Livro de urgências, de Jonas Leite

Por George Henrique

Jonas Leite. Foto: Heudes Regis



Que imagem teria o instante no contemporâneo? Os signos disformes na capa do Livro de urgências, o terceiro volume da poesia de Jonas Leite, parecem oferecer uma pista. É que o contemporâneo é árduo de se decifrar, de se abarcar com acepções encerradas; ele escapa, por mais que tentemos examiná-lo. É um escape irônico, aliás, porque não se trata de um distanciamento; na realidade, estamos tão embebidos nele que, por vezes, ponderar sobre seus efeitos e modulações parece uma tarefa bastante difícil. Todavia, essa parece ter sido uma tarefa que o poeta empreendeu no livro supracitado. 

Sua dicção é marcada pela concisão, que parece já nos atentar para a demanda de urgência, uma marca insigne do contemporâneo, ao passo que estabelece um diálogo com o estilo de mestres como Orides Fontela, ou Olga Savary, mas, sobretudo João Cabral de Melo Neto. Isso porque, como caracteriza Lourival Holanda (2026), ao falar da poética de Fontela, os versos sucintos parecem vir dessa maneira para proporcionar ao leitor um breve prazer na correria do cotidiano. Ainda assim, como alerta o crítico, engana-se quem pensa que a brevidade caracteriza uma experiência fugaz; os poemas, uma vez lidos, habitam o âmago do leitor e nele se amplia gerando uma vivência que se alastra e, a bem da verdade, parece ter seu ápice somente após o instante de leitura. É o que se verifica neste poema:

Encontros de vazios

Manifestamente mecânico
O desejo de ter,
Como a banalidade
De promessas repetidas
E o apego à ilusão de ser (Leite, 2023, p. 27).

Sem dúvidas, mais do que qualquer questão temática, o que me chama a atenção nesses versos é o tom constatativo com que Jonas Leite coloca diversas dinâmicas do presente, seja a questão das relações interpessoais, que se dão em encontros aparentemente isentos de um quê que lhes dê valor; seja o vazio da ambição mecânica, que nos faz desejar artefatos que parecem desprovidos de sentido; ou ainda a ilusão de ser, como se fosse possível apresentar uma identidade estanque, diante do fragmentário que nos constitui. 

Tudo isso, além de despontar num poema de estrofe única, cujas palavras parecem milimetricamente calculadas, orquestra o paradoxo de ser bastante subjetivo sem sê-lo. Não há marcas pessoais na voz poética. Ela parece simplesmente constatar algo que é próprio do instante em que vivemos, sem necessariamente oferecer um juízo de valor. Obviamente, o “encontro de vazios” soa como algo negativo, mas essa caracterização quem empreende somos nós, os leitores. A poesia de Jonas parece fazer um exercício incomum no cenário da literatura contemporânea: nos dar conhecimento de causa e nos fazer arcar com o peso disso.

Nesse sentido, sua escrita, usualmente impessoal, é aguda, toca a ferida e nos leva à reflexão, sem propor soluções ou vias de saída— essa tarefa também é nossa. O que o poeta parece exigir de nós é que saiamos da inércia a que nos sujeitamos, diante das violências cotidianas. Sim, porque a leitura que ele faz do contemporâneo pode ser expressa sob o signo do aturdimento, que, nesse caso, desemboca em dois caminhos distintos, mas complementares ao exercício crítico e político que ele parece atribuir à literatura, de modo geral.

Na esteira de um atordoamento porque estamos, todos nós, imersos numa atmosfera por vezes tão hostil, obrigando-nos a seguir um automatismo do qual raras vezes temos consciência que não há como ler nossa conduta desvencilhada de um torpor que lhe é insigne. Estamos atordoados, exercitando pouco nossa empatia, nossa força crítica frente às atrocidades diárias, às violências que presenciamos e também cometemos, conjuntura patente neste poema:

Poema de Natal

Um dia teu menino
Também foi pobre, Deus.
Mesmo assim recebeu canto e ouro.

Hoje um menino pobre nasceu, Deus
E nenhum rei lhe deu presente
Nenhum pastor o louvou (Leite, 2023, p. 32).

“Poema de Natal” abarca a mesma contundência descrita anteriormente e nos atenta à apatia com que temos lido a vida. Não há, todavia, nenhum ato condenatório: há de se entender que somos algozes e vítimas, de modo que nossa posição não é estanque e, por tal, cabe a nós mesmos elegermos a posição que desejamos ocupar. Esse “sacode” que sua poesia oferece culmina, justamente, na segunda visiva que o aturdir nos apresenta: o de perturbar os sentidos, de causar espanto. 



