O indigente social no conto “Uma vela para Dario”, de Dalton Trevisan

Por Juliano Pedro Siqueira 

Ilustração de Robson Vilalba para a HQ Uma vela para Dario.



Aos amantes da literatura brasileira, não restam dúvidas da sua grandeza. O problema é quando o fetichismo estrangeiro — acreditando ser a tradição literária de lá superior à nossa — rouba a cena. Partindo das nossas raízes mais brasileiríssimas, o panteão literário brasileiro nunca ficou devendo em estilo, prosa, criatividade e profundidade temática. Eis o exemplo de João Guimarães Rosa, que desenvolveu uma prosa metafísica entre jagunços em estilo narrativo, até então, inédito! 

Quando decidi escrever sobre a nossa fértil literatura, não quis repetir nomes já consagrados. Buscava uma alma discreta, cuja escrita fosse tão afiada quanto a de tantos outros e me veio o nome de Dalton Trevisan, que nos deixou em 2024. Detentor de um espólio literário invejável, o escritor de Curitiba escrevia ritualisticamente, como se sua missão terrena fosse exclusivamente produzir literatura. E sempre ao seu modo: reservado, observador e conciso.

Revirando alguns textos de Dalton Trevisan — pois tenho uma predileção por contos —, encontrei uma preciosidade de 1979, que faz parte da sua obra Os vinte contos menores: o conto “Uma vela para Dario”. É um miniconto que trata com a crueza a realidade urbana e suas mazelas sociais. Dario é um cidadão comum e caminha despretensiosamente pelas ruas da cidade, carregando consigo alguns utensílios indispensáveis ao homem de seu tempo. Até que, de forma inesperada, sofre uma estranha fadiga, um repentino mal-estar, e tomba na calçada, ficando exposto à multidão que logo o cerca.

Quando Dario não mais apresenta sinais vitais, os objetos que portava, como o guarda-chuva, o cachimbo, o paletó e a aliança, aos poucos, desaparecem. Enquanto um falso sentimento de piedade reunia curiosos a bisbilhotar o seu trágico fim, oportunistas desalmados surrupiam as últimas lembranças que dele restam. A perturbadora apatia e indiferença com que esse personagem é mostrado expõem uma chaga profunda que macula a vida coletiva brasileira: a ausência de compaixão em uma sociedade pautada pelo individualismo. 

Ante a circunstância narrada, perguntamos: quantos Darios são escarnecidos diariamente por abutres desprovidos de empatia, prontos a devorar-lhes não apenas a matéria, mas também a dignidade diante da morte?

Os olhares são disputados a cotoveladas para bisbilhotar o cadáver molhado e desbotado, sem que nenhuma ação efetivamente humana se manifeste entre as pessoas. Assim, a história de Dario desaparece, para dar vida a uma abjeta indigência em forma de espetáculo. E o homem que já não pode mais sentir o sabor do cachimbo, nem ter o suporte do guarda-chuva e muito menos ostentar a seriedade de casado por meio da aliança, termina sobre uma calçada, cercado por curiosos, à espera de um rabecão que tardou a removê-lo.

Pode-se até pensar que a figura antevista no conto Dario de Trevisan teve um destino mais ignominioso que o de Polinices, em Antígona; que ao menos teve a pobre irmã ao seu lado para honrar sua memória. Ah, quem dera se Dario encontrasse pelo caminho um samaritano enquanto espumava pelo canto da boca! Ele poderia o recolher, pagar as despesas médicas de momento e mais algum gasto que porventura houvesse… Dario envergonharia seus algozes, expondo-lhes a falsa piedade, o falso moralismo e a hipocrisia social. Triunfaria como um cidadão honrado! Recuperaria a dignidade pela compaixão de um estranho, um forasteiro marginal.

