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A arte do romance

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Por Antonio Muñoz Molina Terminei de ler The other house e fiquei um tempo com o livro nas mãos, sem fazer nada, deixando que o romance se fixasse em mim, como quando termina um filme no cinema e alguém ainda está tão tomado pelo que viu que não se move do seu assento e não tem vontade de se levantar nem de sair logo à rua. (Deveria existir momentos assim num concerto, ao final de uma obra, parêntesis respeitosos de silêncio, antes do frenesi algo exibicionista dos aplausos). Depois de terminar Ther other house e de ficar paralisado por um tempo voltei ao começo e me concentrei de novo na leitura, agora com a clareza da segunda vez, que me permite dar conta de todos indícios que Henry James vai insinuando desde a primeira página. Sempre se está distraído quando se começa um romance. É como entrar da rua num lugar em penumbra. Há pormenores fundamentais que não se ver logo de primeira: motivos que se enunciam rapidamente, mas que o ouvido não sabe distinguir. Por iss...

Górki, os engenhos da alma e o novo homem soviético

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Por Javier Bilbao É verdade que a empatia não era um dos pontos fortes de Stálin, não que fosse mal em julgar a psicologia dos que o rodeavam, fosse para detectar traidores ou para se servir deles com mais eficácia. Maksim Górki o calou certa vez: “És um homem vaidoso, devemos prendê-lo com correntes ao partido”. Assim, o escritor que passou um tempo autoexilado da União Soviética, fora do alcance repressor do regime, alguém que havia mostrado em ocasiões um critério independente e que pode converter-se totalmente num símbolo da dissidência ante os olhos do mundo, terminou sendo vigiado na volta à redoma, onde teria lugar uma relação simbiótica entre o intelectual e o poder extraordinariamente proveitosa para ambos. De maneira que sua cidade natal Níjni Novgorod passou a se chamar Górki, assim como uma das principais ruas moscovitas; recebeu a Ordem de Lênin, uma mansão e uma casa de campo junto a substanciosas somas de dinheiro; foi investido do cargo de presidente d...

Boletim Letras 360º #282

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Amigas e amigos do Letras, os que nos acompanham ativamente por aqui e nas nossas redes sociais já sabem que a obra do mestre J. R. R. Tolkien está em nova casa e passa a ter novas traduções no Brasil. Se ainda não sabem, o nosso colunista Guilherme Mazzafera preparou uma post em nosso Tumblr sobre as novidades. A partir dele, nós temos duas notícias que vocês deverão amar: somos agora parceiros da editora HarperCollins Brasil e todas (anote bem) todas as obras do Tolkien que forem publicadas, ganharão texto aqui no blog e (o melhor) terão exemplares para sorteio entre vocês a partir de nossa página no Facebook. Nada a perder! Agora, passemos às notícias apresentadas durante a semana lá no nosso oásis. Agradecemos a visita. Boas leituras! Um livro reúne todas as crônicas de Clarice Lispector. Domingo, 08/07 >>> Inglaterra: O paciente inglês , de Michael Ondaatje foi coroado o melhor trabalho de ficção das últimas cinco décadas do Prêmio Man Booker. ...

Ler para ver

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Por Justo Navarro De dentro do carro não entende o que vê: em Bab el Khemis, Marraquexe, um camelo corre sobre três patas com a quarta atada ao corpo. Elias Canetti olha os camelos. Pela cara, todos parecem o mesmo e todos são diferentes. Parecem velhas damas inglesas entediadas em torno do chã e Canetti descobre alguém que lembra um parente próximo. As cidades que não são estranhas se tornam em situações de encontros imprevistos. Estou em 1954, em Vozes de Marraquexe , que Canetti publicou em 1968: ler é um modo sedentário de visitar outros lugares e outros tempos, inclusive do futuro.  Quando o viajante não sabe o idioma do lugar, necessita, desemparado, de um mediador, um guia. Olha sem entender os mendigos cegos que murmuram à sua comum litania de pedinte. Não deixa dinheiro ao catador de esmolas, e logo se dá conta de que é o mais observado dos presentes na cena, “criatura assombrosa a quem havia que explicar tudo”. Mas lhe atraem sem necessidade de intermediá...

Um artista do mundo flutuante, de Kazuo Ishiguro

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Por Pedro Fernandes  Há uma passagem de  Um artista do mundo flutuante  importante de ser recuperada aqui porque, em parte, justifica a existência do próprio romance. Não é o caso, ressalte-se, que estejamos numa obra de cariz metaficcional – ao menos não diretamente. Preocupado com a reputação da família para o bom casamento da filha caçula, Noriko, Masuji Ono revisita algumas das figuras de Kawabe, aquelas mais próximas no seu passado. Numa das ocasiões, encontra-se diante de uma pintura que julga ser do amigo Kuroda; o jovem rapaz que o recebe responde, meio acanhado, que se trata de um trabalho de sua autoria. Admirado, o protagonista afirma que, antes de desenvolver um estilo que o defina, todo artista começa por imitar bem aos seus mestres.  Esta passagem serve para dizer o mesmo de Kazuo Ishiguro.  Um artista do mundo flutuan te...

Custódia, de Xavier Legrand

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Por Pedro Fernandes O que não se deixa ver aos olhos da justiça. Ou a impossibilidade da lei em penetrar nos meandros mais escuros da violência doméstica. As duas maneiras são possíveis de definir este que é o primeiro longa-metragem Xavier Legrand. No Festival de Veneza, o trabalho do diretor francês ganhou destaque como Melhor Primeiro Filme e Melhor Direção. Situada entre o suspense e o drama, a narrativa de Custódia é a das que lidam com o estriamento dos nervos do espectador. Isso porque o drama da separação é aqui transposto do lugar-comum das personagens principais envolvidas nesse imbróglio para aquela que nos estados que se orgulham do imperativo da ordem pela confiança nos sistemas jurídicos seria a parte menos afetada sobretudo quando tornada no foco do exercício de proteção. Assim, todo impasse levado à permanência pela jurisprudência que interpreta o caso entre Miriam e Antoine Bessom como uma forja dos dois e entende que a guarda de Julien é dever dos doi...