Da comunhão entre espécies em Ilhas suspensas, de Fabiane Secches
Por Douglas Sacramento
![]() |
| Fabiane Secches. Foto: Fabio Audi |
Quando era pequeno, existia uma regra muito rígida em minha casa, elaborada por meu pai: eu e meus irmãos não poderíamos ter animais de estimação. Cresci sem saber o que era ter um bichinho ou lidar de perto com animais. Meu irmão, porém, sempre quebrou essa regra — teve hamsters e, posteriormente, gatos. Na fase adulta, minha relação com os animais mudou com o tempo. Meu ex-namorado tinha uma gata que passei a considerar uma filha, e, no terreiro de candomblé, minha mãe de santo é dona de muitos animais — galinhas, galos, pombos, passarinhos e patos. O sonho dela é ter um cavalo. Sua relação com os animais perpassa o litúrgico, pois eles são tratados como filhos, têm nomes e vivem numa simbiose entre ela e os Orixás.
As relações entre humanos e não humanos constituem o fio de todo o tecido alinhavado por Fabiane Secches em seu romance de estreia, Ilhas suspensas. Mineira, psicanalista e tradutora, a autora é mestra em Teoria da Literatura — estudou a obra da italiana Elena Ferrante — e escreve para diversas revistas do país. O livro agora publicado está organizado em três partes: “Começo”, “Meio” e “Começo”.
A narrativa de Ilhas suspensas se estrutura em torno de Mariana, de 41 anos, numa de suas últimas tentativas de ser mãe, enquanto o relógio biológico e a pressão social em torno da maternidade gritam em seus ouvidos. A protagonista passa por um período conturbado após perder a mãe e a sobrinha, filha de sua irmã. As sucessivas tentativas de gerar um filho não dão certo e a deixam num limbo entre os efeitos colaterais dos remédios, a tristeza e os julgamentos que ouve constantemente. Um dia, o marido recebe uma proposta de trabalho para a Europa. Ela decide acompanhá-lo e, ao lado de seu cachorro, Quincas, passa a viver como estrangeira e imigrante em um novo país.
Ao chegar, não sabe falar a língua local e tenta, aos poucos, se enturmar. Contudo, sua amizade e relação mais duradoura é com o cachorro, já que o marido passa o dia todo fora de casa. Certo dia, Mariana conhece Florence, uma colega de ioga. Desse encontro fortuito nasce uma amizade e dela a participar de um clube do livro com outras mulheres imigrantes enquanto aumenta seu contato com outras espécies de animais, seja pelo convívio com gatos e cachorros, seja pela representação desses animais em filmes e livros que costuram o romance e reforçam seu tom ensaístico.
Mais do que isso, a dimensão biológica está desenvolvida a partir daí, na certeza segundo a qual o corpo de Mariana conversa com o de outras espécies. Por isso, o romance estabelece um diálogo direto com Donna Haraway e suas elucubrações acerca da relação multiespécies, propondo novas formas de vínculo entre homens e animais, por meio da teoria das espécies companheiras.
Corpo vivo e pulsante
No ensaio “Notas sobre a equidade”, publicado em Depois do fim: conversas sobre literatura e antropoceno, livro organizado por Fabiane Secches, Itamar Vieira Junior passeia pela própria vida para refletir sua relação com os animais, da infância, assistindo imagens televisionadas de aves e peixes agonizando durante a Guerra do Golfo, no início da década de 1990, até chegar aos cachorros, gatos e pintinhos que teve durante a vida. A partir desse percurso pessoal, costura suas leituras literárias — além dos livros para as infâncias — para discutir as relações entre humanos e animais.
Para o escritor e pesquisador baiano, dependendo da perspectiva do autor, a literatura apresenta animais que atestam nosso paralelismo com a consciência animal e suas subjetividades. Ao trazer à tona essas presenças em suas tramas, revela “o mundo-tempo dos seres sencientes”. E conclui, de maneira muito bonita, que a literatura é um espaço para entender alteridades, no qual os animais ocupam um lugar importante na construção de uma prática de equidade.
Esse exercício, sinalizado por Itamar Vieira Junior, é colocado em prática por Fabiane Secches com Ilhas suspensas. Tudo começa com uma questão primeva: a maternidade que não acontece. Mariana está inserida num mundo em que todos os seres vivos reproduzem. O interdito da maternidade se torna o abalo central da protagonista e o ponto de virada da trama. Desde o começo, estamos diante de uma personagem em crise, consciente de sua parte numa malha discursiva cujos efeitos afetam não apenas o corpo físico, mas também o psicológico.
