Postagens

Intermezzo, de Sally Rooney

Imagem
Por Gabriella Kelmer Sally Rooney. Foto: Jonny Davies   Desde o lançamento de Conversas entre amigo s, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2017 (a versão irlandesa é do mesmo ano), Sally Rooney foi alçada a uma esfera de notoriedade global a que poucos autores terão acesso ao longo de suas carreiras. Todas as suas obras, desde então, entraram em incontáveis listas de best-sellers; alguns de seus romances ganharam adaptações reconhecidas para outras mídias.   É possível que seja esse o caminho trilhado por Intermezzo , de 2024, romance que renova algumas das preferências temáticas da autora, como é o caso do adoecimento mental, da vida amorosa atravessada por arranjos atípicos ou disfuncionais, da solidão do sujeito contemporâneo. Sendo esse o caso, muito como nas obras anteriores, a abertura do mercado ― tanto o literário como o cinematográfico ― se justifica em parte pelo apelo das temáticas amorosa e sexual e, desconfio, também pelo fato de ser a escri...

O esquema fenício: sofisticadas linhas e teatralidade em repetição

Imagem
Por Alonso Díaz de la Vega   Não é minha intenção menosprezar o restante de O esquema fenício (2025), mas o momento que mais me interessou foi a sequência final dos créditos. Além de nos mostrar quem interpretou quem ou de creditar a equipe de catering , como seria de se esperar, o filme reconhece suas influências pictóricas e musicais: um Renoir surge na tela do nada, abrindo caminho para uma série de peças de artistas menos conhecidos, como Riemenschneider e Raffel. Há também capas de álbuns de Stravinsky, que poderia ser creditado como o compositor do filme. Desde o início, de seu balé Petrushka é usada pelo diretor Wes Anderson música para descrever o protagonista, Zsa-zsa Korda (Benicio del Toro), como grandioso — megalomaníaco, na verdade —, aventureiro e risível. Parece que O esquema fenício surgiu de Petrushka e Renoir, e de tudo o que faz de Anderson mais do que apenas um cineasta: um espectador. Sobre os ombros de gigantes, o diretor estadunidense passou os últimos ano...

Fumiko Enchi e um cadáver lançado ao mar

Imagem
Por Benjamín Barajas Fumiko Enchi. Foto: Asahi Shimbun   Fumiko Enchi (1905-1986) foi uma das escritoras mais aclamadas da literatura japonesa no século XX por seu estilo “sutil, delicado e preciso”, que lembra os ritmos suaves do lendário haicai, bem como a elegância de um voo capturado na fina cerâmica ornamental típica das cerimônias do chá servidas por uma gueixa contemplativa e melancólica.   Ela é autora de, entre outros romances, Os anos da espera (1957) Máscaras (1958) e Um conto da falsa fortuna (1965). No primeiro, trata da vida de uma família tradicional japonesa durante o período Meiji (1868-1912), auge do poder patriarcal, semelhante ao que ocorre atualmente nas culturas da Península Arábica.   Nesse contexto, transcorre a vida de Tomo Shirakawa, uma esposa exemplar, abnegada e submissa, a serviço do arrogante e mulherengo Yukitomo Shirakawa, oficial da guarda política imperial, treinado em artes marciais e um carrasco moderado dos membros do Partido Libe...

Salvatore Quasimodo: nômade da morte

Imagem
Por Maria Teresa Meneses Salvatore Quasimodo. Foto: Mario De Biasi.   O filho do ferroviário   Gaetano Quasimodo, chefe da estação Ferrovie dello Stato em Ragusa, cidade ao sul da Sicília, recebeu ordens de viajar a Messina para restaurar a rede ferroviária, que havia sido desativada após o devastador terremoto de 28 de dezembro de 1908. Por 37 segundos, o terreno do Estreito de Messina (que abrange as províncias de Messina e Reggio Calabria) tremeu com tanta força que ceifou a vida de aproximadamente cem mil pessoas que foram pegas pela catástrofe enquanto dormiam. Depois o violento despertar às 5h20 da manhã, muitos dos que haviam corrido aterrorizados, buscando o céu aberto da praia para escapar de serem esmagados pelos prédios da cidade, sucumbiriam minutos depois, afogados por grandes ondas que se elevavam a quase dez metros de altura em ambos os lados do Estreito. Toda a dor do mundo estava concentrada em Messina.   Nos versos de “Milão, agosto de 1943”, outras ruí...

Boletim Letras 360º #641

Imagem
Cruz e Sousa. Desenho de J. M. Garnier. Arquivo da Biblioteca Nacional. LANÇAMENTOS Obra reúne toda a poesia de um dos principais nomes do simbolismo no Brasil .   A poesia reunida de Cruz e Sousa coloca sob a luz contemporânea o principal expoente do Simbolismo brasileiro, vértice da literatura hoje considerada “negra”, isto é, feita por poetas negros e que trata de sua condição na sociedade, com introdução e organização do poeta e dramaturgo Marcelo Ariel. A edição publicada pela Assírio & Alvim Brasil traz na íntegra seus livros, a partir de Missal  e Broquéis , publicados em 1893, seus poemas iniciais, inclusive Julieta dos Santos  ― pouco conhecido, escrito em homenagem à atriz mirim em cuja companhia dramática ele trabalhou ― e as obras deixadas por ele inéditas: Poemas Cambiantes  e Campesinas . Você pode comprar o livro aqui . Jon Fosse em dois formatos: na edição comum e numa edição exclusiva e limitada reunindo materiais extras .   Em Man...

O carnaval de D’Annunzio

Imagem
Por Christopher Domínguez Michael Com L’Imaginifico. Vita di Gabriele D’Annunzio (2018), Maurizio Serra — que escreve em francês e italiano indistintamente — completa um dueto soberbo, precedido por Malaparte. Vite e leggende (2012), 1 em que esta dupla incomparável de iconoclastas e réprobos italianos do século XX alicança um ápice biográfico dificilmente superável. Isso se deve ao envolvimento quase íntimo de Serra, precisamente com aqueles que ele chamou de “estetas armados”, como Stefan George e Filippo Marinetti, com irmãos inimigos como Pierre Drieu la Rochelle e André Malraux, e com outros estetas menos belicosos, como os irmãos Heinrich e Thomas Mann, ou Italo Svevo. Diplomata — ex-embaixador italiano na UNESCO — Serra também é autor de Il Caso Mussolini e, recentemente, de Munique 1938: la paix impossible (2024).   Tanto se disse e escreveu sobre Gabriele D'Annunzio (1863-1938) que, diante de uma biografia como a de Serra, resta ressaltar que um mundo como o dele, apa...