaturas (Reino Unido, Estados Unidos, Irlanda, 2023), sétimo longa-metragem da bandeira da rara onda grega Yorgos Lanthimos, o advogado bon vivant Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo) reivindica sua amante Bella Baxter (Emma Stone) em processo de emancipação que desde algum tempo se torna leitora, deixou de ser engraçada e não fala mais da inusual maneira que fazia antes. Bella levanta os olhos de um livro de Emerson e, tal como uma Diógenes feminina, pede que Duncan se afaste porque está bloqueando a luz do sol.   Quando chegamos a este momento do filme vencedor do Leão de Ouro 2023 em Veneza, a história, livremente inspirada no romance de mesmo título do escritor escocês Alasdair Gray (1934-2019), o filme se transformou de uma espécie de versão feminista de Frankenstein ou o Prometeu moderno (1818) em uma alegre e transbordante apropriação sexual das Aventuras de Alice no país das maravilhas (1865). Na verdade, Pobres cr...

Klaus Mann

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Por Christopher Domínguez Michael Klaus Mann. Foto: Annemarie Schwarzenbach Klaus Mann, o filho mais velho de Thomas Mann, suicidou-se em Cannes, em 21 de maio de 1949, colocando o fim a uma vida sufocante iniciada em 1906. Ele deixou um artigo testamentário, publicado um mês depois na revista estadunidense Tomorrow . Do além-túmulo, Klaus exigia “uma onda de suicídios em que caíssem os espíritos mais proeminentes e célebres, [que] arrancaria as pessoas de sua letargia, para que compreendessem a gravidade mortal da provação que o homem causou sobre ele mesmo por sua tolice e egoísmo.”   Um quarto de século antes de Passolini, Klaus Mann foi vítima de uma “morte política”, sendo, de forma brutal ou negligente, o “morto pela sociedade”, como diria Artaud. O primeiro a rejeitar esta leitura foi Thomas, seu pai: “Não há dúvida de que foram motivos pessoais que o levaram à morte, e que não morreu para se apresentar teatralmente como uma vítima do seu tempo. Embora fosse, e muito.” ...

Colm Tóibín, orgulho e preconceitos

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Por Alejandro Luque Colm Tóibín. Foto: Suzie Howell    Pátria, família, religião e sexo são os territórios por onde transita o escritor irlandês Colm Tóibín, que muito cedo descobriu que a Irlanda não era apenas uma referência geográfica, mas uma forma de ser.   A cena se passa em Estocolmo, numa noite de primavera. Um jovem escritor espanhol que promove um dos seus romances traduzido para o sueco é convidado para um jantar com autoridades e acadêmicos no suntuoso salão Blå da Câmara Municipal, aquela Sala Azul que à primeira vista não tem nada de azul. Senta-se ao lado dele um certo escritor irlandês de quem ouviu falar vagamente, e eles imediatamente se simpatizam. Seu acento inglês lhe parece terrível, mal consegue entendê-lo em meio ao barulho das conversas, brindes e tilintar de talheres. Felizmente, descobre que o sujeito se defende perfeitamente em espanhol, é esperto e engraçado. A certa altura, embriagados pelo vinho dinamarquês, os dois autores levantam-se ao m...