Mas a realidade de Dario é, como dissemos, bem diferente. Quando a espetacularização perde a força com a chegada da polícia, o tédio toma conta da multidão, que se dispersa como na saída de um estádio de futebol ao final da partida. Depois da exposta vergonha, enfim seu corpo estava livre dos detratores. Em contrapartida, nenhum parente aparece: nem irmã, esposa ou filho. O céu carregado se desfaz lentamente em forma de chuva sobre sua pálida face, experimentando o desgosto da indigência social.

A morte, muito mais que um fenômeno natural, normalmente se transforma em um espetáculo sórdido. Um corpo caído na rua não gera comoção, mas fascínio. Ninguém se importa com as capelas que velam seus mortos. Mas um cadáver abandonado ao relento, sem documento ou alguém que assuma o parentesco ou a amizade, este sim, interessa às multidões. O corpo, quando abandonado, sofre toda sorte de escárnio popular. Não sabemos o que ocorreu a Dario depois que foi lançado naquelas gavetas de uso compartilhado. Se teve um sepultamento com honras fúnebres, comoção ou se o caixão precisou ser lacrado... Não importa! No meio de tantas almas reunidas em sua desgraça, nenhuma se viu capaz de se colocar no lugar da sua agonia.

Em Murphy, o anti-heroísmo do protagonista vai ao extremo. Ele tinha um bizarro desejo depois da sua morte: ter os restos mortais cremados e as cinzas jogadas em uma descarga de teatro. Mas, por ironia ou zombaria do destino, o frasco que carregava suas cinzas se quebra em meio à calçada, misturando-se a escarros e sujeiras. Dario, se tivesse virado cinzas, poderia ter tido sorte melhor. Poderia ter se pulverizado pelo ar, acabado num jardim, lançado num rio ou jogado nas fortes correntezas do mar. As cinzas teriam maior dignidade que o próprio corpo! Exagero à parte, nem tudo estava perdido ao cadáver humilhado de Dario. Eis que uma silenciosa criança de cor surge para iluminar um corpo ora entregue à escuridão e à melancolia.

O garoto, sem exprimir uma única palavra, surge com uma vela e a coloca ao lado de Dario. Dalton termina o conto, deixando-a queimar até a metade, pois a chuva que voltou a cair apagou-a. O gesto humano da criança, tão invisível socialmente quanto um cadáver na calçada, superou toda a multidão outrora indiferente. Na prática, a compaixão alcançou seu objetivo, que foi preservar a dignidade de Dario. Pois, “o amor cobre uma multidão de pecados”. (1 Pedro 4:8). 

O conto tece uma crítica voltada ao caráter degenerativo nas interações sociais, expondo a fragilidade moral e a insensibilidade humana. A morte é apenas mais um produto da espetacularização social, diante de tantos outros meios de banalização da vida. O indigente social não necessariamente precisa morrer para se tornar uma vítima; em vida mesmo, é possível sofrer esse golpe do desamparo coletivo. 

A oportuna urgência da solidariedade diante das tragédias urbanas — e Dalton sabia e acompanhava esses fenômenos sociais de forma minuciosa — identificaa a flagrante negligência do homem diante do seu semelhante. A piedade, enquanto valor de apelo universal, não deve conhecer obstáculos sociais, econômicos, raciais ou religiosos. Mas, infelizmente, a sociedade lançou mão de gestos nobres que reconhecem o outro em sua dimensão espiritual. A alma humana perdeu a capacidade intrínseca de cultivar ações de responsabilidade ética para com o próximo, reduzindo, na escala social, sua espécie ao plano mais raso e superficial.

A sociedade brasileira precisa se voltar à ideia do bem como dever em si, sem visar interesses próprios ou necessitar de políticas estatais que o determinem. Enquanto povo, é imprescindível transcender o individualismo e a indiferença, que apenas fomentam a segregação da vida coletiva. Não adianta se vitimizar com a maldade dos tiranos, quando se devolve, em proporções maiores, essa mesma maldade ao próximo.


Referências

TREVISAN, Dalton. Vinte contos menores. Rio de Janeiro: Record, 1979.
BECKETT, Samuel. Muphy. Tradução de Fábio de Souza Andrade. São Paulo: Cosac Naify, 2013. 


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