A Odisseia ainda exige o périplo
Por Felipe Vieira de Almeida
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| Cy Twombly. Fifty Days at Iliam (detalhe) |
Quando li as primeiras notícias dando conta de que Hollywood filmaria uma nova adaptação da Odisseia, o principal fator de curiosidade para mim foi a escolha do diretor, por conta dele sabia que acabaria indo ao cinema. Meses depois, fui à primeira sessão do filme na única sala do Rio de Janeiro com a tecnologia apregoada por Christopher Nolan, afinal, na pior das hipóteses sairia falando a frase inescapável que todo leitor já se cansou de repetir quando rolam os créditos de uma adaptação literária para o cinema: “O livro é melhor”. Nesse caso, não foi diferente. E, se não escrevo sobre o filme, também não quero perder a oportunidade de escrever sobre o livro.
Entre os lugares-comuns que acompanham os clássicos há o verdadeiro mantra— e também cansado —, de que esses livros não se esgotam e continuam a oferecer novas possibilidades de interpretação a cada geração. Porém, em geral, há nesses livros aspectos que são ignorados repetidamente pelas gerações que neles se inspiram. O epíteto Polytropos que Homero atribui a Odisseu é a antítese da humanidade especializada e neurótica de nossa época. Com todo o fascínio que a Odisseia exerce sobre a mentalidade contemporânea, quando essa obra é transposta através do mercado de entretenimento de larga escala, o produto final tende a expor os vícios de um olhar que se situa em um mundo já quase em plena oposição à cultura da época e essa distância, se não for bem cartografada pelo artista, se torna intrusiva e contraproducente.
Em termos de construção sobre os clássicos homéricos me atrai o trabalho do artista Cy Twombly, em especial o conjunto de dez telas intitulado Fifty Days at Iliam, de 1972. Twombly é especialmente importante porque volta a Homero não como fonte de um passado idílico; seu foco é a subversão do cânone. Inspiradas na Ilíada, assim como alguns de seus trabalhos anteriores, o estadunidense usurpa o espaço do poema ao transpor vocábulos de seu contexto literário para pinturas onde palavras como Aquiles, Ares, Heitor e Aqueus trazem uma carga de significado da literatura homérica enquanto, por sua vez, são fragilizadas pelo novo meio que as sequestra. Ele trilha o caminho da implosão abrindo um espaço ambíguo entre a iconoclastia e o classicismo, um campo em disputa que só é possível por conta do peso do poema original. O lastro incontornável é, paradoxalmente, condição necessária de sua própria consumição.
O lastro que dá a esses poemas seu caráter inesgotável tende a ser arisco. Basta ver como aspectos essenciais dessas obras passam despercebidos em muitas tentativas de capturar o fio condutor de poemas que englobam uma visão complexa de temas que nos parecem familiares e é essa pretensa familiaridade que induz ao erro. 250 milhões de dólares podem recriar visualmente monstros, ilhas e até o Hades, o que não conseguem é alimentar o exercício de alteridade necessário para se aproximar de uma cultura da qual só nos chegaram os ecos.
Na Odisseia as regras de hospitalidade são postas em primeiro plano, demonstrando a importância desse mecanismo social, mas também a capilaridade do costume a ser observado. O imperativo de receber pessoas em sua casa se associava diretamente à coluna vertebral da sociedade grega que dependia da navegação para conectar as ilhas e as rotas comerciais. Ter pontos de parada e a expectativa mais ou menos segura de que qualquer grego lhe ofereceria abrigo e comida permitia que a navegação, apesar de difícil, mantivesse a relevância como constelação política e militar.
Introduzido o cenário, resta o dilema: dar comida, teto e cama a viajantes desconhecidos sob uma forma de obrigação social tende a ser lida por nossa época como uma forma de imposto, exploração ou até extorsão, visto que nas sociedades capitalistas esses são os únicos mecanismos de larga escala que levam à contribuição privada em benefício de estranhos.
Entretanto, o que a antropologia demonstra é que em outros modelos de organização social existem mecanismos de distribuição (em alguns casos, destruição) de riqueza viabilizados pela dádiva onde aquele que faz a benfeitoria ganha (ou mantém) prestígio social ao observar os costumes dispendiosos de seu povo. Daí vêm as disputas pelo privilégio de oferecer riquezas maiores, caso dos famosos presentes que as elites gregas se orgulhavam em distribuir àqueles que se despediam das principais casas após um período de guarida. Nada mais incompreensível ao homem contemporâneo do que a doação de riquezas sem a expectativa de um retorno direto.
A Odisseia recriada em nossa época tende a se tornar uma obra de completa fantasia onde o mito é resumido aos personagens claramente fantásticos, incluídos nesse rol os deuses gregos. Todavia, a mitologia é estranha às nossas sensibilidades, prova disso é a ausência do mito na vida contemporânea, vazio que nos obriga a explicar a posição do poema homérico para o mundo grego mediante associações limitantes e limitadas por nossos próprios conceitos de religião, literatura e misticismo.
O mundo grego era regido por uma miríade de entidades, era um mundo vivo e às voltas com as histórias dos mitos que colocavam os mortais em posição de participação ativa, mas sujeitos ao conjunto de causas e efeitos que constituíam o destino. Um mundo ininteligível em sua multitude para homens esvaziados cuja espiritualidade tende a se resumir ao foro individual e limitado pelas contingências da vida prática e produtiva.
Quando um poema monumental como a Odisseia é adaptado com sucesso, como no caso do Ulysses de James Joyce, por exemplo, o resultado extrapola o âmbito da adaptação, a aproximação do clássico oferece uma força criativa capaz de alimentar um projeto genuinamente contemporâneo. É tentador construir sobre os poemas, porém há uma linha tênue entre o vilipêndio e o diálogo. Homero ainda nos alcança a partir de um ponto deslocado, ir ao encontro do bardo demanda um périplo pelo mundo que o engendrou e saber navegar os quase 3 mil anos de distância entre nós.

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