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Inacabamento e expansividade: Contos Inacabados, de J.R.R. Tolkien

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Por Guilherme Mazzafera   J.R.R. Tolkien. Foto: Coleção Life Images. Que Tolkien é um dos mais produtivos autores-defunto (para inverter a lógica do nosso Brás Cubas) da história não há o que discutir. Porém, quatro décadas atrás, pouco suspeitavam seus leitores da veracidade e abrangência de tal asserção. Afinal, a leitura de O Hobbit (1937) e O Senhor dos Anéis (1954-55) lhes dera poderosos vislumbres de um vasto arcabouço subjacente que, talvez pensassem alguns deles, não poderia ser meramente hábil sugestão engastada literariamente. É certo que grande parte de seu efeito (e mesmo de seu tom) é derivado dessa capacidade sugestiva, decantada em um elã progressivamente elegíaco, mas era preciso certo gesto de fé para crer que a gênese de tal universo ficcional — ou Mundo Secundário, conforme prefere a poética tolkieniana — havia de estar registrada em algum lugar oculto, pacientemente aguardando publicação. Foi com imensa alegria, portanto, acompanhada de algum embevecimento, que...

Boletim Letras 360º #459

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    DO EDITOR   1. Caro leitor, falta pouco e divulgamos quais os três títulos da Pontoedita disponíveis para o sorteio no segundo bimestre do nosso clube de apoios. Aliás, dois deles, porque um aparece recomendado neste Boletim. Leia e já saberá.   2. Para 2022, nosso ano de debutante, pensamos uma série de coisinhas para os leitores fora do clube e que são especiais para nós tanto quanto. Falamos de alguns sorteios avulsos. Acompanhe o blog em todos os recantos da web . Enquanto isso, você pode se inscrever nas promoções aqui realizadas. Saiba como aqui .    3. Obrigado por sua companhia e pela disseminação do nosso trabalho. A seguir parte das notícias que circularam em nossa página no Facebook e outras mostradas primeiramente por aqui. Cecília Meireles. Publica-se livro com inéditos da poeta.   LANÇAMENTOS   Um catálogo a altura da exposição dedicada a Clarice Lispector .   O Instituto Moreira Salles publica Constelação Clarice . Organi...

Futebol de literatura periférica

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Por Wagner Silva Gomes Ilustração: Giovanna Jarandilha.    Pasolini, escritor, poeta e cineasta italiano, escreveu em 1971 o ensaio intitulado “O futebol”. Nele o escritor analisa as diferenças entre o que ele chama de futebol de prosa (cerebral, esquemático, técnico) e futebol de poesia (imprevisível, gingado, inventivo). Ele diz que o primeiro tipo de futebol tem mais a ver com a realização europeia e o segundo com a realização latino-americana, mais especificamente a brasileira. Refiro-me a Pasolini pra trazer a minha constatação de que há um futebol de literatura periférica (esquemático e imprevisível; cerebral e gingado; técnico e inventivo) que, para além dos gêneros literários narrativo e lírico, é realizado por uma literatura em que as palavras e frases são pensadas, enchidas, energizadas, por construtos estéticos-sociais (escola de samba, dança de quadrilha, futebol, capoeira, música, principalmente o rap, a cultura hip-hop em geral etc.) realizados e exercitados fort...

Mãe, de Hugo Gonçalves

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Por Pedro Fernandes Hugo Gonçalves. Foto: Manuel Manso. Caso curioso o do romance, descrito algumas vezes como a forma mais instável da prosa. E isso é notável quando encontramos livros que assim se designam sendo apenas o romanesco enquanto possibilidade. Mãe , de Hugo Gonçalves, que por razões óbvias recebeu um título diferente do original no Brasil — em Portugal, saiu como Filho da mãe — é um desses casos. Trata-se do itinerário de um escritor às voltas por reconstituir a memória da mãe que morreu vitimada de um câncer quando ele ainda criança. A obsessão por essa ideia assume direções variadas e a de descrevê-la se demonstra nascer, primeiro como silêncio e fuga, e depois como fala e compreensão do acontecido, a história possível. Esses dois movimentos fundem-se e oferecem o conteúdo do livro, mas o conteúdo procurado, este se realiza — e daí porque falamos de um romance enquanto possibilidade — apenas como imaginação. Agora, não será isso mesmo um romance, o vivido perspectivado?...

Rubén Darío e o destino político da lírica americana

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Por Edgardo Dobry   Toda uma fase da obra de Rubén Darío, e mesmo de toda a poesia latino-americana, tem como pórtico um parágrafo do ensaio que José Enrique Rodó publicou em Montevidéu em 1899 intitulado “Rubén Darío, sua personalidade literária, sua última obra”:   “A poesia inteiramente antiamericana de Darío também produz certo efeito de descontentamento, ao se destacar no pano de fundo, ainda sem expressão e sem cor, de nossa Cosmópolis americana, toda feita em prosa. Incenso de boudoir que pretende ser diluído numa baforada de fábrica; pó de ouro parisiense o novaiorquismo portenho” (p. 37).   O léxico de Rodó é levemente agressivo: ofende precisamente pela estudada suavidade do “incenso de boudoir ” e do “pó de ouro”. Essa acusação condensava parte do que Juan Valera já havia dito sobre ele (“Vejo, então, que não há autor em castelhano mais francês do que você”), Clarín (“Coloridos e trombetas”) e Unamuno (“Eternismo e não modernismo é o que eu quero”) em termos e...