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A contística inicial de Marcel Proust

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Por Gabriella Kelmer Marcel Proust. Foto: Paul Boyer   A editora L&PM publicou em formato de bolso, em 2018, a coletânea O fim do ciúme e outros contos , de Michel Proust, a partir de uma seleção de narrativas curtas atinentes ao primeiro livro do autor, Les plaisirs et les jours , de 1896. A obra na íntegra, traduzida como O prazer e os dias , foi lançada pela Rio Gráfica no Brasil em 1986, sem que tenha havido desde então uma reedição dos textos, correspondentes à fase mais tenra da escrita do autor.   Os contos que constituem a versão brasileira mais recente são quatro: “Violante ou a mundanidade”, “A confissão de uma jovem”, “Um jantar na cidade” e “O fim do ciúme”, que cede título à coletânea. Cada um deles permite entrever, ainda que embrionariamente, algumas das preocupações da grande obra de Proust, Em busca do tempo perdido , a exemplo do ciúme, da vida mundana experimentada nos salões parisienses, da primazia das relações entre mãe e filhos, da homossexualidade. ...

Fim, de Fernanda Torres

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Por Sérgio Linard Fernanda Torres. Foto: Gareth Cattermole   Tivesse este romance caído nas mãos do tribunal de cancelamento das redes sociais, é bem possível que a campanha de Fernanda Torres, a atriz, fosse prejudicada fortemente por aquilo que escreveu Fernanda Torres, a autora. Não pela falta de qualidade da narrativa e sim pela grande presença de personagens questionáveis, de caráter duvidoso, de tendências machistas, misóginas e, em algum nível — maior ou menor —, preconceituosas. Isso ocorreria porque este mesmo tribunal exibe grande dificuldade de compreender a distinção entre personagens criados para um objetivo específico da obra literária e a vida do próprio ser humano que escreve. Um erro que faz com que escritores se aproveitem para reclamar uma autoridade irretocável e que tem resultado no afastamento de um público leitor cada vez mais diminuto.   Em Fim , Fernanda Torres explora o exato problema dos finais de personagens ou de figuras médias de um Rio de J...

Ryan Coogler, separatista e conciliador em Pecadores

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Por Alonso Díaz de la Vega As últimas semanas foram, pelo menos para mim, bastante populares. Em luto pela morte de Val Kilmer, assisti a um filme do qual só ouvia falar em comerciais de rádio quando era criança: A Ilha do Dr. Moreau (1996). Também me diverti com uma história de detetive, Beijos e tiros (2005), tão complicada quanto qualquer mistério de Raymond Chandler, mas amenizada pelas piadas. Já no ritmo, eu estava revisando thrillers de John Frankenheimer e dos cineastas de Hong Kong Andrew Lau e Alan Mak Siu-Fai; também assisti a filmes de gangsters do colossal Johnnie To.   Minha dieta ultimamente tem me deixado nostálgico da época em que Marlon Brando e Val Kilmer estrelavam um filme de monstros feito com absoluto realismo por Stan Winston; também de uma época em que Frank Sinatra atuou em um thriller político cujos delírios conspiratórios eram expressos ainda mais pelas imagens do que pelo enredo, e até mesmo por uma época em que o cinema de Hong Kong, embora cerebra...

Ritmo, humano e crítico, mas sobretudo ritmo, e Cuti

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Por Vinícius de Silva e Souza   Pouco nos surpreende a Companhia das Letras ter publicado toda uma coletânea dos poemas de Cuti, pseudônimo de Luiz Souza. Há uns anos a editora tem se empenhado na missão de acrescentar ao seu catálogo os grandes nomes dos Cadernos negros , uma série de publicações de literatura afro-brasileira iniciada em 1978 e que se tornou um importante espaço para divulgação da produção dos autores negros no Brasil. Daí, saíram Oswaldo de Camargo, autor de obras como 30 poemas de um negro brasileiro e A descoberta do frio , e também a grandiosa coletânea Não pararei de gritar , de Carlos de Assumpção.   Assim, o nome que parecia mesmo ausente neste catálogo específico da editora era o de Cuti — agora, não mais. Apresentado em julho de 2024, Ritmo humanegrítico é uma antologia que possui o diferencial de, ao contrário da grande maioria de antologias, não reunir apenas textos antigos, contemplando períodos longínquos da trajetória de um autor, mas também ...

Decomposição de The call of Cthulhu

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Por Eduardo Galeno But the horror, set and stable, Haunts my soul for evermore.   — Lovecraft Desenho de Cthulhu por Lovecraft   1   Nas entranhas da escrita lovecraftiana, o modernismo frio só pode corresponder a uma sociedade quente. O modo no qual supunha a atitude que contempla o desejo não resolvido, impossível, dessa figura esverdeada, com seu bafo gélido, seus múltiplos tentáculos e expressão aterrorizadora, chamada Cthulhu, não é mesmo um tipo específico de resposta? Não se sabe ao certo, pelas linhas que sucedem o conto, da necessidade instaurada ao povoamento da entidade em circunstância e por intermédio do serviço dessa esfera social. Pode ser caracterizado, entretanto, o nivelamento inerente encontrado (muito) antes, em e após 1928. O chamado de Cthulhu , é verdade, se coloca numa contramão, mas contínua, do modernismo literário, porque amplia o horizonte para além do princípio utópico-redentor e, por outro lado, refaz um percurso de um universo que nem mesmo ...

Sete poemas de “Animal de bosque” (2021), de Joan Margarit

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Por Pedro Belo Clara Joan Margarit. Foto: JM Website     OS DOIS NEVÕES   Vendo nevar tanto em todo o lado, sem sairmos de casa, tu e eu lembrámos a neve onde encontrámos o nosso amor. Ainda mal nos conhecíamos e passámos o dia até de madrugada a passear pelas ruas iluminadas por uma branca luz, cálida e fria. E descobrimos uma nova intimidade pelos dois até então desconhecida. A tua mão, enluvada na minha, tinha começado a salvar-me a vida. Passaram já sessenta anos, luminosos e escuros: mesmo nos mais duros sentimos o calor dessas ruas nevadas. Neste último também, quando, debilitado pelo linfoma e pela químio que não me cura, com o mesmo sorriso, e ao meu lado, me ajudaste a compor estes poemas. Ofereço-tos agora. Este é para mim um dos anos mais felizes da minha vida.     MUSEUS   Sempre me aborreceu e me cansou observar os retábulos de igrejas, quadros representando cenas bíblicas, monarcas a cavalo, luxuosas vestes onde o pintor se exibe em cada pre...