Postagens

Deixa disso, camarada, me dá um clássico

Imagem
Por Rafael Bonavina Figl-Migl. Foto: Guy Johansson I   A abertura deste poderia ser uma expressão como “os anos passam, os bons livros ficam”, porém cada vez mais vemos livros sendo proibidos, tirados de circulação, censurados e até destruídos. Então será que os bons livros de fato ficam ou apenas estão ficando ? Esse apagamento do passado parece marcado pela suspeição e pelo medo, como uma tumba que, aberta, pode revelar algum tipo de maldição ou vírus desconhecido. Em certo sentido, podemos dizer que é uma parte importante do trabalho dos intelectuais a preservação dessa fortuna cultural que se encontra em constante xeque.   No entanto, aceitar a ideia de uma literatura canônica sem quaisquer ressalvas seria ignorar as importantes discussões que vêm sendo feitas nas últimas décadas acerca das bases excludentes desse conceito. Diversas culturas são excluídas disso que se convencionou chamar de cânone, criado como uma espécie de legitimação do domínio cultural eurocêntric...

Boletim Letras 360º #652

Imagem
DO EDITOR   Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras . Can Xue. Foto: Simone Padovani LANÇAMENTOS   Uma das mais proeminentes escritoras chinesas contemporâneas, Can Xue — que é com frequência comparada a Franz Kafka, pois, assim como ele, construiu uma obra fundada em premissas próprias, capazes de levar sua literatura a lugares aonde nenhum outro escritor chegou — tem sua primeira obra publicada no Brasil .   Finalista do International Booker Prize, Histórias de amor no novo milênio é seu romance mais celebrado de Can Xue e conta a história onírica e bem-humorada de uma miríade de mulheres insaciáveis que estão em busca de prazer e do direito à felicidade numa cidade industrial precária. Entre elas está Niu Cuilan, uma mulher independente, viúva e almoxarife. Um de seus hobbies é ir a uma estância termal que oferece “serviços especiais”. Lá conheceu seu amante, Wei Bo, que é casado e e...

“Carga viva” e a vida que resiste

Imagem
Por Afonso Junior Ana Rüsche. Foto: Arquivo pessoal da escritora (Reprodução)   Cheguei bem cedo ao lançamento para comprar o livro sem fila. Ana Rüsche, a autora, a quem eu já havia entrevistado antes, nos recebe com um sorriso e diz: “Deixa eu assinar agora, porque depois...” Eu faço uma piada meio descabida: “E se um milhão de pessoas aparecem?” (em minha defesa lembro que se noticiou que a queda no número de leitores foi de mais de 11 milhões de pessoas desde 2015). Ela estava certa. Quando deixei a livraria, a fila saía pela porta...   Existe um motivo. (Meu eu crítico vai fingir que não me sinto próximo da autora por uma espécie de sintonia telepática, e que não a considero uma referência na investigação da vida, ou essa crônica seria apenas um grande néctar de bajulação de vizinhos de geração).   No debate do lançamento, ouvi dos palestrantes que seria um livro em que aparece o tema do HIV nos anos 1980, em que a autora homenageia o crítico e dramaturgo Alberto G...

Sul, de Veronica Stigger

Imagem
Por Henrique Ruy S. Santos Quando se trata de sangue, silencia-se. — Mircea Cărtărescu, Nostalgia Veronica Stigger. Arquivo da escritora (Reprodução)   Em Sul , Veronica Stigger parte da hibridez de gêneros para criar um painel representativo de diferentes formas de violência e de incômodas instalações do absurdo. O livro, publicado pela primeira vez em 2013, na Argentina, e no Brasil em 2016 pela Editora 34, divide-se em três partes, cada uma explorando um gênero literário diferente. A primeira, intitulada “2035”, vale-se da prosa narrativa à maneira de um conto; a segunda, “Mancha”, é uma peça teatral com duas personagens em cena e mais uma que permanece fora do palco; a terceira parte, uma narrativa em versos que recupera episódios de infância e adolescência da narradora e que leva o título de “O coração dos homens”. A unir as três partes, um onipresente tom de estranhamento e/ ou afastamento do real, figurado, entre outras imagens, pela irrupção do sangue humano nos mais difere...

Decisão de partir: o cinema coreano volta a superar Hollywood

Imagem
Por Alonso Díaz de la Vega   Uma caixa de sushi é, para mim, a imagem mais memorável de Decisão de partir (2022). Soa estranho, considerando que o filme é uma espécie de noir romântico aplaudido mais pelos seus sentimentos do que pelas sensações que evoca, mas o diretor coreano Park Chan-wook claramente pretende fazer dessa trivialidade um signo.   O protagonista, um detetive insone, casado e metódico chamado Jang Hae-jun (Park Hae-il), decide jantar com uma suspeita de homicídio chinesa, Song Seo-rae (Tang Wei), no meio de uma sala de interrogatório. Seu marido, um burocrata da imigração, foi encontrado morto alguns dias antes ao pé de uma montanha de onde pode ou não ter escorregado, e Seo-rae — atraente, jovem, suspeita — é seguida por Hae-jun até que ele decida chamá-la à delegacia. Lá, Seo-rae lhe mostra alguns ferimentos na perna, e ele pede a um colega para tirar fotos para respeitar o protocolo de gênero, mas demora para chegar; desesperado, ele se encarrega de capt...

Tonio Kröger de Thomas Mann: a educação sentimental

Imagem
Por Pablo Sol Mora Heinrich Campendonk, Mann und Maske, 1922. Kunstmuseum Bonn. Ah, Tonio Kröger ! Se eu tivesse que escolher uma única obra que definisse minha formação sentimental e artística, certamente seria esta. Acho que a primeira obra que li de Thomas Mann (e a que mais reli) foi A morte em Veneza , que eu poderia facilmente incluir aqui, mas a obra que marcou minha adolescência foi mesmo Tonio Kröger , que o crítico alemão Marcel Reich-Ranicki considerou “o conto do século XX”.   A edição em que li intitula-se, a rigor, Mario y el mago y otros relatos (Origen/OMGSA, México, 1983). 1 Pertence a uma coleção de livros de bolso, História Universal da Literatura, que não tem uma apresentação muito boa (capa dura cor de vinho com letras douradas na lombada e na capa), grandes tiragens (17.000 exemplares) e, até pouco tempo atrás, ainda lotava liquidações e sebos. Mas foi nesta coleção que li pela primeira vez, além de Thomas Mann, James Joyce ( Retrato do artista quando jovem...