“Clomid. Letrozol. Desogestrel. Fostimon. Miosan. Venlift. Olanzapina. Zolpidem. Essa era a combinação química com a qual o corpo de Marina tentava lidar na manhã do terceiro para o quarto dia de estimulação hormonal, a terceira tentativa de fertilização in vitro. Naquela tarde, sete meses antes da mudança que estava por vir, ela faria um ultrassom transvaginal para acompanhar o crescimento do óvulo.” (p. 12)
Quincas, cujo nome remete ao célebre cachorro do romance Quincas Borba, de Machado de Assis, é uma personagem fundamental para Mariana. As fronteiras entre humano e animal são borradas, e a protagonista coloca em prática a teoria que estudou em Donna Haraway. Em tempos de antropoceno e de um mundo ruindo por causa das ações predatórias dos homens, é preciso construir novas alianças, realçando os elos entre multiespécies. Mariana vive essas alianças como coletes salva-vidas em meio à tempestade: primeiro com Quincas, depois com Florence e com as mulheres imigrantes do clube de leitura.
“As meninas eram um grupo de cinco mulheres de idades entre sessenta e dois e oitenta e quatro anos, todas imigrantes, como Florence havia antecipado. Duas delas eram casadas entre si, donas de uma floricultura no bairro, uma sul-coreana, de sessenta e oito anos, e outra libanesa, de setenta e seis. As demais eram nigeriana (oitenta e quatro), mexicana (sessenta e dois) e ucraniana (setenta e cinco).” (p. 103)

A condição de imigrante é evocada constantemente ao longo do romance. Mariana só fala inglês e está num país onde poucas pessoas usam esse idioma. Portanto, para além das barreiras de ser estrangeiro, a barreira linguística é um ponto tocante à protagonista. Enquanto pensa em maneiras de passar por esse turbilhão de acontecimentos que a afetam, busca construir uma convivência mínima nesse novo espaço.
Nesse momento, quando tantas questões permanecem sensíveis, o retorno ao passado é acompanhado por novas tentativas de elaboração. A morte da mãe e da sobrinha ressurge continuamente, atrelada ao fracasso da tentativa de engravidar. Mariana compreende que a viagem para outro país não é um escape dos problemas, mas também uma viagem para si mesma, permitindo compreender essas questões que a compõem desde o começo do livro. Não por acaso, a vida nesse novo lugar está na parte intitulada “Meio”, antecedendo um novo “Começo”.
As reflexões sobre os animais e as relações multiespécies percorrem todo o romance. Mariana vive em comunhão com outras formas de vida e está a par desse debate teórico. Nada parece gratuito. Por isso, a escrita, em certos momentos, assume um tom ensaístico, em consonância com a formação acadêmica da protagonista, pesquisadora do tema em evidência. Esse caráter híbrido também aparece na quantidade de referências literárias citadas na obra. É um livro marcado pela referência a outros livros, uma comunhão que deságua tanto no clube de leitura quanto no novo “Começo” vivido pela protagonista. Mariana não está sozinha; tem os livros, Quincas, o marido, as amigas e até outros animais. Em tempos de crise e de ameaça de fim do mundo, viver em harmonia com as espécies companheiras — e reconhecer essa relação harmônica também na literatura — mostra-se uma forma de resistência.
“Há coisas que Mariana não conta a ninguém, mas quando ela e Quincas estão sozinhos, ela anda de quatro pelo apartamento tentando enxergar móveis, pisos, tapetes e manchas de luz, sob a perspectiva dele. O apartamento visto assim, de baixo, é bem diferente. Ela também se deita nos cantos preferidos do cachorro e se encolhe toda nas duas camas dele, uma no quarto e outra na sala, a ponto de quase caber inteira. Quincas gosta do experimento, acompanha de perto as expedições, os olhos vívidos, as orelhas alertas. Cheira Mariana deitada em sua cama, cheira Mariana cheirando sua comida, solta pequenos grunhidos alegres e abana o rabo, em aceno, quando ela se aproxima de sua fonte e bebe um pouco de água.” (p. 62)
Se Fabiane Secches já sinalizava, no livro organizado por ela, que sua produção intelectual se voltava para as relações entre humanos e animais, o romance de estreia confirma esse empreendimento literário. Um primeiro romance pode seguir caminhos complicados e complexos, mas aqui não. Ilhas suspensas dialoga com demandas do contemporâneo — imigração, maternidade e relações multiespécies — sem renunciar a experimentações estéticas. O leitor se encontra em mãos seguras no que esse romance se propõe, marcado por uma escrita poética, marcada por latidos, miados e muitos livros. Ilhas suspensas faz e acontece.
------
Ilhas suspensas
Fabiane Secches
Companhia das Letras, 2026
160 p.

Comentários