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Entre a cruz e a foice: estudo do ensaio “Sonhos e fantasias”, de Dostoiévski

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Por Rafael Bonavina   Como se sabe, Fiódor Dostoiévski manteve uma coluna chamada Diário do escritor de 1876 até a sua morte em 1881, e alguns textos ainda foram publicados postumamente. Nessa seção, o escritor publicava diversos tipos de textos, como ensaios, críticas literárias, comentários políticos e filosóficos, respondia às cartas dos leitores (reais ou fictícios) e polemizava com os escritores de outros jornais, tanto conservadores quanto liberais. Também é no Diário do escritor que alguns dos seus contos mais conhecidos são publicados pela primeira vez, como o célebre “Sonho de um homem ridículo”.   Os textos não-ficcionais apresentam uma característica que nos será muito interessante, pois contrariam uma lógica fragmentária ao lidarem com as questões candentes do seu tempo. Ou seja, o autor de Crime e castigo não se detinha sobre um único assunto sem se desviar dele, tratando-o como um objeto isolado; pelo contrário, Dostoiévski tece reflexões sólidas que transitam...

Boletim Letras 360º #647

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    DO EDITOR   Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras . Joan Didion. Foto: Tyler Anderson   LANÇAMENTOS Livro póstumo de Joan Didion . Em novembro de 1999, Joan Didion começou a frequentar um psiquiatra e, por vários meses, descreveu suas sessões em um diário destinado a seu marido, John Gregory Dunne, que não podia estar presente. Didion gravou cada detalhe de suas conversas, que abordavam temas como alcoolismo, adoção, depressão, ansiedade, culpa, e as complexidades do relacionamento com a filha, Quintana. E, em meio a tudo isso, também relatava como esses assuntos estavam inevitavelmente interligados a duas grandes questões que permearam sua vida: o trabalho e o legado que deixaria para trás. Um relato visceral que revela facetas pouco conhecidas de uma das maiores autoras e jornalistas do século XXI, Para John  convida o leitor a mergulhar em uma jornada íntima ― construí...

Com Marco Aurélio, o que dele nos aproxima

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Por Afonso Junior   O fundador do estoicismo, Zenão de Cítio, teria nascido em torno de 333 a. C.; Marco Aurélio nasceu em 121 de nossa era. Quase quinhentos anos, portanto, e muitas diferenças. Dos livros escritos pelos primeiros estoicos nos resta quase nada — das centenas de escritos de Crisipo, restam os títulos e alguns fragmentos. Do estoicismo romano, entretanto, temos abundante material de Sêneca, as conversas de Epicteto recolhidas em dois livros, e os diários de Marco Aurélio. E, como veremos, algo mais...   Uma das diferenças é que esse estoicismo de Marco Aurélio, ainda que fundamentado em uma tese sobre a ordem cósmica e em uma moral baseada na physis , nos parece muito diverso do estoicismo grego — com seus complexos argumentos sobre o logos, as representações que nos aparecem em um mundo de fenômenos, nossos juízos, a conflagração final e os princípios sem forma (ativo e passivo) que são base dos elementos do mundo. Tudo isso aparece em Marco Aurélio, mas de for...

Temporada de furacões, de Fernanda Melchor

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Por Henrique Ruy S. Santos Fernanda Melchor. Foto: Hector Guerrero   Quando muito se fala da “urgência” de uma determinada obra literária, é comum perceber que se trata da sinalização a uma suposta imediaticidade dos assuntos abordados por um livro, partindo do entendimento de que determinados temas dialogam de maneira mais próxima com as experiências atuais de certos grupos. As “urgências” se multiplicam para toda a sorte de públicos-alvo enquanto o termo se esvazia e, aos poucos, revela sua faceta muito mais de ferramenta publicitária do que de qualificação crítica. A tão alardeada urgência é muitas vezes apenas o apego desesperado aos tópicos da moda, independentemente da relevância social desses tópicos. E repare que digo “relevância social”, e não “literária”, porque o cerne da questão é justamente este: a boa obra constrói a própria urgência e a própria relevância, a despeito de suas escolhas temáticas. A imediatez (a ausência de mediação, para trocar em miúdos), tão louvada ...

O riso de Vonnegut

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Por Bárbara Mingo Costales   No comovente documentário sobre sua vida Unstuck in Time , Kurt Vonnegut passa boa parte do tempo em crises de riso, mas, depois de um tempo, começa a parecer que bastaria simplesmente dizer qualquer coisa, que ele passa boa parte do tempo simplesmente em crises de riso, com uma espécie de tristeza que decidiu combater mascarando-a com um riso estridente. Não há dúvida sobre a existência dessa melancolia, pois o diretor do documentário, Robert W. Weide, ocasionalmente segura a cena por tempo suficiente para que possamos ver como aquele riso alegre termina com um timbre ligeiramente amargo. Eu diria até que o diretor chega ao ponto de desacelerar algumas cenas e dar zoom, usando truques da ficção televisiva para mostrar claramente a dor profunda do coração de Vonnegut.   Mas como ele poderia não perceber a tristeza de Vonnegut? O que sempre surpreende é seu vigor, a vitalidade em seus livros e seu amor e curiosidade pelos outros, que também transpa...

Ungaretti e a gênese de um livro

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Por Carlos Vitale Giuseppe Ungaretti. Foto: Emilio Ronchini   Em momentos de desânimo, quase sempre presentes, quando acreditamos que ninguém se interessa por nossas obras , nós, aspirantes a poetas, consolamo-nos com a ideia de que as tiragens escassas e mal distribuídas, que nos condenarão para sempre ao ostracismo, não são uma novidade destes tempos. Um bom exemplo disso é a edição de Il porto sepolto [O porto enterrado] (1916), reimpressa em 1923 com uma introdução de Benito Mussolini e a semente de A alegria (1931), de Giuseppe Ungaretti (1888-1970).   No outono de 1912, Ungaretti deixou o Egito em direção a Paris, onde estudou com Henri Bergson e entrou em contato com os maiores representantes dos movimentos artísticos de vanguarda (Guillaume Apollinaire, Pablo Picasso, Giorgio de Chirico, Amadeo Modigliani, entre outros). Por ocasião da Exposição Futurista na Galeria Bernheim Jeune, conheceu vários intelectuais italianos proeminentes, como Giovanni Papini, Mario Soff...