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Um romance russo, de Emmanuel Carrère

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Por Gabriella Kelmer Emmanuel Carrère. Foto: Franck Ferville   A autobiografia não ocupa tão comumente minhas reflexões sobre a literatura. Talvez a evitação seja por um apego à ficção no seu sentido mais restrito, ou ainda um desejo de evitar o confronto com a escorregadia classificação do que é literário; fato é que, se há romances e novelas autobiográficas que li com prazer, há ainda um caminho considerável para que eu possa discutir as questões teóricas ensejadas pela autobiografia com qualquer propriedade.   Essa lacuna, o interesse em remediá-la ligeiramente que seja, foi o primeiro ponto que trouxe às minhas mãos Um romance russo , de Emmanuel Carrère, autor cujo nome, e até então apenas isto, não me era estranho. O fator segundo consistiu em um desejo de ler algo novo, de um escritor com o qual não tinha familiaridade, sendo enfim essa novidade um dos traços mais atrativos para mim na produção dessas resenhas.   A versão da Alfaguara, que ocupa agora um espaço na...

O reino, de Emmanuel Carrère

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Por José Luís Autor de obras que seus editores denominam “romances de não ficção”, Emmanuel Carrère parece haver optado por escrever livros entre o jornalismo “íntimo” e a investigação sobre um “tema” geral ou particular. São obras escritas em primeira pessoa e cujo protagonista é o autor; ainda que as vezes não pareça, como é o caso de O adversário , crônica indagadora sobre o insólito assassino Jean-Claud Romand, e de Limonov , biografia de uma personagem cuja peripécia, tão exagerada como real, Carrère chega a se identificar com o protagonista como se tratasse de um romance sobre o autor. Para a presente narrativa, ele, nascido em Paris em 1957, que fez uma carreira como roteirista na França, mesclou dois elementos narrativos: um biográfico, seu período de fervoroso religioso e leitor do Evangelho de São João; e outro hagiográfico, as figuras do convertido Paulo e de seu discípulo Lucas. Se na primeira parte da obra contém a memória de três anos de fervor cris...