Sua linguagem concisa parece perfurar nossa pretensa estabilidade, a fim de que ajamos em algum sentido. Seus textos revisionam, portanto, nossas convenções, pensando juízos há muito consolidados, por meio de intertextos, que vão desde mitos, passando pela história bíblica, como nesse caso, até referências a Clarice Lispector e Djavan. Sua poética é, a um só tempo, cônscia de que a inércia não é uma opção, mas também de que rompê-la não é, de longe, uma tarefa fácil. Rememorando o reconhecido poema de Bertolt Brecht, quanto tempo até que sejamos nós aqueles que estarão tão enredados nesse caos, a ponto de que a vida, matéria-prima de nossa existência, pareça impossível ou insuportável?

Vícios contemporâneos

Fuga
Para a prisão
Sem grades (Leite, 2023, p. 39).

Todavia, há momentos em que essa impessoalidade abre fendas, por meio das quais o gozo se manifesta, explícito nos poemas em que o erótico é central, ora como escape, ora como matéria primordial da constituição do sujeito, afinal é próprio do jogo de eros que o desejo não conceba fim e só está vivo quem deseja.

Em frente ao desejo

Aqui, novamente,
Desnudo e entregue
À vastidão dos teus caminhos
Sinuosos,
Compreendendo que minha sede
Jamais será aplacada
Pelas tuas fontes infindas.
Do contrário, nem eu, nem tu
Existiríamos
E somente Deus
Repousaria sobre as águas (Leite, 2023, p. 66). 

Assim sendo, é possível constatar duas linhas norteadoras nesse conjunto de poemas, as quais estabelecem uma relação próxima com a própria divisão da obra, separada em duas seções, sendo a primeira os “Portais de Dante” e a segunda o “Jardim das delícias”, estabelecendo, novamente, diálogos intertextuais com obras canônicas, que colaboram para uma melhor apreensão do livro. 

Essas seções, todavia, são antecedidas por dois poemas, que parecem estabelecer um elo entre essas instâncias, a partir do signo da fome; não somente a fome social, mas aquela que devassa nosso íntimo, o desejo que nos corrói e desestabiliza. Perante essa(s) fome(s), a literatura consegue ser um bálsamo, por mais “inútil” que seja, afinal um livro não aplaca dores concretas, não é, como bem explicita o poeta, um lenitivo para a fome abjeta que, infelizmente, está presente na vida de tantos brasileiros. Mas quem poderá apiacá-la, afinal? Bem, essa resposta o livro não nos dá e talvez consiga, em não tentar fazê-lo, um de seus melhores gestos, pois o desconforto que nos lega parece ser mais eficaz que qualquer tentativa de resolução:

Agora

Seria preciso serenar
Encontrar certa medida
Para resistir a esta intempérie
E parar.
No entanto, nada aplaca esta fome
E nenhuma boca, por mais que digam, 
Consegue conjugar a palavra “calma”.

No fundo, somos idiotas a repetir 
Fórmulas e soluções 
Que só nos levam ao olho do furacão
Cada qual acreditando que convence o outro
E mentindo, talvez, para sobreviver
Ou para ganhar algum tempo (Leite, 2023, p. 23).

Talvez Livro de urgências não seja a leitura ideal para aqueles que buscam um certo conforto, muito embora haja um certo consolo em encontrar uma voz à qual se pode irmanar em tempos tão caóticos, sobretudo no contexto político recente, em que a democracia brasileira está cada vez mais ameaçada por discursos fascistas e totalitários, numa polarização que espraia uma aura de incessante ameaça àquilo que há de mais básico para uma vida digna. 

Em certo sentido, a capa colorida do livro soa um tanto irônica, não num sentido pejorativo, mas enquanto uma incongruência de sentido, sentimento, aliás, que se manifesta em todos os poemas, como se o “eu contemporâneo” que surge em seus versos fosse caracterizado por uma aura de deslocamento constante, de ausência de pertença a qualquer coisa que lhe possa dar um afago e tornar um tanto mais aprazível sua existência. 

É, indubitavelmente, um livro cinza, que, de alguma forma, consegue nos ajudar a aceitar o absurdo da vida, sem ter de, para isso, abrir mão de uma linguagem sabiamente lapidada, que em vez de facilitar o trabalho do leitor, busca tencioná-lo, desafiá-lo mesmo. É, de fato, uma obra que merece ser lida, sem que haja nessa sugestão nenhum tipo de pieguice ou alarde desmedido.


Referências

HOLANDA, Lourival. Orides Fontela: o ouro raro da linguagem. À meia-voz. Spotify, [s. d.]. Disponível aqui. Acesso em: 2 set. 2026. 
LEITE, Jonas. Livro de urgências. Cotia: Urutau, 2023.



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