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Cíntia Moscovich

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Cíntia Moscovich. “ Poderia ter seus sessenta, no máximo sessenta e cinco anos. Beleza, não; ao menos não se diz de um homem daquela idade que é bonito. Demonstrava, no entanto, a altivez de quem ocupa uma posição. Não era alto, mas o corpo tinha contornos de firmeza. Os óculos de hastes finas eram um halo a emoldurar os olhos cinzentos; os cabelos, raros; a testa alteada como a de um fidalgo. O vinco entre as sobrancelhas tornava-se um exaspero sobre o peso do rosto. ” (O tempo e a memória In Arquitetura do Arco-íris, fragmento) Assim começa um dos contos dessa escritora gaúcha que escreve uma literatura dos que são deixados às margens sociais - podemos assim dizer. Os homossexuais, os gordos etc. são sempre os sujeitos da vez em seus romances e contos. Em sua obra Por que sou gorda, mamãe? publicado em 2006 pela Record, Cíntia coloca-se como narradora em primeira pessoa criando um jogo de fundir a ficção com a realidade.  O romance é estruturado como uma carta ...

Zila Mamede — itinerário e exercício da poesia (2)

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Salinas – do mar à terra da mãe Por Paulo de Tarso Correia de Melo* Partida Quero abraçar, na fuga, o pensamento da brisa, das areias, dos sargaços; quero partir levando nos meus braços a paisagem que bebo no momento. Quero que os céus me levem; meu intento é ganhar novas rotas; mas os traços do vigem mar molhando-me de abraços serão brancas as tristezas, meu tormento. Legando-te meus mares e rochedos, serei tranqüila. Rumarei sem medos de arrancar dessas praias meu caminho. Amando-as me verás nas puras vagas. Eu te verei nos ventos de outras plagas: Juntos – o mar em nós será caminho. (Zila Mamede, Salinas ) *** “Pesada e real, diversa é a praia agora” (Soneto das Variações, Rosa de Pedra) Salinas foi editado em 1958, na “Coleção Aspectos”, do Ministério da Educação e Cultura, após receber o prêmio Vânia Souto de Carvalho, Recife, 1958. Embora Zila Mamede o tenha definido como um livro que mereceu maior cuidado que a pura intuição de Rosa de pedra e lhe rec...

A alma lírica, a alma passarinha de Mario Quintana

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O poeta apresenta-se Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Há! Mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas… Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a eternidade. Nasci do rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton! Excusez du peu. Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que nunca acho qu...

Viridiana, de Luis Buñuel

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Cineasta anticlerical escandalizou a igreja católica, que considerou a obra um insulto ao espírito do cristianismo Em 1936, com as condições de trabalho dificultadas pela Guerra Civil, Luis Buñuel deixou a Espanha e foi para o México, onde realizou pérolas como Os Esquecidos (1950), O Alucinado (1952) e Escravos do Rancor (1954). Apenas em 1961, 25 anos depois do exílio, Buñuel pode voltar à sua terra natal, ironicamente convidado pelo ministro da cultura do general e ditador Francisco Franco. O resultado do retorno, Viridiana , chocou tanto o governo e a igreja que Buñuel novamente precisou ir embora - outra vez para o México e, mais tarde, para a França -, e o filme acabou proibido na Espanha por vários anos. Dá para entender: Viridiana é uma pedrada do diretor (que dizia ser ateu, "graças a Deus") no cristianismo e suas contradições. É uma alfinetada na acomodada adesão católica a Franco durante a guerra. A jovem Viridiana (Silvia Pinal) está prestes a ...

Augusto Cury. O segredo. Sobre a fenomenologia nova na literatura (parte II)

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Por Pedro Fernandes Em janeiro de 2007* eu falava aqui nesse espaço acerca de três escritores em moda no cenário literário - Dan Brown, J. K. Rowling e Paulo Coelho. Pois bem, volto ao subtítulo dado ao artigo desta época - "Sobre a fenomenologia nova na literatura". Agora, para analisar outra vertente literária que cada dia mais cresce no mercado editorial: a literatura de auto-ajuda, sob o prisma de dois outros fenômenos literários, o brasileiro Augusto Cury e o livro "The Secret" ("O Segredo"). Há, é bem verdade, uma lista de outros nomes ajustáveis nessa lista. Mas fiquemos com os dois, porque são antes de mais nada o sucesso de vendas , verdadeiros Best-Sellers, do momento. O fenômeno advém de uma necessidade desvairada que tomou conta do espírito dos Ocidentais e que tem raízes mais profundas do que possamos imaginar. Estamos numa sociedade que inventou um modelo de vida que, pelo que vemos, não tem em nada dado certo. Afastamos de nós a m...

Machado de Assis: Feliz ano velho

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por Carlos Faraco*   Enterro de Machado de Assis Quando Carolina Novais morreu, em 1904, a vida de Machado de Assis desmoronou. “Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo (...). Aqui me fico, por ora, na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará.” Para Machado, o “eterno aposento” se abriria quatro anos mais tarde. O desapego à vida dá agora o tom das cartas de Machado aos amigos: “Após trinta e cinco anos de casados é um preparo para a morte”. (28 de out 1904) As únicas coisas que o mantinham vivo eram o carinho dos amigos – tantas vezes expresso em cartas –, o interesse pela literatura e pela Academia Brasileira de Letras, que ajudara a fundar em 1896, e da qual fora eleito presidente primeiro e perpétuo. “Faço o que posso, mas para mim o trabalho é distração necessária...