Canto noturno de um pastor errante da Ásia: comentário e tradução
Por Thiago Teixeira
O homem não passa de um caniço, o mais débil da natureza; mas é um caniço pensante.
O homem não passa de um caniço, o mais débil da natureza; mas é um caniço pensante.
— Pascal
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| Edvard Munch, Melancolia. |
“É preciso saber esquecer”. Esta bela frase é o do Nietzsche da “Segunda consideração extemporânea”: Da utilidade e desvantagem da história para a vida. Ele inicia o texto com uma imagem: o homem no alto de sua superioridade depara-se com um rebanho de animais e os inveja. Inveja-os, pois percebe que eles não se curvam ao peso do tempo, eles não têm uma noção de passado, uma memória, uma lembrança, e, por isso, estão aptos para a felicidade. Os animais são capazes de se esquecer, já o homem, ser histórico, é abatido pelo mal de Funes, el Memorioso e chega mesmo a viver de memórias, acumulá-las como um colecionador. Acontece que, para a felicidade, diz então Nietzsche, é preciso fazer concessões nessa postura excessivamente histórica: é preciso saber esquecer:
“Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que é ontem e o que é hoje; ele salta de lá para cá, come, descansa, digere, salta de novo; e assim de manhã até a noite, dia após dia; ligado de maneira fugaz com seu prazer e desprazer à própria estaca do instante, e, por isto, nem melancólico nem enfadado. Ver isto desgosta duramente o homem porque ele se vangloria de sua humanidade frente ao animal, embora olhe invejoso para a sua felicidade. Pois o homem quer apenas isso, viver como o animal, sem melancolia, sem dor; e o quer entretanto em vão, porque não quer como o animal. O homem pergunta mesmo um dia ao animal: por que não me falas sobre tua felicidade e apenas me observas? O animal quer também responder e falar, isso se deve ao fato de que sempre esquece o que queria dizer, mas também já esqueceu esta resposta e silencia; de tal modo que o homem se admira disso.”
Sabemos em quem Nietzsche estava pensando ao tecer tais considerações, sobretudo quando mirou na angústia do homem perante o animal. Ele pensava em Leopardi, um dos poetas de que mais gostava, especificamente no grande poema “Canto noturno do pastor errante da Ásia”. É nele que aparece pela primeira vez essa figura do pensador — um pastor filósofo —, que se angustia ao se deparar com alguns seres não humanos, justamente por eles ignorarem os percalços da existência. O eu lírico se reporta à lua, depois ao seu rebanho (que traduzimos por grei, a fim de manter do original o simbólico do feminino), compara-se com eles e lamenta-se por não ser como eles, tão apartados estão das agruras da existência e das pequenas tragédias de homem, tão cheios de si naquela tranquilidade de um boi que pasta — um boi que vê os homens e que chega, sobre eles, àquela conclusão dum poema de Drummond:
“Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa.”
Os homens delicados como um arbusto (os caniços pensantes de Pascal), finos e compridos a correr de um lado para o outro, inquietos em seu senso de urgência. A vida humana é frágil e se torna trágica graças ao fato de que o homem nada mais é que consciência. A lua no céu está indiferente à existência e ao seu eterno curso imortal; o rebanho apenas pasta, vivendo cada momento como se fosse inédito. Lua e grei nada sabem sobre a vida, sobre a morte, sobre o existir, elas não são seres de consciência, logo, não precisam suportar o peso de ser consciente. Elas apenas existem, nada mais, sequer adivinham o humano sentimento de tédio. E é isso o que causa inveja no eu-lírico solitário de Leopardi, que não tem mais nada além do deserto, da lua e de suas crias.
Revela-se nesse jogo entre o eu-lírico, lua e rebanho a tensão entre natureza e cultura. É que o homem faz parte da natureza, compartilha com ela algo de cíclico — nasce, envelhece e morre, é substituído por outras gerações —, mas ele é também cultura, o finito no tempo, e padece a ponto de precisar de consolo ao nascer. A natureza também é ciclo, mas ela persiste em um uma dimensão temporal diversa, diante da qual o tempo humano é escasso e até risível. Essa concepção é inclusive um topos da poesia, que percebemos, por exemplo, em um poema de Juan Ramón Jiménez:
“Hão de morrer todos os que me amaram;
a cada ano, uma nova população;
no recanto de minha terra florida e caiada,
meu espírito vagará nostálgico...
... partirei, ficarei só, sem casa, sem verde
árvore, sem poço branco,
sem céu azul e plácido...
e os pássaros continuarão cantando.”
