Postagens

As cartas do amor insondável entre Kafka e Felice

Imagem
Franz Kafka e Felice Bauer, Budapeste, julho de 1917 Em 16 de junho de 1913, Franz Kafka confessou a Felice Bauer que não era grande coisa. “A verdade e que não sou nada, nada do que se diz”, lhe escreveu. Imediatamente depois lhe explicava que não conhecia nada tão desastroso nas relações humanas como ele, e que tinha a impressão de que “não havia vivido nada”. E a isso dizia: a) que era incapaz de pensar e b) que tampouco sabia escrever, “nem sequer nada”. Pouco antes, depois de informar que estava doente, havia perguntado: “Quererás refletir (...) e chegar a uma conclusão a respeito se queres ser minha mulher?” Tudo está em Cartas a Felice , um título que reúne a correspondência entre Kafka e sua sempre namorada – a sempre insondável e enigmática relação entre um escritor sempre atormentado com a escrita e uma mulher um tanto compreensiva (ou apaixonada demais?) com tudo isso. “Eu perderia minha solidão, que em sua maior parte é horrível, e te ganharia, a quem amo mais que nen...

Saramago, 1950

Imagem
Por Pedro Fernandes José Saramago em Azinhaga A Fundação José Saramago divulgou junto com esse momento de semifechamento de uma obra magna fotos colecionáveis para os que o têm, além da admiração pela obra, um apreço pela figura do autor de Ensaio sobre a cegueira . Os registros estão datados da década de 1950, apresentam o escritor muito antes de ser quem o conhecemos, na época quando   José Saramago ainda trilhava os primeiros gestos de escrita. Ao todo são dezesseis registros da época de quando escreveu o recém-lançado Claraboia , romance só agora publicado e ocasião que leva a FJS divulgá-los. O livro escrito foi escrito poucos anos depois de Terra do pecado , o título que passou desconhecido pelo seu tempo de publicação e que poderá ter levado ao engavetamento da obra agora trazida a lume. Saramago foi um escritor com uma vida marcada por golpes de sorte, como alguma vez terá ele próprio discorrido a respeito. Daqui, pensamos em alguns desses momentos e tudo ...

Os quatro anos deste Letras

Por Pedro Fernandes Não. Não passou despercebido. É verdade que tenho andado, ultimamente, às voltas com o tempo. Conduzindo dois cursos na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, à frente de um evento nacional, orientando alguns trabalhos e tentando me equilibrar numa corda bamba à cata de uma sustança maior e segura e apenas por isso as coisas por aqui têm andado a passos de tartaruga.  Mas passar despercebido um instante como este, isso não, não é permitido. É que hoje, 27 de novembro, fecham-se 4 anos do blog Letras in.verso e re.verso e entramos, logo, com uma sede lenta, para o 5º ano de andanças pela infinita página da  web .  Não há necessidade de repetir aqui – pela milésima vez – do sucesso que tem sido essa empreitada surgida da cabeça de um jovem estudante de Letras, como quem não quer nada, naqueles fins de novembro de 2007 com a pretensa ideia de ser um espaço para divulgação e para agregar materiais de um curso sobre a obra da poeta Auta de ...

Um evento de conveniências

Por Pedro Fernandes Ano passado foi quando a comissão de cultura da Prefeitura de Natal rechaçou de vez o Encontro de Escritores de Natal para criar o Encontro de Escritores Portugueses. O evento ganha uma dimensão nacional, mas perde em programação. Resumindo-se a pequenas mesas em torno de temas pouco apetecíveis e num horário de vagabunda (para usar aqui de um termo que minha mãe diria em bom som). Essa é, entretanto, uma impressão que eu tive com expectador que não teve a oportunidade de participar do evento. Mas, nesse ano, que me inscrevi duas vezes (e a inscrição não chegou ao destino) tendo que me inscrever novamente no primeiro dia do evento, a impressão de expectador se confirma. Supondo que as coisas devem evoluir em alguma formação nas realizações subsequentes, era para a segunda edição do EEPLP ter sido, em relação à do ano passado, um estouro. Mas, o tiro saiu pela culatra. O que vi nesses dias de evento foram uma gleba de escritores de pouco expressão, m...

Mudar para (re)estabelecer autonomia

Imagem
Por Pedro Fernandes Talvez não seja esse o interesse por debaixo do novo acordo ortográfico às portas de vir a ser a norma da vez para os usuários da língua portuguesa. Mas ao menos foi o que pude concluir depois da fala do professor Carlos Reis hoje, dia 24 de novembro, na conferência de abertura da segunda tarde do Encontro de Escritores de Língua Portuguesa (EEPLP) posto em andamento já desde ontem, 23 de novembro, na Academia Norte-rio-grandense de Letras. Não posso deixar de registrar, entretanto, que não entendi o porquê de um tema tão político e já decidido os seus rumos ainda poder ser motivo de fala e, ainda mais, fala dentro de um evento com escritores, sobre literatura. O Brasil como integrante primeiro da cúpula tem toda capacidade, disse o professor, pela dimensão territorial (e logo por ser o país que reúne a maior quantidade de usuários do português como língua materna) e pela boa posição internacional que hoje ocupa e deve ser o responsável por ...

Gainsbourg, o homem que amava mulheres, de Joann Sfar

Imagem
Por Pedro Fernandes Depois de Piaf, um hino amor , pode-se dizer que essa é a segunda peça mais interessante quando o assunto é cinebiografia de grandes compositores. Gainsbourg – o homem que amava as mulheres (subtítulo mal inserido) é uma grata surpresa a mim que só conhecia o francês ouvindo Je t’aime – não sem ficar um tanto ruborizado quando essa música explodia no ar. O crítico Nelson Motta aferiu como a melhor música para motel já feita no último século. Também pudera; Je t’aime não é bem música, mas um orgasmo musicado e daí meu rubor que vinha, obviamente, ao ouvi-la em companhia dos pudores familiares. Volto, antes de uma rápida leitura desse filme, ao subtítulo, o homem que amava mulheres para explicar o porquê da observação entre parêntesis, subtítulo mal inserido. É que, embora o filme permaneça à volta do Gainsbourg amante, afinal o compositor trouxe para seu harém, ninguém menos que Jane Birkin, Juliette Gréco e a divina Brigitte Bardot, o filme n...