Abismos da leveza, de Rodrigo Petrônio

Por Herasmo Braga




Em meio a tantas ideias reproduzidas, mesmices estéreis com ares de novidades, idealismos pueris como os de originalidade, genialidade, ficamos surpresos quando somos apresentados pensadores com obras significativas, que provocam no mínimo atenção em pontos até então despercebidos por conta do cultivo hegemônico de olhares guiados para o mais do mesmo. Abismos da leveza, obra recentemente publicada por Rodrigo Petrônio, constitui um destes expressivos momentos de inteligência e lucidez teórica.

O trabalho realiza consistentes diálogos com a tradição filosófica, com proposições elucidativas diante de dilemas e inquietações, além de aglutinar relevantes contribuições não só para compreensão do mundo das ideias, das artes, como também, da realidade em seu contexto mais atual e urgente. As premissas discursivas problematizam formas de pensar, no mínimo equivocadas, quando não inverossímeis, nas quais nos acostumamos, erradamente, em conceber como as questões de antinomias, dualismos, binarismos. Sob esse prisma, tudo observado e analisado por nós, partia da separação e fragmentação, sendo concebido como único. No tocante a esse aspecto, Rodrigo Petrônio enuncia-nos, nas primeiras ideias, que devemos reparar que cada ser é unidade relacional e não substância isolada, e encontra-se sob a consonância de pluriversos. Desta maneira, ater-se às redes de conexão e mediação procede ao modo perceptivo básico para um olhar crítico atuante e considerável.

Em meio a essas ressonâncias, é desenvolvida em Abismos da leveza a tese dos mesons, que surge, para Rodrigo Petrônio, mediante um contexto de pluralismo ontológico ou plurontologias. Com as contribuições de grandes filósofos como Espinosa, Leibniz, Tarde, Deleuze, Sloterdijk, Whitehead, a tese é desenvolvida e entende-se a sua amplitude e viabilidade analítica. Desta maneira, a partir do olhar relacional sobre os objetos em análise e das teorias que se direcionam para este ponto convergente, Petrônio ressalta que “A pluralidade de ontologias não produz apenas uma pluralidade de mundos. Produz, necessariamente, um princípio de incomensurabilidade dos regimes de verdade que definem esses mundos entre si e os critérios descritivos do mundo enquanto tal, ou seja, seu estatuto de mundo equivalente ou distinto dos demais mundos”. 

Portanto, “a mesologia pode ser definida como uma teoria geral das relações contingentes estabelecidas entre essas multiplicidades de ontologias, meios e mundos, ou seja, uma teoria dos pluriversos atuais, virtuais e possíveis”. Em meio a essas reflexões, constata-se que a tese acerca dos mesons seria o elo perceptivo das unidades relacionais presente em um meio circundante comum em que vão se configurando em “meios-mundos”. Destarte, as formas nas quais concebemos de maneira compartimentalizada perdem todo o seu sentido, pois ficam evidenciadas todas as fragilidades e inadequações desta linhagem de pensamento. 

Desse modo, encarar o mundo por essas acepções multi, pluri não é buscar propostas de relativizações, ou mesmo absolutizações com aspectos de totalidades definidoras que possam significar defesa para refutações dos argumentos, pois, sendo amplo e aglutinador, o contrário também pode fazer parte da junção de ideias, tornando assim o olhar crítico que observa o mundo e as suas presenças de certa forma acrítico, por não se ter um ponto fixo para o contra-argumento. 

Na obra de Rodrigo Petrônio, percebe-se é que esse modo de conceber parte de um entendimento significativo e próximo da realidade das coisas que, de maneira clarificadora, verifica que “A pluralidade de mundos é a pluralidade das atualizações. A multiplicidade das atualizações é o conjunto virtualmente infinito de unidades relacionais e interativas promovidas pelos mesons”. Assim sendo, conceber essa dimensionalidade é aferir o olhar crítico para a teia de relações e mediações promovidas e conectadas entre as coisas, e não apenas extrair de maneira in vitro, sem qualquer ressonância dos elementos que o constituem na sua inteireza, vivacidade e sentidos. Como nos é destacado em Abismos da leveza, “Cada mundo é um percipiente, pois não se pode distinguir cosmologia de percepção”, porquanto cada mundo nos constitui, visto que estamos imersos e relacionados aos mais diferentes. 

É essa processualidade que oferece organicidade e relevância às abordagens e apresenta efetiva contribuição aos seres nas suas mais diferentes questões e ordem como das ideias, dos significados, dos entendimentos, da constituição de experiências. Do mesmo modo, não particulariza os seres, dando-lhes a ilusão moderna de autossuficiência, independência, individualidade, pelo contrário, o encontro com os mediados pelas relações em que as diferenças são enaltecidas e vistas como alegro é que realiza a singularização dos sujeitos, acaba por se tornar o responsável pela dinamicidade, vivência, aprendizagem em que a heteronomia de fato é exercida e atua em prol dos seres.

Estas questões são apenas alguns pontos abordados no conjunto de discussões presentes em Abismos da leveza, que Rodrigo Petrônio nos convida a dialogar e a refletir. Livro, portanto, que a sua leitura é mais do que indispensável.


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Abismos da leveza
Rodrigo Petrônio
É Realizações, 2022
400 p.


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