Córidon, de André Gide

Por Pedro Fernandes

André Gide. Foto: Laure Albin Guillot



André Gide se situa entre os mais importantes autores da literatura moderna no entresséculos XIX-XX e uma das razões para merecer esse lugar se encontra na própria obra, marcada por um estilo idiossincrático e capaz de capturar as complexidades e contradições do seu tempo e plasmar de maneira original as questões de corte íntimo em contraste com a ordem vigente. Aliás, uma parte dessas qualidades foi mesmo sublinhada pela Academia Sueca aquando da atribuição do Prêmio Nobel de Literatura “pelos seus escritos diversificados e artisticamente significativos, nos quais os problemas humanos e as suas condições são apresentados com destemido amor pela verdade e com um apurado discernimento psicológico.”

Córidon é um bom exemplo. Está na sua base um traço próprio do escritor: sua nem disfarçada ou nem desconhecida homossexualidade. Este é um tema que encontramos diversamente na sua literatura, mas com este livro que, depois de circular em partes entre periódicos ganhou sua forma definitiva em 1924,¹ o tema deixa de ser literário e é a base de uma tese segundo a qual o homossexual é, antes de tudo, uma variável da natureza. É quase na abertura do livro que encontramos uma observação cunhada pela personagem homônima do título agora discutido:

“Quero dizer que não pretendo falar como especialista, mas sim como homem. os médicos que normalmente tratam destas matérias ocupam-se apenas dos uranistas vergonhosos; os miseráveis, queixosos, invertidos, doentes [...], mas enquanto homem, encontro outros, nem lastimosos, nem queixosos — é sobre eles que me interessa debruçar-me.” 

A premissa de Córidon é, assim, a de André Gide com um livro interessado em se colocar à frente de um debate muito em voga nessa altura basicamente em duas linhas. A primeira é a elevada atenção da imprensa jornalística por perscrutar as circunstâncias da homossexualidade sempre quando eclodia um episódio dessa natureza — basta recordar o caso que significou a ruína definitiva de Oscar Wilde, com quem antes do acontecido, Gide se encontra, mas também uma série de acontecimentos no seu próprio país, como o assassinato de Auguste Remy por Pierre Renard e cuja condenação se deveu mais uma suspeita homossexualidade, que o fazia “um monstro odioso e repugnante”.²

O debate público a partir sensacionalismo da imprensa é parte dos desenvolvimentos no campo da ciência de patologização do homossexual; na França, alguns dos mais importantes tratados germânicos dedicados ao tema, como os de Albert Moll e Richard von Krafft-Ebing. André Gide leu não apenas estes, mas o que outros escritos na Alemanha e algumas derivas questionáveis uma vez escritos por figuras fora do campo científico mas com certa popularidade, como os livros do jornalista Marc-André Raffalovitch e os vários artigos de imprensa acerca da matéria.

A bibliografia, registrada nas variadas referências ao longo do livro — incluindo as pontuadas até agora — atestam que André Gide estudou com interesse e seriedade o assunto. Córidon seria, assim, uma espécie de tratado, se não definitivo, essencial para contraponto das discussões predominantes, todas então determinadas em tratar a homossexualidade como um desvio para o qual caberia investir em artifícios de vigilância, criminalização e punição, como ainda encontramos neste século em diversos países ao redor do mundo. Interessado em introduzir seu contraponto nos muitos setores sociais, Gide, ainda que se sustente por um aparato intelectual amplo e complexo, certamente dirigido ao público mais letrado, não produz um tratado, no estrito sentido da forma, mas a problematização de um assunto e suas variantes fora do campo da patologia. Para isso privilegia a objetividade e a brevidade como quem lança as bases do tema fim de discuti-las pormenorizadamente sempre que interpelado para tanto. 



Confirma-se isso na maneira como André Gide estrutura Córidon. Recorre ao modelo socrático, isto é, partir do ponto de vista comum — a homossexualidade como desvio proposital — para, através do diálogo nascer a ideia nova. Participam desse debate duas personagens: além do referido Córidon, interessado em desenvolver um tratado provando a homossexualidade como natural, o Narrador, homem que embora frequente a mesma classe do amigo possui firmes bases conservadoras. Além de nutrir todas as estereotipias do senso comum, o Narrador se afasta do amigo por medo de ser tratado como um seu igual, tem pelo tema uma curiosidade patética: quer descobrir os motivos que o levaram a se converter à pederastia. O convívio dos dois se desenvolve por quatro dias e introduzida a discussão no primeiro encontro, em cada um deles, a homossexualidade é entrevista a partir de dimensões diferentes da cultura: no segundo diálogo a tese não-médica é de corte naturalista; no terceiro, o tema é entrevisto pela literatura e as belas artes; por fim, se ensaia uma sociologia do homossexual. 

