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Pertinente, atual e anêmico: De onde eles vêm, de Jeferson Tenório

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Por Vinícius de Silva e Souza   Já consagrado e praticamente uma celebridade, Jeferson Tenório se viu na difícil missão de entregar o “segundo livro” — aspas pelo medo comum de quem faz estreia arrebatadora mas também pelo fato de O avesso da pele não ser o seu primeiro livro —carregando uma expectativa imensa nas costas, uma vez que é portador de um Jabuti e de vendas consideráveis de seus outros romances. E o que se lê é um resultado pertinente, atual e ao mesmo tempo anêmico.   Esse é um incômodo pessoal, mas também não é: as narrações em primeira pessoa em formato de relato são limitadoras. Tenório faz um exercício narrativo muito bom em O avesso da pele , com o uso da segunda pessoa, mas entrega um descompasso grande em Estela sem Deus , com uma narrativa que começa em lugar nenhum para se encerrar em nenhum lugar. E o mesmo ocorre com De onde eles vêm — mas nem tanto: Joaquim é introduzido na narrativa quando ingressa na universidade pelo sistema de cotas e já se defro...

Luis Cernuda, o solitário

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  Por José Antonio Montano Luis Cernuda. Foto: Tomás Montero Torres   Em um de seus últimos poemas, “Epílogo”, escrito dois anos antes de sua morte, Luis Cernuda (1902-1963) fala de sua “existência sombria e solitária”. A obscuridade era relativa, pois, embora não a percebesse, era iluminado por seu exemplo, que ainda nos alcança. O isolamento, sim, era absoluto: porque se separava e porque estava separado. Mas isso, que foi ruim (ou difícil) para sua vida, foi bom para sua obra: preservou-a. Aconteceu com ele como a magnólia que descreve em Ocnos : “era precisamente essa vida isolada da árvore, esse florescer sem testemunhas, que conferiu à beleza uma qualidade tão elevada”. 1 Cernuda foi uma das minhas primeiras fidelidades, e continua sendo. Escrever sobre ele continua sendo um exercício de admiração.   Acima de tudo, admiro sua integridade, tanto pessoal quanto artística. Como se manteve firme, incorruptível, diante das dificuldades. Em outro poema no fim da sua obra...

Boletim Letras 360º #644

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DO EDITOR   Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras . Thomas Mann.  Foto: Thea Goldmann LANÇAMENTOS   Chega o primeiro volume da tetralogia José e seus irmãos , obra-prima de Thomas Mann que, inspirada num breve episódio bíblico do Livro dos livros , ocupa posição singular na literatura do século XX .   Através das centenas de páginas da tetralogia José e seus irmãos , vemos o espraiar de uma jubilosa festa da narrativa, conforme enfatiza o “prelúdio” às “Histórias de Jacó”, abertura dos quatro livros — a serem publicados em três volumes pela Companhia das Letras — que acompanhariam Thomas Mann durante os longos anos de exílio. Expandindo o relato do livro de Gênesis, Mann criou uma das maravilhas da literatura moderna, um romance de formação ambientado na Palestina bíblica e no Egito faraônico. Refletindo em suas profundezas simbólicas a ascensão do fascismo, assim como as forças d...

Sylvio Floreal de trás para a frente — uma nota imprevista da alma

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Por Lucas Paolillo   Nesse saco de gatos que é a filosofia, Nietzsche foi o gato que mais miou, arranhou, revolucionou e depois saiu airosamente com uma porção de unhas desses felinos cravadas no crânio, o que lhe proporcionou a maior apoteose que um espírito como o seu poderia ambicionar — a loucura!     — Sylvio Floreal.   Sylvio Floreal. Foto: A Cigarra , 1927.   Sylvio Floreal é um personagem de difícil enquadramento. Acertar na medida para apreciar os seus escritos é tão desafiador quanto compreender a sua figura. Conforme veremos, ambas não são muito dissociáveis. No entanto, se essa dificuldade se faz visível, é apenas porque a invenção que ele fez de si mesmo cumpriu, de um modo ou de outro, seus propósitos. Observação, é bom que se diga, devida à jornada de Floreal ser movida por muita invencionice e imaginação caudalosa. De início, suas intervenções na vida literária se fizeram sobretudo pela via da performance verbal, teatral, disseminadora de ornamen...

Pensar a morte, escrever o abismo: leituras de Emil Cioran

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Por Amanda Fievet Marques Emil Cioran. Foto: Arnaud Baumann    O filósofo romeno de expressão francesa, Emil Cioran, construiu uma obra marcada por um pensamento sem sistema, um pensamento deliberadamente fragmentário centrado nos limites da existência, na irremediabilidade da morte e na falência das construções metafísicas. Sua escrita, aforismática e corrosiva, recusa a retórica e rejeita qualquer lenitivo. Este ensaio propõe-se examinar algumas de suas reflexões sobre a morte, as vicissitudes da vida e a escrita, a partir de quatro obras: Lágrimas e santos (1937), Breviário de decomposição (1949), Silogismos da amargura (1952) e Esboços de vertigem (1979). A leitura parte da hipótese de que, em Cioran, a morte não é apenas um tema, mas uma força formal: ela estrutura a linguagem, impõe ritmo ao pensamento, corrompe a esperança e funda um estilo. Pensar a morte, para ele, é escrever contra a ilusão, e escrever, portanto, no abismo. Trata-se de um gesto que recusa a trans...

The End: que o fim do mundo nos pegue dançando

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Por Cristina Aparicio   Fim. O fim. Aqui termina a história. Com um “The End”, essas palavras icônicas agora obsoletas, os filmes costumavam terminar. E foi assim que Joshua Oppenheimer intitulou seu mais recente longa-metragem, com uma referência a uma era já clássica do cinema, mas optando por começar onde ela termina. A primeira incursão do cineasta na ficção (após dois documentários poderosos e inovadores que exploraram as convenções do gênero e borraram os limites entre realidade e performance) está intimamente ligada às origens da sétima arte.   Nos compassos iniciais do filme, o letreiro de Hollywood ocupa uma posição privilegiada dentro do plano, situado acima da maquete que Hijo (George MacKay) está construindo. É o momento antes do jovem começar a cantar em um número que intercala diálogos e canções, uma cena em que todos os personagens aparecem em uma espécie de abertura, típica de qualquer obra musical. Embora “típica” talvez não seja um termo apropriado para se r...