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Pensar a morte, escrever o abismo: leituras de Emil Cioran

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Por Amanda Fievet Marques Emil Cioran. Foto: Arnaud Baumann    O filósofo romeno de expressão francesa, Emil Cioran, construiu uma obra marcada por um pensamento sem sistema, um pensamento deliberadamente fragmentário centrado nos limites da existência, na irremediabilidade da morte e na falência das construções metafísicas. Sua escrita, aforismática e corrosiva, recusa a retórica e rejeita qualquer lenitivo. Este ensaio propõe-se examinar algumas de suas reflexões sobre a morte, as vicissitudes da vida e a escrita, a partir de quatro obras: Lágrimas e santos (1937), Breviário de decomposição (1949), Silogismos da amargura (1952) e Esboços de vertigem (1979). A leitura parte da hipótese de que, em Cioran, a morte não é apenas um tema, mas uma força formal: ela estrutura a linguagem, impõe ritmo ao pensamento, corrompe a esperança e funda um estilo. Pensar a morte, para ele, é escrever contra a ilusão, e escrever, portanto, no abismo. Trata-se de um gesto que recusa a trans...

The End: que o fim do mundo nos pegue dançando

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Por Cristina Aparicio   Fim. O fim. Aqui termina a história. Com um “The End”, essas palavras icônicas agora obsoletas, os filmes costumavam terminar. E foi assim que Joshua Oppenheimer intitulou seu mais recente longa-metragem, com uma referência a uma era já clássica do cinema, mas optando por começar onde ela termina. A primeira incursão do cineasta na ficção (após dois documentários poderosos e inovadores que exploraram as convenções do gênero e borraram os limites entre realidade e performance) está intimamente ligada às origens da sétima arte.   Nos compassos iniciais do filme, o letreiro de Hollywood ocupa uma posição privilegiada dentro do plano, situado acima da maquete que Hijo (George MacKay) está construindo. É o momento antes do jovem começar a cantar em um número que intercala diálogos e canções, uma cena em que todos os personagens aparecem em uma espécie de abertura, típica de qualquer obra musical. Embora “típica” talvez não seja um termo apropriado para se r...

Walter Benjamin: fragmentos de uma biblioteca

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Por Georgina Cebey   Certa tarde de 1933, a fotógrafa judia Gisèle Freund deixou sua casa na Alemanha. Pegou um trem com destino à França; entre os seus poucos pertences, os dois mais importantes eram sua câmera e uma carta de aceite da Sorbonne, onde continuaria seus estudos em sociologia. Apesar de ter conhecidos na cidade, Freund passava as tardes na Biblioteca Nacional de Paris, um lugar que se tornou o seu predileto para estudar, mas também uma espécie de suposto lar. Desse lugar, a fotógrafa relembrava em Le Monde et ma caméra (trad. livre O mundo na minha câmera ):   “A sala de leitura, muito maior, era coberta por uma cúpula de vidro através da qual se filtrava uma luz difusa e acinzentada. A maioria dos leitores eram frequentadores assíduos de longa data. Cientistas, pesquisadores, jornalistas e monges eruditos compartilhavam mesa com deputados que ali iam preparar seus discursos. O ar exalava a poeira e a um desinfetante adocicado que um guarda ocasionalmente borrifa...

O estranho caso dos poemas de Gullar que não chegaram à URSS

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Por Rafael Bonavina   Ferreira Gullar, 1965. Foto: França. Arquivo Correio da Manhã (Reprodução) O grande poeta maranhense Ferreira Gullar é um daqueles escritores que, apesar de sua obra importantíssima, ainda se encontra praticamente não traduzida; só aqui e ali encontramos algumas traduções de excelente qualidade. Porém, é preciso chamar a atenção para um caso bastante peculiar em que alguns de seus poemas poderiam ter alcançado outro idioma, mas morreram na praia, ou melhor, na neve. Para isso, começaremos por uma breve explicação de como Gullar foi parar na União Soviética em plenos anos 1970.   Como sabemos, o poeta maranhense era bastante incômodo para a Ditadura Militar por causa da sua atuação política, tanto poética quanto militante; diga-se de passagem, que não se tratava de um ator de segunda categoria, e sim de importância fundamental naquele momento. Por exemplo, sua voz grave e impactante era muito requisitada para a narração de filmes do Cinema Novo, como Maior...

Boletim Letras 360º #643

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Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras . Jean Genet. Foto: Roger Parry   LANÇAMENTOS   A nova tradução da obra de estreia do escritor francês, precursor da agora designada literatura queer e da autoficção . Escrito numa das muitas passagens do autor pelas prisões francesas e publicado pela primeira vez em 1943, Nossa Senhora das Flores nasceu das memórias pessoais e obsessões íntimas de Jean Genet. Fruto de uma necessidade incontrolável de evasão e subversão eróticas, a narrativa de Divina adquire, na prosa inigualável de Genet, uma força visionária tão potente que leva os personagens a ultrapassarem os limites da trama e visitarem, como aparições angelicais cheias de malícia, o narrador encarcerado, confundindo aquilo que é real e o que não é. Desconcertante e escandaloso desde o título — que parece aludir a um santuário, mas é o apelido de um rematado cafajeste loiro de olhos azuis —, No...

Aproximações ao Manual de Epicteto e suas Diatribes — nossa ação num mundo de instabilidade

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Por Afonso Junior Epicteto. Retrato imaginado. Oxford, 1715. Recentemente, a série Adolescência tornou-se um sucesso global por trazer à tona vários problemas relativos à nova configuração entre crescimento, redes sociais e violência: por um lado, os pais não têm tempo ou interesse nos filhos, por outro, a machosfera está pronta para radicalizar os meninos, vulneráveis nessa época em que precisariam ainda de apoio, mas estão sozinhos; outros pais se preocuparam em dar todo o conforto material, mas não são capazes de ouvir seus problemas. A paranoia de que as mulheres odeiam os homens acaba “exigindo” ação perversa — mais ou menos, guardadas as proporções, como o povo judeu foi descrito pela ideologia dos anos 1930 como perigoso. Aquilo que os adultos teriam a ensinar foi substituído pelo ensino das telas — com seu iminente fanatismo e preconceito. Os antigos tinham até mesmo um deus, Janus, de duas faces, deus dos portais, para observar essa transição — Carl Jung deu atenção ao mito d...