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Verdades solúveis. Comentário sobre “A especulação imobiliária”, de Italo Calvino

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  Por André Cupone Gatti Italo Calvino. Foto: Johan Brun.   Uma Itália de andaimes e concreto fresco, um lugar prenhe de futuro, a construção de um novo mundo e de uma nova História sobre o luto deixado pela Segunda Guerra Mundial. É esse cenário do pós-guerra, com sua pressa do porvir, cercado cada vez mais de “homens de negócios”, que Italo Calvino elege como tema de seu romance A especulação imobiliária (1957).   E como nenhuma configuração histórica e social deixa de ser refletida na identidade dos indivíduos de um tempo e de um lugar, o tema de Calvino nesse romance é também a fragmentação, a incerteza, que esses novos tempos promovem na cosmovisão do homem moderno, sobretudo daquele identificado como intelectual. O boom econômico dos anos 50 abriu a devida brecha para a valorização de um novo homem, um homem não somente sem “qualidades”, mas que subjuga às necessidades do “homem prático”, qualidades temporárias. O tentáculo de um novo liberalismo vem nublar a já nu...

Boletim Letras 360º #426

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    DO EDITOR   1. Saudações, caro leitor! As vendas de alguns livros da biblioteca do Letras para cobrir as despesas de hospedagem do blog online estão abertas. Fazemos isso anualmente através de um bazar no nosso Facebook . Veja se é possível a ajudar. A simples partilha e divulgação é já muito importante.  2. A seguir, as notícias apresentadas durante a semana na página do blog no Facebook e o conteúdo das demais seções de leitura criadas em momento posterior à existência deste Boletim.   3. Reitero os agradecimentos pela companhia do nosso trabalho. Espero que você esteja, dentro do possível são e seguro. Boas leituras! Franz Kafka com cachorro. Foto, 1906/1908. Arquivo Biblioteca Nacional da Áustria.   LANÇAMENTOS   Nova edição dos Diários , de Franz Kafka segue as edições mais completas dos registros pessoais do autor .   “Tudo que não é literatura me entedia e eu detesto”, anota Franz Kafka em certo dia de 1913. A essa altura, o advogado...

Hermann Broch, subvalorizado

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Por Roberto Ruiz de Huydobro Hermann Broch. Foto: Imagno, 1937.   Hermann Broch é um escritor pouco conhecido e pouco valorizado. No entanto, a sua obra tem méritos suficientes para o reconhecer como membro desse grupo de criadores (do qual fazem parte, por exemplo, Franz Kafka e James Joyce) que realizaram, nos primeiros anos do século XX, uma renovação radical do romance.   Nasceu em Viena em 1º de novembro de 1886. Sua dedicação integral à literatura só ocorreu em 1928, após deixar o que até então fora sua profissão: diretor das fábricas têxteis de sua família. Em 1938, após a ocupação da Áustria pelas tropas de Hitler, foi preso pela Gestapo, na prisão de Alt-Ausse. A detenção durou apenas cinco semanas, graças aos esforços feitos por alguns de seus amigos (James Joyce, Stephen Hudson e Edwin Muir). Depois de recuperar a liberdade, emigrou para a Inglaterra e, pouco depois, para os Estados Unidos, onde reside desde então. No seu país de exílio obteve várias bolsas para pod...

O companheiro de viagem, de Gyula Krúdy

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Por Pedro Fernandes Gyula Krúdy. Foto: Arquivo   Entre o início e o final da narrativa de O companheiro de viagem opera-se uma lacuna interessante. Primeiro, esta novela repete um modelo recorrente na ficção: o da história dentro da história. Mas, apenas em parte seu protocolo é respeitado. Sabemos que, nesses casos, o narrador-organizador do que lhe é relatado, sempre intervém no decurso da narração, estabelecendo conclusões, oferecendo suas conjecturas e não esquece de, uma vez concluído o relato alheio, reaparecer como a autoridade acerca do que se narrou.   Ora, no caso da obra de Gyula Krúdy, ainda que em pequena proporção, esse ordenador do que lhe é narrado durante uma viagem, oferece alguns esclarecimentos sobre o que registra, mas, depois que a narrativa adquire seu ritmo, ele se perde. Como um maquinista que nos dá às boas-vindas, oferece as instruções para a viagem, mas uma vez chegados ao nosso destino nada mais sabemos dele. Também pouco sabemos sobre seu companh...

Sobre Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo

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Por Rafa Ireno Conceição Evaristo. Foto: Mario Ladeira A questão de Conceição Evaristo não se liga somente à tarefa de contar uma história desconhecida, sua escrita corresponde ao esforço de encontrar uma expressão capaz de implodir um projeto político de nação que, sistematicamente, apaga, silencia, oculta, modifica, violenta, a História do Povo Negro no Brasil. A literatura seria uma das principais armas para tal objetivo. A ânsia de mudança e de demolição da ordem vigente é acompanhada, na via inversa, por um desejo de reconstrução, de harmonia, da tentativa de costurar o tecido da memória destruído pela opressão e violência do passado brasileiro. Coisa que concede certo caráter utópico para esta escritora afro-brasileira no sentido de criar esperanças para o futuro.  Daí, o romance Ponciá Vicêncio se preencher de elementos bem demarcados como, por exemplo, campo e cidade 1 , branco e negro 2 , meretrício e delegacia etc. Ao mesmo tempo em que é o signo da contradição que rege ...