Outras guerras, de Leonardo Brasiliense
Por Henrique Ruy S. Santos
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| Leonardo Brasiliense. Foto: Marcelo Brum |
A solidão masculina é um tema recorrente na literatura moderna. Homens (ou garotos) acossados pelo peso de seus dilemas morais, da rejeição social ou da inadequação diante do mundo constituem personagens frequentes nesse universo ficcional. Puxando de cabeça: Crime e castigo; O apanhador no campo de centeio; Eurico, o presbítero; A metamorfose, além de muitos outros.
O tema evidenciado e o tipo de personagem parecem exercer uma certa atração também sobre Leonardo Brasiliense. Roupas sujas (2017), seu melhor romance até agora (não obstante o mau título), ainda que se concentre em um drama familiar com uma certa multiplicidade de personagens, dedica uma atenção notável ao conflito interno de Antônio e seu afastamento do restante da família. Peixe estranho (2022), romance mais irregular, lida com um sujeito que vive com uma boneca de silicone para quem passa os dias a narrar a vida que teve com duas ex-esposas.
Agora em 2026, o escritor gaúcho volta à cena com Outras guerras. O livro acompanha três marinheiros voluntários, Skawinski, Agostinho e Ariel, cuja missão é passar 85 dias cuidando de um farol no extremo-sul do Brasil, na praia de maior extensão do mundo. Ainda que não seja citado nominalmente, o Farol do Albardão, localizado numa região limítrofe do Rio Grande do Sul quase completamente inabitada, é a inspiração direta para a ambientação.¹
Na vastidão de areia e oceano, em que não há pontos de partida nem de chegada visíveis, a praia “não parece então infinita, e sim eterna”. Nesse “abismo horizontal”, o farol é o ponto de quebra que marca não só uma coordenada fixa a que navegadores podem recorrer, mas também um abrigo contra a abolição do tempo e contra uma eternidade sem intercorrências. Além dos cuidados típicos de qualquer faroleiro, a principal batalha dos marinheiros é contra a areia trazida das dunas pelos fortes ventos. Todo dia eles devem varrer, cuidando para que o farol e as casas de apoio em derredor não sejam completamente tomadas.
É o tipo de tema que, à primeira vista, parece convidar uma exploração psicológica em profundidade, quem sabe adentrando o onírico e o surreal, como algumas vezes o cinema já fez. Mas Brasiliense é um estilista da contenção, um escritor daqueles que procuram dizer muito com pouco. É menos pelas firulas frasais e mais pela maneira como organiza acontecimentos, sobrepondo-os, encaixando-os de diferentes maneiras e revisitando-os por diferentes olhares que alcança bons efeitos.
Cada capítulo (em geral curto) narra um dia específico tomando como referência o início da estadia no farol (“Dia 1”, “Dia 7”, “Dia -5601” etc.). A vigília voluntária adquire contornos psicológicos distintos para cada personagem conforme a narrativa recua a episódios ou épocas mais distantes do passado de cada um. É uma forma de o escritor trazer o jogo narrativo para um terreno que conhece com mais familiaridade, isto é, o das relações familiares complicadas e dos traumas domésticos mal elaborados. Assim, o ofício dos faroleiros ora é penitência ou uma espécie de autoexílio, ora é o lugar da sublimação de impulsos obscuros, a depender do que ficamos sabendo conforme progredimos na leitura.
“Agora, sentado no chão, ele escava a areia no canto da parede onde se lê “aqui”. Usa uma telha como obstáculo para a areia não transbordar de volta. É sua guerra diária no farol: não deixar o vento e a areia o soterrarem; e como a areia e o vento não têm fim, é uma guerra na qual se luta todos os dias sem nenhuma chance ou esperança de eliminar o opositor; uma guerra eterna impossível de ser vencida, quando se luta unicamente, e sem trégua, para não se perder.” (p. 48)

Curiosamente, nem sempre é quando se aproxima demais de seus personagens que o livro é bem-sucedido. Com frequência, o olhar narrativo é distanciado, como a enfocar os personagens pelos olhos de um observador que se posiciona ao longe, entretanto apenas para que a ilusão seja rompida logo em seguida. O resultado é a ratificação não só da solidão dos três marinheiros, mas também de sua impotência e pequenez diante de uma natureza quase sempre vista como adversária. Afinal, “o que menos há neste extremo do mundo são testemunhas” (p. 47).
O livro realiza uma aproximação gradual em relação a seus personagens e suas questões internas. À medida que recorre aos flashbacks como recurso narrativo, o romance aos poucos parece apostar na confluência dos tempos como forma de dar estofo à ação principal que ocorre no farol. As questões familiares mal resolvidas no passado de cada um dos três personagens aos poucos invadem o presente e dão um certo colorido psicológico a uma narrativa que, em certos passos, pende para a repetição e a monotonia. E então o livro acaba.
Ao terminar a leitura de Outras guerras, é difícil não ser tomado pela impressão de projeto interrompido ou apressado. O flerte com o onírico e com o surreal como forma de pintar a guerra psicológica travada pelos faroleiros é apenas isso, um flerte. Não que o caminho da extrapolação do real (ou mesmo qualquer outra alternativa) seja obrigatório. A imperfeição apontada não se trata da simples escolha de uma ou outra ferramenta narrativo, e sim do fato de que o livro indicia determinados traços sem, todavia, persegui-los com afinco.
O que em um livro como Roupas sujas é uma qualidade notável, isto é, a concisão e a capacidade de dizer pelo implícito, neste livro mais recente de Leonardo Brasiliense se torna sinal de uma certa impotência que deixa tudo com um gosto de “quase”: quase drama(s) familiar(es) e quase estudo de personagens sob condições extremas. O romance tropeça e não se reergue justo quando começa a se justificar.
Há um bom livro em algum lugar no meio de Outras guerras, principalmente nos momentos em que lida com o peso do passado, da culpa e dos tabus familiares. Em algum lugar talvez soterrado pela areia ou arrastado pelo vento.
Notas
1 Vale mencionar que, em 2019, a equipe do Fantástico, da Rede Globo, realizou uma reportagem na qual mostrou in loco a realidade dos marinheiros e de outras pessoas que habitam a região do farol, e praticamente tudo que Brasiliense usa em seu romance (no que diz respeito à experiência no farol) parece ter sido retirado de lá. A matéria pode ser encontrada facilmente no YouTube.
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Outras guerras
Leonardo Brasiliense
Companhia das Letras, 2026

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