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O dinheiro e Cem anos de solidão

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Por Rubén Díaz Caviedes   Gabriel García Márquez queria que fosse feito um filme sobre O outono do patriarca , mas não queria que qualquer um o dirigisse. Tinha que ser feito por Akira Kurosawa. Sua determinação foi tanta que ele chegou a fazer a proposta pessoalmente durante uma longa conversa que os dois tiveram em Tóquio, em outubro de 1990, cujos trechos foram posteriormente publicados no Los Angeles Times . “Se você puder, quiser e tiver a ideia”, ele disse ao cineasta japonês, “pode fazer com esse livro o que quiser. Acho que o único que pode fazer cinema com esse livro é alguém como você, então faça o que quiser. Acho que é impossível adaptá-lo para o cinema. Repensá-lo como cinema em uma cultura completamente diferente, acredito sim que é possível, se for uma pessoa como você.”   O diretor de Às portas do inferno e Os sete samurais afirmou que ainda estava finalizando seu último filme, Rapsódia em agosto , e escapou da armadilha prometendo pensar um pouco sobre o as...

A cidade das mulheres, de Christine de Pizan

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Por Eduardo Galeno     Esses testaram o Horizonte — E desapareceram Pássaros antes de cumprir A Latitude.   Nossa Retrospectiva Deles Prazer pousado, Nossa Antecipação — Dúvida — Dado —   (Emily Dickinson) Christine de Pizan recebe a dama da Justiça. Iluminura do manuscrito A cidade das mulheres , de Genebra.   Frequentemente, as histórias sobre as mulheres são submetidas à intenção de corroborar genealogias do pensamento feminino. A cidade das mulheres ( La cité des dames ) confirma a tese. Desde o século XV, a autora vem sendo um marco para se notar a contribuição fora do cânone, ou seja, um plano que trace o pioneirismo de figuras não tão reconhecidas pela historiografia das letras. Christine de Pizan, assim como eu faço a partir do texto — tecendo sobre ela —, é uma historiadora da mulher. Bem, mas como? A partir do princípio de arqueologia de seus feitos, sejam fictícios ou reais. Aliás, sejamos claros: a maior característica da produção da veneziana ass...

M. F. K. Fisher: escrever por fome

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Por Bárbara Mingo Costales M. F. K. Fisher. Foto: Paul Harris “Foi então que descobri os gomos de tangerina secos. O prazer que me dão é sutil, voluptuoso e totalmente inexplicável. Só preciso explicar como os preparo.” Em seu livro Serve it Forth , de 1937, a escritora estadunidense M. F. K. Fisher parte do seu “secreto gosto” culinário pelos gomos de tangerina aquecidos em um aquecedor e depois deixados no frio fora de casa — Estrasburgo em sua memória. Eles devem ser consumidos logo em seguida. O capítulo, cheio de vivacidade, ocupa apenas três páginas; por um lado, há o enorme mérito de extrair setecentas palavras de algo tão modesto e, por outro, é surpreendente a capacidade de concentrar tamanha quantidade de informação e evocação em um espaço tão pequeno. Se nos desculparmos pela tediosa alusão à madeleine, uma associação com Proust não seria tão superficial quanto poderia parecer. Além do poder de um sabor mais ou menos cotidiano como gatilho para emoções evocativas, há a deter...

Sete poemas de “Poemas Sin Nombre” (1953), de Dulce María Loynaz

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Por Pedro Belo Clara         I.   Solidão, solidão sempre sonhada… Amo-te tanto que às vezes temo que Deus me castigue um dia enchendo-me a vida de ti… Ontem quis subir a montanha, e o corpo disse não. Hoje quis ver o mar, descer à luminosa enseada, e o corpo disse não. Estou desconcertada ante esta obscura resistência, esta inércia que me contrapesa a vontade não sei a partir de que lugar e me sujeita, me solda a invisíveis grilhões aos pés. Até agora palmilhei todos os meus caminhos sem nunca me dar conta de que eram justamente esses os pés que me levavam, e enchi-me de todas as paisagens sem nunca me aperceber se me entravam pelos olhos ou se as levava já comigo antes de se desenharem no horizonte, e nutri luzeiros, sonhos, almas, sem reparar que as minhas próprias veias se esvaziavam do seu próprio sangue. Agora pergunto-me que estrela virá a espremer-se gota a gota no coração exausto, que fonte haverá para lhe dar de beber como ao animal cansado… Pergunt...

Boletim Letras 360º #627

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DO EDITOR   Olá, leitores! Nesta semana concluímos duas atualizações importantes para o nosso projeto:   a) o nosso correio eletrônico mudou, agora, atendemos através do letrasinverso@gmail.com — salve nos seus contatos;   b) modificamos o nosso sistema de apoios, que passou a ser contínuo com sorteio de livros a cada grupo de seis apoiadores. Saiba todos os detalhes disso por aqui . Um excelente final de semana!   Imre Kertész. Foto: Olivier Mark LANÇAMENTOS   O regresso do mercado editorial brasileiro à obra do húngaro Imre Kertész .   Lançado originalmente em 1975, Ausência de destino é um dos grandes livros da literatura de testemunho do Holocausto. Escrito pelo húngaro Imre Kertész, Prêmio Nobel de Literatura, o romance é baseado na experiência do autor, que foi ele mesmo sobrevivente de campos de extermínio nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. A obra estava fora de catálogo no Brasil e recebeu nova edição com tradução e posfácio de Paulo ...

Fiódor Dostoiévski diante do pelotão de fuzilamento

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Por Javier Memba A cerimônia de execução de Dostoiévski e outros condenados. Desenho de Boris Pokrovsky, 1849   No despontar do amanhecer de 22 de dezembro de 1849, Fiódor Dostoiévski, com oito camaradas do Círculo Petrachévski, foi colocado em uma carroça com destino à Praça Semiónovskova, em São Petersburgo. Aí os aguarda o pelotão de fuzilamento. O mais confiante dos nove réus está de bom humor, solta piada. Numa demonstração de coragem, ele observa que não é aconselhável chegar atrasado ao compromisso. Nem seus companheiros nem os soldados — aquele que conduz a carroça, os que guardam os condenados — acham graça. Fazer parte de um pelotão de fuzilamento é uma experiência tão triste que se recorrem aos batalhões penais ​​ para se conseguir fuziladores.   Na São Petersburgo de Nicolau I, é costume cobrir a cabeça dos prisioneiros para impedir de ver o último gesto dos carrascos para o condenado. Até os soldados mais veteranos, curtidos a sangue e fogo em mil batalhas, dizem...