Postagens

Uma sensação estranha, de Orhan Pamuk

Imagem
Por Pedro Fernandes Uma ode ao destino, força indelével que nem sempre é coincidente com as determinações que criamos para nós mesmos. Assim é possível definir  Uma sensação estranha , de Orhan Pamuk. Trata-se de um longo romance totalmente integrado à forma do  Bildungsroman  porque acompanha toda a trajetória, isto é a formação, da personagem Mevlut. O pai é um dos milhões de imigrantes que deixaram suas aldeias natal para ganhar a vida na cidade; essa história introduz o protagonista em cena, quando levado ainda criança para ajudar nos trabalhos do pai na venda de porta em porta de iogurte em Istambul. O périplo estrutura a própria narrativa e esta finda por construir um panorama bastante heterogêneo sobre a história universal do  boom  urbano que atravessa a história de milhares de lugares ao redor do mundo. Tanto é verdade que, todas as intensas transformações que tornam a capital turca de um lugar acolhedor e promissor a uma estranha selva de co...

Três anúncios para o crime, de Martin McDonagh

Imagem
Por Pedro Fernandes Se há um mal que molesta o bem-estar de qualquer um este se chama incompetência. O que se chama de crise desde há muito e agora se tem como uma qualidade inextinguível é constituída em sua grande parte pela incapacidade de se resolver o que é necessário ser resolvido. Há pelo menos duas razões que contribuíram para que essa prima-irmã da corrupção ganhasse o status quo de sustentabilidade institucional que agora vigora no âmbito mais variado das democracias ocidentais: uma certa comodidade vendida pela possibilidade de se comprar a qualquer custo o conforto que sempre almejamos; e uma interpretação falaciosa, que é tão antiga quanto a ideia de crise, de que as coisas são porque são. Ela é herdeira do discurso que reiterada vezes foi justificado pelos poderes dominantes: quando a Igreja era o braço do estado – “é assim porque Deus quer”; quando o estado se consolida independente – “é assim desde que o mundo é mundo”. Some a essas duas uma terceira, a do...

O lobo do mar, ou como Jack London lê Nietzsche

Imagem
Por Albert Lladó cena da adaptação de Michael Curtiz para O lobo do mar "Não sei bem por onde começar", nos diz o narrador de  O lobo do mar , o romance que o estadunidense Jack London escreveu em 1904. Essa incerteza que nos ocupa ao começar a contar a história é especialmente significativa porque o protagonista, Humphrey van Weyden, é um intelectual com grandes dotes para a literatura. Algo se contradiz. Talvez a confiança na palavra não é tão forte como havia sido até então. Ou, agora, talvez conheça todos seus limites. E a necessidade de que a palavra e ação ajam de mãos dadas. Humphrey não confessa que, quando tudo começa, se encontra na casa de um amigo, Charley Furuseth, onde passava os fins de semana. E aqui, no primeiro parágrafo do romance, como se fosse um acaso, cita algumas das leituras de seu colega. “Ele tinha uma casa de veraneio em Mill Valley, à sombra do monte Tamalpais, mas a ocupava somente no inverno, quando ia para lá descansar e alivi...

Pastagens do Céu, de John Steinbeck

Imagem
Por Pedro Belo Clara Apesar de se inserir no grupo das primeiras obras do escritor norte-americano, em Pastagens do Céu (1932) já é possível identificar alguns dos traços e temas que, um pouco mais tarde, consolidariam os contornos da identidade literária do autor. Afinal, o seu primeiro sucesso, O Milagre de São Francisco , estaria apenas a três anos de distância e a sua magnum opus , As Vinhas da Ira , não tardaria mais de sete a ser publicada. O presente trabalho convida-nos a visitar um fértil vale, o Corral de Tierra, em Monterrey, Califórnia, o estado natal de Steinbeck e o principal motivo das suas inspirações, especialmente durante a primavera da sua carreira. A obra aglutina doze curtas narrativas, onde se relata, de forma genuína e globalmente poética, a vida de diversas famílias que aí habitam. É certo que falar de Steinbeck é lembrar alguém fortemente ligado à terra e ao homem de condição mais simples, é evocar as fortes preocupações sociais que se...

Boletim Letras 360º #259

Imagem
Os leitores mais assíduos do Letras já sabem que nesta semana foi quando retornamos o curso normal das publicações aqui no blog. As anunciadas estreias dos novos colunistas acontecem agora no mês de fevereiro – muita atenção! E, na nossa página no Facebook divulgamos os ganhadores da primeira promoção de 2018 que sorteou cinco leitores; o primeiro do grupo pode escolher entre  A noite da espera , de Milton Hatoum;  Laços , de Domenico Starnone;  O marechal de costas , de José Luiz Passos; a edição especial de  A hora da estrela , de Clarice Lispector; e  Uma forma de saudade , diários de Carlos Drummond de Andrade. Falando em livros, agora abrimos um sebinho. Dos livros da biblioteca, aqueles comprados e repetidos ou aqueles lidos e que não ganham o afeto de continuar com seu dono são agora vendidos online aqui . O poeta português Eugénio de Andrade é o homenageado na recente edição da Revista 7faces. Segunda-feira, 29/01 >>...

Ursula K. Le Guin: vale a pena tentar

Imagem
Por María Jesus Espinosa Ursula K. Le Guin (Berkeley, 1929 – Portland, 2018) demonstrou com sua frutífera trajetória literária que o universo da ficção científica não estava obrigatoriamente destinado a escritores homens. A autora estadunidense foi a primeira mulher a ser galardoada com o título de “Grande Mestre” pela Associação de Escritores de Ficção Científica e Fantasia dos Estados Unidos (SFWA). Foi em 2003. Mais de sete décadas foram necessárias para que seu extraordinário trabalho como inventora de mundos insólitos tivesse reconhecimento. Obras como A mão esquerda da escuridão (1969), Os despossuídos (1974) ou Floresta é o nome do mundo (1972) a impulsionaram para uma fama que ela acolhia com timidez e rubor. Os temas que Le Guin abordou em seus romances vão desde os conflitos planetários, dragões, as lutas de espada, as naves espaciais ou os jogos de magia e feitiçaria. Em todos eles, sub-repticiamente, há uma perspectiva de gênero que com o tempo se tornou c...