Se a questão avança contra o discurso dominante, é importante destacar o cuidado desenvolvido na argumentação provocadora de Córidon: desinteressado de atacar frontalmente os argumentos científicos em uso, as vigas do tratado possível admitem que se a homossexualidade é tal como a heterossexualidade, naquela da maneira que nesta se encontram vícios, manias e taras, estas, talvez de interesse da ciência. Sua tese, entretanto, ao considerar a variante vocabular para o tema, desenvolve-se em torno das circunstâncias segundo as quais a homossexualidade participa da ordem normal do indivíduo e da coletividade. Ao examinar os pilares da sociedade centrada no princípio heteronormativo, Córidon/ Gide não deixa de se assumir como um provocador (e contra) do tabu generalizado da sexualidade no ocidente desde o declínio dos modelos que o antecederam, sem deixar de reparar em como o tema se converteu em generalizações e contradições; por exemplo, a mesma sociedade que condena o homossexual como uma criatura degenerada pela depravação se regozija na arte e na prática fescenina, tal como defende o próprio Narrador.

É notável que o contraponto oferecido por André Gide nos diálogos platônicos é o das mentalidades dominantes. É também por isso que é importante, como o próprio Córidon admite, que uma posição capaz de desconstruir o pensamento vigente esteja bem afirmada no interior dessas mesmas bases. Se mesmo assim, a mentalidade tradicional se mantém aferrada aos seus princípios, conforme notamos com o Narrador, ela serve de força motriz para o funcionamento do pensamento de Córidon — um exemplo, diríamos, extremamente caro ao nosso tempo em que os ânimos encrespados substituíram penosamente a abertura para o confronto discursivo pelo ataque e pelo cancelamento. A posição de Córidon é importante: homem de ciência e ilibado, contra ele não sobram os argumentos de ordem maculada. Isto é, o Narrador, talvez esperando encontrar no amigo do qual se desviara por seguir o curso das más línguas, acha nele a prova daquilo que defende: o homossexual livre dos vícios da sua espécie. 

Por fim, resta especular o nome dessa personagem e título do livro. Córidon aparece na écloga II de Virgílio e, envolto entre o lamento e o reconhecimento de sua loucura de amor, expressa o amor não correspondido pelo jovem Aléxis. No andamento da argumentação da personagem de André Gide, discute-se como as traduções e mesmo as retomadas dos motivos clássicos pela literatura subsequente falsificaram deliberadamente o passado sempre com o intuito de apagar em definitivo as variantes da sexualidade. Assim, quando a figura criada por Virgílio reaparece na literatura renascentista, por exemplo, aparece transmutada ou indiferente à original. Se Córidon almeja lançar as verdadeiras bases da homossexualidade contra as fabricadas pela hegemonia heterossexual, parece adequado também o resgate da criatura original tal como forjada na Segunda Écloga. Mesmo passado tanto tempo e tantas transformações desde quando Gide publicou o seu livro, esse interesse de descascar a passado para encontrar qualquer coisa das suas primeiras feições, tal como praticado, permanece atualíssimo. Veja: não é o caso de negar ou apagar o passado, mas de conhecê-lo e até reconhecê-lo, dentre todas as atribuídas limitações, mais avant garde que este nosso século gris.


Notas

1 A primeira edição do livro data de 1911. Formada apenas pelos dois primeiros diálogos e parte do terceiro, circulou anonimamente numa tiragem limitada a 12 exemplares com o título C. R. D. N. No prefácio da edição de 1924, André Gide esclarece que o livro ficará suspenso por quase uma década; só retoma o projeto, escrevendo o restante do terceiro e o quarto diálogo em 1918 depois de uma crise no casamento. Gide casou-se com sua prima Madelaine Rondeaux e esta descobriu naquele ano os casos extraconjugais do marido. Corydon volta a circular, agora com este título, em 21 exemplares em 1920. O livro sofrerá ainda duas revisões: para a versão pública de 1924 e para a versão de 1935 incluída nas suas obras completas pela La Nouvelle Revue Française. Córidon, portanto, se afirma apenas numa ocasião quando o tema da homossexualidade começava a se manter na literatura: antes, com Sodoma e Gomorra, de Proust ou depois com Os moedeiros falsos, do próprio Gide, sendo o primeiro um livro que lida com a criticada ideia estereotipada por Córdion do uranismo como inversão sexual ou efeminação. 

2 Os termos são de Goulet, referidos por na edição de Córidon. Na França, a homossexualidade não era crime, mas episódios como o de Renard explicitavam que o tema passava pelo crivo jurídico.


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