“Y se quedarán los pájaros cantando!” A natureza é indiferente. Ela não se rebela de ira e raiva como o quer um Castro Alves quando implora ao tufão para que varra os mares, enquanto ela responde com uma brisa balançando a bandeira. Os pássaros vão continuar cantando, a lua continuará brilhando. São tempos em que o eu-lírico e a natureza não mais se estreitam, não compartilham mais o mesmo destino. Os humores do homem não estão mais nos planetas nem nos elementos. O eu-lírico olha para uma natureza e ela está tão apartada dele, que ele acaba por se perceber isolado de tudo o que está ao seu redor. O eu-lírico não está mais harmonizado com o mundo exterior, e isso é importante em Leopardi. Pois quando lemos do mesmo Cantos o famoso poema “Infinito”, vemos lá a união entre os polos contrários: o eu-lírico naquele poema se integra ao mundo exterior, sebes, montes e ventos, e se dissolve nesse mundo, como que naufragando em um mar: “É doce naufragar naquele mar”, uma experiência religiosa de religação com o mundo. Um poema com dêiticos unindo gramaticalmente os elementos sintáticos, esculpindo coesão e unidade. Mas aqui, no monólogo do pastor diante da lua e da ovelha, o que existe é a constatação de que lua e ovelha (a natureza) são um outro. O mundo exterior é o outro do eu-lírico.
E o que é o homem senão essa constatação? O homem não é uma consciência diante do mundo, uma consciência que se realiza na medida em que se percebe o outro do mundo ou percebe o mundo como o outro? O homem é essa solidão cósmica. É uma consciência cercada de não consciências, e essa solidão atinge o eu-lírico como um peso, já que a separação primordial do homem em relação ao não-homem é também a constatação de que a vida é finita e, sobretudo, gera o terror de se perceber existindo. O poeta diz que viver é um mal, ele não gosta da vida, mas talvez fosse mais preciso se dissesse que o mal verdadeiro não é a vida, mas o saber-se vivendo: a consciência tendo consciência de si mesma enquanto consciência.
É a união entre o homem e o mundo o que se dissolveu na história da lírica, sobretudo a partir de poemas como este de Leopardi ou de um Blake (o qual compara a vida do homem a de uma mosca, com a diferença de que a mosca é insciente de existir). Na lírica antiga, o mundo exterior era a projeção de um eu. A moça sofredora conversava com um papagaio e ele respondia com a voz dela; o eu-lírico se confessava ao verde pinho para ouvir-se a si mesmo. Agora a natureza não mais se antropomorfiza, ela é silêncio e pedras; os ecos tornaram-se mecânicos, não são mais sussurros de deuses, cantos de sereia e voz humana. Perdeu-se a inocência: o poeta moderno, diz Leopardi, é o pastor solitário que precisa carregar o peso de saber-se vivendo em meio ao mundo, sentindo um tédio existencial, la noia: uma náusea avant-garde de um ser para si afirmando-se em um mundo todo composto de ser em si.
O noturno de Leopardi é sobre o sem-sentido da vida e seus percalços. Toda a vida do homem ganha a alegoria da passagem do viajante que enfrenta todos os reveses de montanhas, vales, correntes, pântanos, calor e frio, para terminar no abismo horrendo, o túmulo, para onde tudo é esquecimento: “Um abismo horrendo, imenso,/ Onde ele, precipitando-se, de tudo se esquece”. Cada obstáculo enfrentado pelo homem idoso, que carrega, como Sísifo, um fardo nas costas, além da enumeração ganha uma pontuação peculiar, já que cada elemento está isolado por vírgulas, como a reforçar a imagem da dificuldade, do obstáculo, do truncamento, do viver como algo fatigante. O ritmo nessa passagem é, porém, acelerado, já que, como vimos, a estada humana na Terra é um ciclo de tempo exíguo.
Mas como um poema, com todo esse peso, essa carga existencial, essa melancolia e pessimismo pode demonstrar uma força vital tão grande, um impulso estético tão poderoso, a ponto de ser um dos mais belos que possamos ler na vida? Como pode esse hino da não-vida ser uma manifestação da plena-vida?
Eis mais um dos mistérios che son celate al semplice pastore.
*
Canto noturno de um pastor errante da Ásia
Que fazes tu, lua, no céu? Diz-me, que fazes tu,
Silenciosa lua?
Surges à noite e segues
Guardando os desertos, onde te pões.
Ainda não te foi bastante
Tornar aos perpétuos caminhos?
Não enjoastes ainda, ainda te apraz
Contemplar estes vales?
Assemelha-se à tua vida
A vida do pastor.
Levanta ao primeiro alvor,
Tange o novilho por todo o campo e vê
Ovelhas, fontes, arbustos;
Após descansa, alquebrado, pela tarde:
Mais não espera.
Diz-me, ó lua: o que vale
Ao pastor a própria vida?
E a vós, os astros, a vida o que vale? Diz-me,
Para onde levam este meu breve vagar
E o teu curso imortal?
