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Óxido, de Gastão Cruz (Parte I)

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Por Pedro Belo Clara O último livro publicado pelo poeta, crítico e encenador algarvio, só pelo nome que ostenta, remeterá o seu leitor para o imaginário das coisas que se permitem degradar pela acção do tempo. E não parecerá falsa a impressão que deixa como sobejo da prova. O metal que oxida é um metal antigo, desgastado, corroído, quiçá abandonado sem que para ele um uso surja. Não se estranha, portanto, que aos lábios essa substância traga um travo de acre teor, natural numa maturação de avesso, isto é, num processo onde não são os açúcares a atingirem a sua plenitude, antes um esvaziar desses elementos da equação pensada. Esse metal surge como metáfora habilmente colocada entre poemas de modo nem sempre visível, mas indubitavelmente presente. Quererá isto dizer que Óxido é um livro de poemas amargurados? Bom, cada leitor formulará o seu parecer se a isso se propuser, mas, salvaguardando o bom senso e uma via de apreciação isenta de meras especulações, há que dize...

Boletim Letras 360º #146

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Em 2016, 20 anos da morte de Caio Fernando Abreu. E tem novidades sobre o escritor. No dia 1º de dezembro iniciamos uma comemoração ousada em nossa página no Facebook: um recital em que leitores podem enviar vídeos e textos com poemas da Adélia Prado. Isso para marcar os 80 anos de nascimento de uma das poetas brasileiras mais queridas. Diariamente sorteamos um poema e publicamos por lá. E os poemas mais compartilhados receberão brindes. Para saber como fazer para participar, basta ir aqui . Segunda-feira: 30/11 >>> Arábia Saudita: Todos pela liberdade do poeta palestino Ashraf Fayadh Há uma semana noticiamos aqui que uma corte da Arábia Saudita pediu a pena de morte ao poeta sob a acusação do crime de heresia. Agora, uma rede de autoridades tem se unido em torno da defesa da liberdade de Fayadh. Entre os nomes estão o do poeta sírio Adonis, o escritor britânico David Hare, o romancista egípcio Ahadf Soueif que assinam uma petição com nomes de três contine...

Memorial de Maria Moura, de Rachel de Queiroz

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Por Rafael Kafka Memorial de Maria Moura é minha primeira experiência de leitor em contato com a obra de Rachel de Queiroz. Devo dizer que mesmo em andamento, a obra tem me impressionado por uma série de fatores interessantes e por isso mesmo penso ser válido escrever algumas notas preliminares acerca da minha leitura deste grande romance. Grande tanto em volume, cerca de quinhentas páginas, quanto em qualidade estética e estrutural. O romance gira em torno da história de Maria Moura, uma moça que após perder pai e mãe se vê sozinha no mundo ao lado de um padrasto de quem sofria abusos sexuais intermitentes. Tal realidade é representada de forma muito sutil logo no começo do romance e passa-nos a impressão de não causar tanto incômodo em Maria Moura. Ao longo do enredo, veremos que por mais que a protagonista se preocupe em romper os limites dos papeis de seu gênero, ela ainda cede diante da cultura patriarcal sertaneja do século XIX. Por isso, os abusos de Liberato, o ...

Allen Ginsberg e o Flower Power

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Por Julián Ruiz No final dos anos 1950, São Francisco era já a ponta do iceberg de uma contracultura que nascia do próprio cansaço capitalista. Naqueles dias já era a capital beatnik, graças ao magnifico clube chamado Bid Daddy, onde o Kingston Trio gravou seu revolucionário disco do ano 1958. Se converteu em Best-Seller da incipiente esquerda californiana. São Francisco era a nova meca do protesto. A região do Haight-Ashbury, ao leste do Golden Gate, que havia servido de refúgio dos terremotos de começo do século, se converteu na raiz dos grupos mais revolucionários. Intelectuais, pacifistas, que utilizavam uma nova espécie de teatro de protesto, com light-shows insólitos e bailarinas com os seios de fora. O onírico sentido da liberdade flutuava com a neve da baía. O 16 de outubro de 1965, quando começava a cimentar-se a revolução, quase 5 mil pessoas marcharam desde a Universidade de Berkley à região do aeroporto em Oakland, onde havia um posto do comando militar...

O coração do cânone de Lygia Fagundes Telles: “Antes do baile verde” e “As meninas”

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Por Alfredo Monte 1 Antes do baile verde , em 1970, era uma espécie de antologia que Lygia Fagundes Telles fazia de seus livros anteriores 1 , a primeira de muitas vezes em que fez isso. Hoje a Companhia das Letras publica uma obra com dezoito contos (vários deles, dos melhores que ela escreveu). A princípio eram quinze: de 1949, de  O cacto vermelho , ela escolhera três (“O menino”, “Os mortos” e “Olho de vidro”); de 1958, de  Histórias do desencontro  foram cinco (“Natal na barca”, “A ceia”, “Venha ver o pôr do sol”, “Eu era mudo e só”, “As pérolas”); de 1965, de  O jardim selvagem , outros cinco (“Antes do baile verde”, “A caçada”, “A chave”, “Meia-noite em ponto em Xangai”, “A janela”); e havia contos “esparsos” (“Os objetos” e “O moço do saxofone”). Com a repercussão, numa segunda edição, ela incluiu mais cinco: “Verde lagarto amarelo”, “Apenas um saxofone”, “Helga”, “Um chá bem forte e três xícaras”, “O jardim selvagem”, excele...

Pablo Neruda: segredos dos arquivos da União Soviética

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Por Mario Amorós Pablo Neruda discursa num evento na então União Soviética, em 1950. Pablo Neruda viajou pela primeira vez à União Soviética em 1949. Suas posições políticas e sua poesia eram difundidas naquele país desde 1937, quando a revista Internatsionalnaia Literatura incluiu um resumo do discurso que havia pronunciado em Paris no mês de fevereiro em memória de seu amigo Federico García Lorca. Em 1939, Iliá Ehrenburg traduziu para o russo Espanha no coração , sua homenagem épica e lírica à resistência republicana, e já em 1949, com o título de Stiji (versos) , apareceu sua primeira antologia neste idioma. Este livro incluiu, além disso, o artigo que assinou em 27 de novembro de 1947 no jornal venezuelano El Nacional para denunciar a repressão do presidente chileno Gabriel González Videla e um capítulo introdutório de Ehrenburg, que lhe deu as bases do estudo de sua poesia nos países socialistas. Em 8 de junho de 1949, Neruda chegou a Leningrado. Havia então só ...