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Sobrevivendo ao Livro do desassossego de Fernando Pessoa

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Por Pablo Sol Mora Fernando Pessoa numa rua do centro de Lisboa. Arquivo Casa Fernando Pessoa. Em 2007, depois de alguns anos nos Estados Unidos e após terminar minha tese de doutorado, decidi dar-me um ano sabático para ler e escrever a meu contento. Eu vinha de um longo período de muito trabalho, durante o qual havia lido, sobretudo, com fins acadêmicos; na realidade, mais do que verdadeiramente ler, “trabalhava com”, típica deformação do filólogo. Desejava recuperar minha antiga liberdade de leitor, quando lia voraz e desordenadamente o que queria, sem nenhuma obrigação e sem nenhuma pressão — porque sim.   Com esse propósito retirei-me, frayluisianamente, 1 a Coatepec, um povoado perto de Xalapa. Ali haviam vivido meus avós, em um velho casarão onde ninguém mais vivia (o mesmo em que agora, dez anos depois, escrevo estas linhas). Fiz alguns reparos, modernizei-o um pouco e tranquei-me a ler. Naturalmente, minha intenção era aproveitar o tempo para levar a cabo “grandes leitura...

Martin Amis

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Por Eduardo Lago Martin Amis. Foto: Colin Bell Intelectual público de grande relevo, em seus romances e ensaios realizou uma impiedosa radiografia, mesclada de sátira e ironia, tanto de sua Inglaterra natal quanto dos Estados Unidos, país para onde se mudou em 2011, fixando residência no bairro nova-iorquino do Brooklyn. Polêmica, às vezes incômoda, inevitavelmente lúcida, sua obra foi o ponto de encontro de forças contraditórias que se neutralizavam ou fertilizavam. Sua escrita, cheia de realizações memoráveis ​​e alguma falha de ocasião, foi acima de tudo um triunfo da inteligência. Sarcástico, satírico, com uma carga de humanidade que às vezes permitia pequenas doses de ternura, Amis não evitou nenhum assunto, por mais polêmico que fosse.   Uma de suas melhores armas era o humor, infalivelmente sombrio. Ele gostava de dizer que a ficção não tinha escolha a não ser um gênero cômico, porque a vida que se encarregava de refletir também era algo do tipo. Endossava o lema do escritor...

Boletim Letras 360º #535

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Zila Mamede. Arquivo. LANÇAMENTOS   A reedição da obra completa de Zila Mamede .   Foi em 2003, pela ocasião dos 50 anos da primeira edição do primeiro livro de Zila Mamede, Rosa de pedra , que a Edufrn publicou pela última vez a poesia completa da poeta. A casa editorial trouxe Navegos , na organização original feita por Zila mais o livro publicado depois, o seu último, A herança . Vinte anos depois, toda a sua obra volta a ser reeditada, mas considerando livro a livro: Rosa de pedra , Salinas , O arado , Exercício da palavra , Corpo a corpo e A herança . O novo projeto editorial para os seis títulos inclui o trabalho em bordado da artista Angela Almeida. Os seis livros também ficam disponíveis online gratuitamente no repositório da Biblioteca Zila Mamede, aqui .   Novo romance do vencedor do Nobel Orhan Pamuk publicado no Brasil é a instigante história de um garoto abandonado pelo pai e uma investigação sobre os conflitos entre oriente e ocidente na sua dimensão mais p...

O melhor romance espanhol dos últimos cinquenta anos

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Por Raúl Cazorla Juan García Hortelano. Foto: Ricardo Gutierrez   1 Os rivais   Dar prêmios é fácil, o difícil é concordarmos com os escolhidos e, embora não haja motivos para os livros, discos, filmes, competirem entre si, embora não exista uma coisa como “O melhor romance espanhol dos últimos cinquenta anos”, suponho que de vez em quando são necessários cartazes, letreiros de néon, sinos. Quem tem medo do prêmio feroz, me perguntei certa vez, quando a princípio só parece existir vantagens nos certames: ganham os premiados, os meios têm um estupendo evento informativo, a editora consegue a carta de promoção, os leitores escutam novos nomes. Os únicos que perdem, claro, são os não vencedores, que absurdo mais óbvio, já que essa falta de reconhecimento público às vezes se torna causa de ostracismo editorial, crivo dos leitores ou, pior ainda, um progressivo silêncio literário com o passar dos anos.   Ao selecionar o título deste artigo, já havia decidido há muito tempo, s...

O cupom falso, de Lev Tolstói

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Por Joaquim Serra   O jovem Mítia precisa urgentemente saldar uma dívida com um amigo da escola, de quem pediu dinheiro emprestado. O pai, um burocrata mal-humorado, não quer aumentar o valor da mesada, tampouco adiantar o dinheiro do próximo mês. Mítia então recorre ao amigo Mákhin, um tipo esperto, conhecedor dos jogos de cartas e das mulheres. A solução, para Mákhin, poderia ser uma: falsificar um cupom que, àquela época, fazia as vezes do dinheiro. Assim inicia a saga da personagem principal da novela O cupom falso , isto é, o próprio cupom. Tolstói faz do cupom um motivo de corrupção ou destruição independe das mãos que o segura.   O motivo do dinheiro funciona como um moto-contínuo na narrativa; retroalimenta a história de todos os personagens — transformando-se em acerto de contas, necessidade e desejo. E, por culpa dele, vários destinos se entrelaçam — mas vamos tratar de apenas uma das muitas histórias. Depois de receber o falso cupom, coube ao comerciante se desfazer...

O cinema experimental e suas articulações

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Por Adriana Bellamy Michael Snow. Foto: John Mahler Ao longo de qualquer história do cinema, o surgimento e desenvolvimento dessa estranha criatura chamada Cinema Experimental (com letras maiúsculas) sempre foi problemático. Embora possamos traçar suas origens cronológicas com o aparecimento das vanguardas cinematográficas durante 1920, foi na segunda metade do século XX o momento de sua segunda eclosão grandiosa com eixos criativos como Nova York, San Francisco ou Londres.   Esses movimentos de jovens artistas durante os anos 1960 e 1970, entre os quais encontramos figuras como Stan Brakhage, Jonas Mekas, Ernie Gehr, Shirley Clarke, Kenneth Anger, Marie Menken, Michael Snow, Andy Warhol, Robert Beer e muitos mais, foram caracterizados por rebaixar a ideia tradicional do cinematográfico e transformar tanto os modos de prática fílmica como as suas estruturas de distribuição e exibição através da criação de novos espaços, revistas, mecanismos institucionais alternativos e outro...