Velhinho branco, enfermo,
Em andrajos vestido e descalço,
Com gravíssimos feixes às costas,
Vai por montanha e vales,
Por escarpas pontudas, areias fundas, matagais,
Ao vento, à tempestade, e então arde
Agora, e logo então gela,
Apressa-se, dispara, anseia,
Supera torrentes e pântanos,
Cai, ergue-se, e mais se apressa,
Sem repouso ou descanso,
Dilacerado e sangrante; enfim ele chega
Aonde desemboca a vida,
Para onde tanto esforço foi voltado:
Um abismo horrendo, imenso,
Onde ele, precipitando-se, de tudo se esquece.
Virgem lua, tal
É a vida mortal.
Nasce o homem em dificuldade,
Em risco de morte ao nascimento.
Sofre pena e tormento
Antes de tudo; mal ele estreia,
A mãe e o genitor
Logo o consolam de ter nascido.
Depois que ele vai crescendo,
Ambos o amparam; sempre
Por atos e palavras
Procuram animá-lo,
Consolá-lo de seu estado humano:
Outro tão grato cuidado
À prole não ofertam os pais.
Mas porque dá-la ao sol,
Porque oferecê-la à vida,
Se depois disso convém consolá-la?
Se a vida é desventura,
Por que para nós tão longa dura?
Imaculada lua, tal
É o estado mortal.
Mas tu mortal não és,
E talvez não cale em ti este meu canto.
No entanto tu, solitária, eterna peregrina,
Que tão meditabunda estás, tu talvez compreendas
Este viver terreno,
Este penar tão nosso, o suspirar que seja;
Que seja este morrer, este supremo
Empalidecer de semblante,
E o sumir-se na Terra, e o faltar
À habitual, amante companhia.
E certamente compreendes
O porquê das coisas e vês o fruto
Da manhã, da noite,
Do tácito e infinito andar do tempo.
E tu sabes, é certo, para qual doce amor
Sorri a primavera,
A que serve a estiagem, a quem favorece
O inverno com a sua geleira.
Mil coisas sabes tu, outras mil desvendas
Que são seladas ao simples pastor.
Muitas vezes, quando te vejo
Restar assim, muda na deserta vastidão,
A qual, em seu largo estender-se, ao céu confina-te;
Ou então, quando com meu rebanho
Sigo viajando, passo a passo,
E contemplo o céu a arder de estrelas,
Digo a mim mesmo, pensando:
Para que tantas estrelas?
Qual o propósito do ar infinito e daquela profunda,
Infinita serenidade? o que quer dizer esta
Solidão imensa? e eu o que sou?
Assim comigo especulo, e deste cenário
Incomensurável e majestoso
E desta incontável família estelar;
De tanto labor, tantos movimentos
De toda coisa celeste, de toda coisa terrena
Girando sem pausa alguma
Para tornar sempre de onde partem,
Uso algum, fruto algum
Prever não sei; mas tu, é certo,
Jovenzinha imortal, conheces tudo.
É isto o que sei e sinto,
Que dos eternos ciclos,
Que da fragilidade do meu ser,
Qualquer bem ou contentamento
Os outros tirem talvez; para mim a vida é má.
Ó minha grei que descansa, bem-aventurada,
Cuja própria miséria, creio, desconhece!
Quanta inveja sinto de ti!
Não só porque sem fôlego
Quase liberta segues
Ou porque de que qualquer estorvo, de qualquer mágoa,
De qualquer extremo temor logo te esqueces,
Mas sim porque jamais do tédio provas.
Quando repousas à sombra, sobre a relva,
Mostra-te quieta e contente;
Na maior parte do ano,
Sem angústia, passas neste estado.
Ainda que eu que siga sobre a relva, à sombra,
Eis que um fastígio me confunde
A mente, e um espinho quase me punge,
De sorte que, repousando, mais do que nunca estou longe
De encontrar abrigo ou paz.
Nada desejo, entanto,
E não tenho tido até aqui razão de pranto.
O que gozas e o quanto gozas
Eu já não sei dizer; mas afortunada és.
Já eu gozo poucas vezes,
Ó grei minha, e nem disso me lamento.
Se falar soubesses, eu te perguntaria: Diz-me, porque jazendo
Com conforto, ociosamente, se satisfaz todo animal,
E eu, se me deito em repouso, o tédio já me assalta?
Tivesse eu asas
Para voar nas nuvens
E numerar estrelas uma a uma
E como o trovão errar de monte em monte,
Mais feliz eu seria, minha doce ovelha,
Mais feliz eu seria, cândida lua.
Ou talvez se engane realmente,
Olhando para a sorte de outros, o meu pensamento:
Seja em qual forma for ou qual
Estado, dentro de uma toca ou berço,
É funesto a quem nasce o dia em que nasce.
Referências
NIETZSCHE, Friedrich. Segunda consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da história para a vida. Tradução de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.
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