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Antologias

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Por Pedro Fernandes É sabido que Portugal é o país das antologias, individuais, mas, principalmente coletivas. Ainda não é fora de moda falar que, apesar das facilidades de publicação, é difícil dar o primeiro passo no mercado editorial, principalmente, quando nos derribamos para o terreno do financeiro. Mais caro que a auto-publicação é fazer um nome por conta própria, isto é, transformar o exercício da escrita numa carreira, em algo sustentável por ela própria. Os dados não negam: apesar de termos evoluído sobre o trabalho de escritor, ainda são pouquíssimos os escritores que realmente vivem daquilo que escrevem. A coisa só parece se inverter quando o acaso bate à porta (não sem custa de muito esforço e empurrões de gente metida nos fechados meios editorais) e se o escritor se debandar  para a literatura fast-food. Uma carreira de escritor é, portanto, um exercício contínuo de sofrimentos, pensarão uns, e não deixarão de estar com a razão. Agora, as antologias coletivas s...

Auto da barca do inferno, de Gil Vicente

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Por Pedro Fernandes Gil Vicente pode ser considerado um dos grandes gênios da Literatura Ocidental, de importância paralela a William Shakespeare, para citar outro nome do teatro. O português despontou como um dos maiores dramaturgos populares, seja nos temas, na linguagem, na figura dos atores. Durante sua vida escreveu e representou uma diversidade de peças que, mesmo com seu empenho em vê-las reunidas numa só edição, não chegou a usufruir do largo trabalho. E se hoje conhecemos sua obra, em parte deveu-se ao empenho de seu filho que publicou em 1562 uma compilação daquilo que o pai havia reunido, embora a crítica especule que muita coisa tenha sido omitida propositalmente, bem como tenha feito alterações nos originais. O Auto da barca do inferno é apenas uma das 46 peças, grande parte delas escritas em espanhol. A crítica costumeiramente divide esse colossal conjunto de textos em pelo menos três fases: uma que vai de 1502 a 1514 marcada pela influência de Juan del Encina,...

O fiasco, de Imre Kertész

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Por Darío Villanueva Sem destino e Kaddish por uma criação não nascida são a primeira e a terceira partes da trilogia de Imre Kertész sobre o Holocausto. O fiasco é a segunda e a mais complexa das três; é uma obra de difícil leitura, mas imprescindível para compreender a singularidade de seu autor porque representa por si só toda uma condição contrária à rapidez do romanesco pós-moderno, tanto no que se refere à forma narrativa propriamente dita como a sustância de seu conteúdo. O fiasco é, neste sentido, não apenas o relato de um sobrevivente de Auschwitz, de Buchenwald e da ditadura kadarista – muito menos terrível esta, na consciência do autor, que o Holocausto –, mas também o romance de um romancista que a nós se apresenta, por suposto, muito mais próximo de nomes como Unamuno que de Ramón Gómez de la Serna. Em sua qualidade de elaborada metaficção, O fiasco não presta, porém a questão não se refere ao como se faz um romance mas é muito mais transcendente, por qu...

Literatura e cidade: dez livros da literatura de língua portuguesa

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Numa lista que editamos sobre literatura e viagem citamos um livro de Italo Calvino, As cidades invisíveis ; livro que poderíamos adotar sem maiores justificativas também numa lista de livros que tragam em seu interior o tema de representação da cidade .  "De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas", afirma Marco Polo a Kublai Khan a certa altura no romance. Este é um livro em que Italo Calvino, “através da ficção, nos propõe percursos múltiplos, em busca de respostas para as perguntas que a realidade urbana vem instigando, desde o início da modernidade. A situação dialogal entre os dois interlocutores gera grafias urbanas que constituem o relato sensível dos modos de ver a cidade, produzindo uma cartografia simbólica, captando a cidade enquanto ‘símbolo complexo capaz de exprimir a tensão entre racionalidade geométrica e emaranhado de existências humanas’, como ressalta Italo Calvino, no ensaio ‘Ex...

A Primeira Noite de um Homem, de Mike Nichols

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Retrato da mudança de valores integra fase de renovação dos temas nas mãos de jovens diretores O recém-formado Benjamin Braddock chega ao aeroporto, voltando para a casa dos pais após concluir a faculdade, ao som de The Sounds of Silence , da dupla Simon & Garfunkel. A abertura de A Primeira Noite de um Homem marca duas graduações importantes que fazem referência ao título original. A primeira é a do próprio personagem Benjamin, interpretado pelo jovem Dustin Hoffman. E não apenas em termos escolares, mas também morais. Agora adulto, ele consegue enxergar a futilidade dos pais materialistas e vazios, vê que a sua própria geração está perdida com as transformações sociais e começa uma relação com uma mulher muito mais velha, esposa do sócio de seu pai, e mãe da garota por quem ele se apaixonará mais à frente. Além de Benjamin, o jovem cinema americano estava se graduando. A partir de obras como Bonnie e Clyde (1967), Sem Destino (1969), Perdidos na Noite (1969) e M...

Os sertões, notas e impressões de uma leitura

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Por Pedro Fernandes A guerra de Canudos foi um refluxo em nossa história. Tivemos, inopinadamente, ressurreta e em armas em nossa frente, uma sociedade velha, uma sociedade morta, galvanizada por um doido. – Euclides da Cunha,  Os sertões Há alguns grandes livros da Literatura que são-nos custosos ler; parece que necessitam, por parte do leitor, de uma vontade que venha de fora para dentro para seu feitio.  Os sertões , de Euclides da Cunha, foi-me um desses grandes livros que teve de vir o incentivo de leitura da parte de fora para a vontade de lê-lo, já em tempos em mim, realmente fosse desperta. O que irei apontar nesse texto são notas resultadas da primeira leitura que fiz da obra. Logo, talvez, muitas das constatações sejam constatações corriqueiras, capazes de serem encontradas na próxima esquina que o leitor comum for, mas são constatações válidas, no sentido de que trazem o sentimento meu de leitor diante desse texto. 1 A primeira par...