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Nelson Rodrigues, grande autor em língua portuguesa: análise de uma crônica de futebol

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Por Amanda Fievet Marques Nelson Rodrigues. Arquivo Nacional.   Publicada na Manchete Esportiva , em 4 de fevereiro de 1956, a crônica “Rigoletto de lança-perfume” sintetiza em seis parágrafos os motivos pelos quais se pode afirmar que Nelson Rodrigues é um grande autor em língua portuguesa, ou em “brasileirês”, ou ainda, em “carioquês”. A inserção de gírias, termos e expressões populares aliados a estruturas literárias como a da máxima moral, e a procedimentos literários como a metáfora, a antítese, a sinestesia, a paranomásia, concorre à afirmação de que a idiossincrasia, a especificidade do estilo literário de Nelson Rodrigues reside justamente no hibridismo entre registros da língua portuguesa, com destaque para as variações do português falado no Rio de Janeiro, e para a mobilização de elementos visuais e táteis, o que torna sua linguagem extremamente sensorial.   No primeiro parágrafo dessa crônica, Nelson relata uma cena que ele teria assistido no dia anterior, no cora...

Bacurau volver: o entendimento e a resistência de longa duração

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Por Luis Fernando Novoa Garzon   No lançamento de Bacurau (2019), o que ficou manifesto naqueles anos de bolsonarismo alçado ao núcleo do Estado brasileiro, foi a sensação de desentalar um grito abafado, uma pequena vitória nas telas antevendo vitórias maiores adiante. Este filme fora uma desforra estética, uma narrativa vingadora, (“livro vingador”, como Euclides da Cunha definia o sentido singular de Os sertões ). Confirmados e até mesmo superados muitos dos cenários distópicos apresentados no filme, o que perdura e merece revisitação é a bravura do entendimento da necessidade de resistir. Frente ao pacto faustiano de nossas elites entregando água, territórios e povos ao usufruto irrestrito de quem puder pegar e pagar mais, lá está o bacurau, o pássaro soturno, lá está Bacurau encarnada como vila de prontidão para defender a vida que ainda pulsa.   No longa-metragem dirigido por Kleber Mendonça e Juliano Dornelles há, portanto, uma solução tecida na retina, feita de um tra...

A moreninha: jovem, traquina e sonhadora

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Por Renildo Rene Ismael Nery. Baía de Guanabara , s.d.   Quando Joaquim Manuel de Macedo se mudou de Itaboraí para o Rio de Janeiro com o desejo de se tornar um escritor brasileiro, ele hesitava em pensamento se poderia conquistar algum público com suas histórias. “Fui eu que (talvez ainda com vaidade de pai) cheguei a crer que o público a não enjeitava”, disse ele sobre a publicação de A moreninha no prólogo de O moço loiro (1845), “e, sobretudo, que minha querida filha tinha achado corações angélicos, que, dela se apiedando, com o talismã sagrado de sua simpatia a levantaram mesmo muito acima do que ela merecer podia”.   Em 1844, o lançamento do romance alçou o prestígio social de Macedo na capital do Império e estabeleceu o espaço da obra como um marco inaugural no país. Dois anos antes, Teixeira e Souza havia publicado O filho do pescador , porém foi com o alcance popular, sobretudo mulheres, que A moreninha reinou na representação de “primeiro romance romântico brasile...

Três séculos de Giacomo Casanova, a pena mais indócil

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Por Diego Malpede J.H.W. Tischbein. Retrato de G. Casanova (detalhe) No dia 2 de abril de 2025, completaram-se 300 anos que Giacomo Girolamo Casanova nasceu no coração de Veneza. Ele provavelmente nasceu na Via Malipiero, ao lado da Igreja de São Samuel e antigamente chamada de “della Commedia”, em uma família de artistas de teatro. A mãe era atriz e o pai era ator e dançarino, mas o próprio Casanova e vários estudiosos indicam que seu verdadeiro pai era o nobre veneziano Michele Grimani. Foi criado pela avó e desde a adolescência estudou direito na Universidade de Pádua e depois religião, com o objetivo de se tornar abade.   Que seu nome ainda seja usado hoje para descrever alguém interessado apenas em conquistar mulheres constitui, se a linguagem pode ser enganosa, um grande erro, ou pelo menos um mal-entendido; de qualquer forma, a palavra em questão é, sem dúvida, o legado mais trivial do nosso homem. Casanova não foi apenas um indivíduo complexo, único e multifacetado, com múl...

Boletim Letras 360º #639

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DO EDITOR   Olá, leitores! Dura até o dia 19 de maio a edição 2025 da Book Friday Amazon. Esta é uma das excelentes oportunidades do ano para se abastecer com os livros das próximas leituras. Se você for adquirir alguma coisa, reforçamos o convite para o usar o nosso link de compras . Você atualiza sua lista, aproveitas bons descontos e ainda ajuda o nosso projeto.   E por falar em ajudas, acreditamos que sairá em breve o sorteio do nosso clube de apoios. Ainda faltam dois apoios para cumprirmos essa promessa. Saiba aqui como você pode participar (não é clube de fidelidade).   Agradeço, em nome do Letras , pelo nosso convívio e sigamos no caminho dos livros e da boa literatura. Excelente final de semana para vocês. Antonio Cicero. Foto: Fábio Motta   LANÇAMENTOS   Julho de 2025 é marcado pela publicação da poesia reunida Antonio Cicero, considerado uma das vozes mais envolventes da literatura brasileira contemporânea .   Antonio Cicero é um conciliador de...

“Entre o meu ser e o ser alheio”: metamorfoses contra o fascismo cultural

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Por Afonso Junior Ilustração: Daniel Arce Lopez (Reprodução)   Roberto Bolaño no seu livro Literatura nazista na América imagina uma galeria de mediocridades literárias reacionárias, algumas delas buscando referências em Philip K. Dick e Borges... Seria apenas uma piada artística genial, se a América não estivesse provando que o fascismo cultural não morreu e gerou novos produtos na era da internet. Porque é impossível não perceber que o neofascismo voltou a mobilizar as massas depois das “redes sociais”.   “Os alemães piraram de tanto ler, não foi?”, alguém me diz no contexto da caça às bruxas. Se imagina que em torno de 60 mil pessoas foram assassinadas por bruxaria, 25 mil delas no território da atual Alemanha. Lutero morrerá em 1546; em 1532, já temos o Constitutio Criminalis Carolina , código penal que legitima as perseguições. Depois da rebelião do Sola Scriptura, o país prendeu e raspou a cabeça de mulheres e as torturou por voarem, com a fé de que, se eram cris...