Ensaios do desespero, de Antonio Puppin
Por Gabriella Kelmer

Na epígrafe que antecede os contos de Ensaios do desespero, de Antonio Puppin, o poeta cristão San Juan de La Cruz afirma que “lloraré la morte ya/ y lamentaré mi vida”, versos a serem associados a um plano existencial de pecados. A escolha pela citação desdobra-se logo na presença da morte, matizada como irrupção violenta, dispositivo adormecido e fadiga existencial, sendo ela um dos temas a atravessar as nove narrativas curtas que compõem a coletânea, e no lamento incessante pela vida.
A menção do título ao desespero é, nesse sentido, vinculada ao modo como cada conto introduz situações que, se não angustiantes em si mesmas, têm a morte e a dor existencial como limiar. O tom ensaístico é presente, por sua vez, em narrativas como “Fortuna”, “O outro” e, em especial, “Desespero e eternidade”, a apresentarem narradores em primeira pessoa cuja permanência no plano das ações é ocasional (sendo aliás inexistente na última narrativa, mais propriamente ensaio). Os contos são diversos quanto às temáticas, valendo-se de estratégias de composição que também bebem de fontes variadas e evidenciam, em muitas instâncias, a erudição de seu autor.
“Há dor maior no mundo do que a dor do arrependimento? Sob esta velha árvore, esta paisagem gris, recordo com tanta saudade os nossos momentos juntos, Fortuna. Debruço-me, com extrema cautela, gentilmente pousando meus dedos sobre o teu leito, e dedico-te estas flores, que por baixo de cores vivas escondem a tristeza que habita a minha alma” (Puppin, 2026, p. 33).
Os enredos demonstram ao menos uma dessas características. Na primeira parte da obra, que lida com a angústia do Nada, há quatro contos. Em “Da beleza e da catástrofe”, um escritor judeu viaja em um navio argentino pela América do Sul para discutir a poesia polonesa, encontrando, dentre os companheiros de viagem, um marroquino cujo pai, mexicano, era fascinado pela catástrofe. Em “Fortuna”, narrativa mais longa da coletânea, um homem de nome Aquiles dedica resmas incontáveis ao irrealizado amor de juventude nutrido pela mulher, já perdida, que nomeia a narrativa. Em “O outro”, um escritor frustrado (e pretensioso) encontra-se em um restaurante com a mulher que não ama, sendo esse o espaço onde presencia um assassinato e adentra um alucinado fluxo de consciência. O próximo conto, “O congresso internacional da morte”, trata de um evento em que se reúnem incontáveis estudiosos para responderem à pergunta essencial, colocando, em paralelo, um vilarejo amazônico no qual se presencia a reação da resposta obtida.
A segunda parte da obra se inicia com uma intermissão a relacionar o homem ao cinismo e à inutilidade da rebeldia. Seguem-se contos que, em comparação com os da primeira parte, abrem-se a novas perspectivas e ao que muitas vezes se tem chamado de preocupação social: “A triste história de Lilindo”, microconto, fala sobre um trabalhador que, ao ver um passarinho, descuida-se e é vitimado pela máquina que manipula; em “O peso dos dias”, um jovem, ao presenciar a tragédia ocorrida a uma vizinha na favela onde vivem, em evento com contornos ilógicos, presencia o riso voraz de outros como ele; em “Um coração solitário”, um escritor medíocre, a perseguir o Autor a quem admira profusamente, envolve-se em trama pederasta com a neta do escritor, sendo o conto estruturado no entorno da paródia (inclusive de alguns procedimentos utilizados na própria coletânea) e do experimentalismo; a narrativa seguinte, “O purgatório dos conformistas”, excede o absurdo, trazendo elementos, como um metamorfo Virgílio, que esgarçam os contornos da realidade.
Enfim, a terceira parte é o confronto direto com a morte. Presente a todo tempo, torna-se ela temática de uma reflexão de contornos filosóficos em “Desespero e eternidade”.
“E acabou por descobrir, da pior maneira, que não havia, nunca haveria, dignidade alguma escondida no fundo do poço. Ao cruzar as portas de casa, aproxima-se da janela da sala e escancara-a; um vento gélido invade o pequeno apartamento. Ergue-se, altivo, e marcha em direção ao parapeito” (Puppin, 2026, p. 77).
