Edgar Allan Poe e a escrita em tempos de algoritmos

Por Michel Goulart da Silva

Édouard Manet. A sombra que flutua no chão. Ilustração para O corvo, de Edgar Allan Poe 



Embora mais conhecido por suas obras sombrias, associadas à literatura gótica do início do XIX, Edgar Allan Poe também escreveu críticas e ensaios sobre escrita, literatura e outros temas. Em sua maior parte, esses textos são comentários, alguns dos quais bastante ácidos, sobre escritores que lhe foram contemporâneos. Esses textos, contudo, incluem também ensaios mais densos, como “A filosofia da composição”, publicado em abril de 1846, e “O princípio poético”, publicado postumamente, em agosto de 1850.

O primeiro é um texto mais geral sobre as compreensões de Poe acerca do processo de escrita literária e o segundo é uma detalhada descrição do processo de criação de uma das obras mais famosas do escritor, o poema “O corvo”. Em ambos os textos se vê um autor lúcido para com o seu processo de escrita e comprometido com a qualidade literária dos textos que levava a seus leitores.

Em “A filosofia da composição”, à medida que destrincha os versos e até mesmo as escolhas de palavras na escrita do poema, faz indicações fundamentais para o processo de criação – seja literária, acadêmica, pessoal ou qualquer outra. Numa época em que as diversas inteligências artificiais conseguem escrever até mesmo textos complexos, ainda que apenas imitando a escrita humana, mostra-se um importante desafio voltar os olhos para os princípios expostos há quase dois séculos por Edgar Allan Poe.

O autor mostra um certo incômodo com os excessos da escrita, quando parecem muito mais preocupados em encher o leitor de informações. Descrevendo um problema que, em sua opinião, seria corriqueiro, afirma que o escritor “senta-se para trabalhar na combinação de acontecimentos impressionantes para formar simplesmente a base da narrativa, planejando, geralmente, encher de descrições, diálogos ou comentários autorais todas as lacunas do fato ou ação que se possam tornar aparentes, de página a página”; uma postura que mostra um erro comum ainda na atualidade, afinal procura-se inserir no texto uma grande quantidade de informações e dados detalhados mesmo que isso nada acrescente relevância ao conteúdo do que se pretende expor.

Em sua reflexão, Poe propõe outra perspectiva, voltada para as sensações que se quer provocar no leitor. Nesse sentido, afirma que prefere “começar com a consideração de um efeito”.  Essa questão se relaciona à ideia de tom a ser dado no texto, a partir do que considera “se seria melhor trabalhar com os incidentes ou com o contrário, ou com a especialidade tanto dos incidentes quanto do tom — depois de procurar em torno de mim (ou melhor, dentro) aquelas combinações de tom e acontecimento que melhor me auxiliam na construção do efeito”.  

Portanto, para o escritor, o texto não pode ser uma mera coleção de informações dispostas em parágrafos, mas, algo que cause um efeito no leitor, o que se consegue a partir da compreensão das sensações que se quer provocar com a escrita. Cabe destacar que essa questão do efeito se relaciona com a extensão. Poe afirma que ela deve ser calculada levando em conta “o grau de verdadeiro efeito poético que ele é capaz de produzir”. 

Nesse entendimento, a escrita é um processo racional em que as escolhas não podem se dar por acaso. Poe critica os escritores, em especial os poetas, que “preferem ter por entendido que compõem por meio de uma espécie sutil de frenesi, de intuição extática”.  Em Poe, o processo, desde o planejamento mais geral do texto até a escolha das palavras e a construção das frases, é um processo que requer do escritor escolhas feitas com cuidado e precisão. 

Em Edgar Allan Poe, a escrita não pode ser um ato solitário e realizado no calor do momento, mas a expressão de escolhas feitas pelo escritor, com vistas a atingir um público determinado e nele causar certo efeito. Essas escolhas não podem ser feitas por algoritmos, em um texto que se resume a expor informações. Elas são exclusividade dos seres humanos, que não encontram o material de sua escrita em infindáveis bancos de dados, mas nas suas experiências, na sua vida em sociedade e nas nuances de seu ser que desejam mostrar ao mundo.


Referências:

POE, Edgar Allan. Ficção completa: poesia e ensaios. Trad. Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001. 

* Michel Goulart da Silva é doutor em história pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e técnico-administrativo no Instituto Federal Catarinense (IFC).

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