Apresentados os contos, em seus contornos gerais, é preciso evidenciar que, sendo a morte transversal às narrativas, há também a presença constante da literatura, muitas vezes estabelecida como impulso irresistível e marca diferencial. É evidente, dentro dessa ótica, a maneira com que a escrita e suas dores, bem como a impossibilidade de evitá-las, preocupa o autor, que constitui a medida pela qual a arte também pode conduzir à indiferença, à crueldade, ao sofrimento existencial.
Em termos de realização, há contos melhor acabados do que outros. Muitas das narrativas, em especial na primeira parte, estendem-se demasiadamente, havendo contornos nos enredos — finais dramáticos, tempos que retomam desnecessariamente a lonjura de um amor antiquíssimo, a erudição excessiva, autoexplicativa e longilínea de um escritor atormentado — que sugestionam uma construção algo lassa. É possível argumentar um propósito para cada um desses eventos, existindo evidente consciência formal na obra; são todavia demasiado claros os efeitos que se busca gerar, perdendo os contos em sutileza (é esse o caso da escolha dos nomes Aquiles e Fortuna para malogrado casal).
Habitam alguns contos — como é o exemplo de “Da beleza e da catástrofe” — em um registro linguístico por vezes pouco convincente, em especial nos diálogos, ainda que se leve em conta remissões a tempos passados. Em “Fortuna”, o uso da segunda pessoa, ironizado mais tarde na coletânea, é o contexto no qual se realizam alguns clichês de um sentimentalismo excessivo e, talvez por essa razão, pouco convincente (“Tu apenas sorririas, e tudo se tornaria translúcido, à semelhança de um singelo cristal...”).
“O leitor há de me entender, e eu espero que me entenda, pois no fim não se trata de vontade, porque eu queria rir, acredite você, meu caro leitor, eu queria mesmo muito rir, mas, por muito que tentasse, não conseguia” (Puppin, 2026, p. 115).
São melhores os contos seguintes. “O outro”, embora manifeste um narrador ensimesmado e por vezes cansativo na figura de um escritor atormentado pela pouco comunicativa angústia de não ser lembrado ao lado de grandes contistas, possui boas saídas estéticas, além de uma evidente lucidez sobre o que apresenta, chegando a ser registrado, na fala de outra personagem, que é o protagonista portador de “falso cinismo”, “falso narcisismo” e “falsa misantropia”. É o ponto alto da narrativa o fluxo de consciência que se sucede ao tiroteio presenciado, existindo, porém, também nesse ponto, uma escolha de temáticas pouco convincente, tendo em vista o iminente risco à vida.
Destaca-se ainda, dentre as narrativas, “Um coração solitário”, narrativa em primeira pessoa de protagonista que, também ele um escritor em crise existencial, busca se aproximar de qualquer maneira do Autor, gênio a realizar, artisticamente, a formalização — intangível, perfeita — de uma realidade a princípio esvaziada de qualquer sentido. Discute o conto, ao transitar pelo baixo corporal e ao esgarçar noções de moralidade, pela não concretizada pedofilia, pela indiscrição do erótico que impulsiona a escrita, pelo absurdo de um fantástico pouco apartado da realidade proposta. Formalmente, introduz-se uma perspectiva mais íntegra, ressoando ela mais autêntica do que algumas ocorrências de narradores mais tradicionais.
De modo geral, fica evidente a experimentação tantas vezes associada ao início de uma carreira literária. Há boas soluções em Puppin, além de evidente carga de erudição, embora as histórias sofram no andamento da ação, repisando o autor algumas ideias. Assim, se os Ensaios do desespero não transmitem inteiramente a carga emocional que propõem, por escolhas que evidenciam os mecanismos das narrativas e algumas faltas, também não se pode dizer que não há momentos altos nos contos ou talento de seu escritor, que por vezes introduz discussões antigas sob roupagem nova, como é o caso da insensibilidade descoberta justamente pelo contato direto com o texto literário (ao contrário do que em geral se defende).
Fico na expectativa de novas publicações, recomendando o texto àqueles que se interessam pela literatura da contemporaneidade.
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Ensaios do desespero
Antonio Puppin
7Letras, 2026
168 p.
Antonio Puppin
7Letras, 2026
168 p.
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