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Quando não ser grande coisa se torna a maior coisa do mundo

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Por Rafael Kafka O pequeno Jean-Paul Sartre cresceu rodeado de amor. Filho de um casal de jovens, perdeu seu pai com apenas dez dias de vida e passou a ser cuidado por sua jovem mãe, que mais parecia sua irmã mais velha. Ambos eram criados pelos pais desta, que rodearam o pequeno Sartre de carinho, afeto, proteção e livros. Logo cedo, aquele que se converteria em um dos maiores escritores de todos os tempos, percebeu-se como não sendo grande coisa. E em sua insignificância, ele se sentia grande quando em contato com as palavras, com a literatura. Passou então a criar suas aventuras encenadas com toda a empolgação de uma criança ensimesmada e consciente ao extremo de suas capacidades intelectuais e físicas. O pequeno Sartre viu na literatura não a fuga da realidade, como os românticos a viram, mas sim um complemento, um suplemento. A arte literária transformou para si a realidade em um mundo mais completo e belo, pois permitia uma constante descompressão de ser rumo a...

Dentro de ti ver o mar, de Inês Pedrosa

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Por Pedro Fernandes Dentro de ti ver o mar. A expressão de um romantismo erótico latente é, pode-se dizer, também tema do romance de igual nome; nome trazido do verso de um fado escrito e interpretado por uma de suas personagens. Esse exercício literário, logo se vê, engendra uma capacidade criativa que Inês Pedrosa tem desenvolvido em outros textos já de longa data conhecidos de parte do público brasileiro. Como quem leu alguns dos seus romances – Fazes-me falta , A eternidade e o desejo , Os íntimos – digo mesmo que é possível visualizar neste novo título a consolidação de uma escrita sobre a fugacidade do amor nos novos tempos. Tratar da relação amor-erotismo sem se reduzir a um dos polos, isto é, sem se deixar cair na via dos amores comuns já dissecados de maneira diversa nos romances água-com-açúcar ou não cair no extremismo do palavreado pornográfico, é uma grande prova de escrita para qualquer escritor cuja carreira ainda está em processo de elaboração. Inês...

Como “formar” uma biblioteca segundo José Saramago

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A Fundação José Saramago publicou em sua página hoje, na seção “Memória”, espaço virtual que tem dedicado à publicação de material sobre o escritor que dá nome à instituição, um fac-símile de um datiloscrito muito interessante de ser considerado pelos espaços dedicados à publicação sobre livros. Trata-se de um jogo proposto para a formação de uma biblioteca. A ideia veio-lhe depois de ter sido consultado sobre uma lista para compor o acervo de uma biblioteca que estava por inaugurar. Muito perspicaz a ideia de Saramago, dirão uns; mas a proposta não deixa de ser também um incentivo aos novos leitores que estão à procura de organizar sua biblioteca particular. “Certamente não se esperará de mim a ingenuidade de propor uma lista de livros que iriam ser, ao mesmo tempo, o embrião duma biblioteca e a sua parte fundamental, uma vez que, com toda a probabilidade, eu me esforçaria pro não esquecer nenhuma das obras fundamentais que até hoje se escreveram. Excluindo aquele conhecid...

A insustentável forma de A festa da insignificância

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Por Alfredo Monte                                                        I O lançamento, com toda a pompa e circunstância 1 , de A festa da insignificância , e o fato de que o novo romance de Milan Kundera já encabeça a lista dos mais vendidos (pelo menos no site da Livraria Cultura) se reveste de aspectos dignos de nota: há 30 anos, o autor tcheco era a bola da vez, como se diz, com A insustentável leveza do ser . Nem antes (apesar do seu prestígio) nem depois ele alcançaria tal repercussão. No Brasil, alguns títulos (obras anteriores) ainda se beneficiaram da “onda Kundera”; logo passou, mesmo porque certa ala dos nossos intelectuais associou o sucesso na “lista dos mais vendidos” à ideia de banalidade; pa...

Glória a Parra nas alturas

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Por Matilde Sanchez Nicanor Parra Em Las Cruces, 150Km ao sul de Santiago. A bruma envolve a baía e pela íngreme rua Lincoln, nenhum vizinho aparece nesta manhã de sexta-feira. O mar reluz como azeite escuro de tão frio e não salpica as rochas vulcânicas da praia: essa é a paisagem que vê o artista a partir do seu terraço. Neste balneário dos anos 20, que hoje persiste em sua orgulhosa decadência, todavia, não há sinais de envelhecimento: tudo está como foi ficando. Mas as placas advertem que estamos no  Litoral dos poetas , começando por Cartagena, onde viveu Vicente Huidobro, e mais adiante, Isla Negra, terras de Pablo Neruda. Nicanor Parra é o homem ilustre do povoado. E tem outra casa em Isla Negra, onde alguma vez fantasiou um antimuseu; o grupo entusiasta de amigos que trabalha para escondê-lo ali no 5 de setembro, quando cumpre um século de vida. É que em Las Cruces há indícios de que começaram os tours. O chalé é de madeira escura e janelas brancas e tem uma por...

Os passos em volta, de Herberto Hélder

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Por Pedro Belo Clara Nascido em 1930, na ilha da Madeira, Herberto Hélder é muito provavelmente uma das mais enigmáticas figuras da literatura portuguesa contemporânea, estando, sob o ângulo de alguns pontos de vista, envolta numa certa aura de misticismo. Para tal, em muito contribuem as constantes reservas do autor em comparecer em eventos públicos ou conceder entrevistas. Em 1994, por exemplo, foi-lhe outorgado o Prémio Pessoa, honraria essa que de pronto recusou. Por tudo isto, e certamente muito mais, Herberto Hélder é tido como uma figura de cariz declaradamente misantropo. No entanto, é dos mais originais, hábeis e competentes artífices da palavra que Portugal pode actualmente orgulhar-se de “ter”. A obra em questão, um conjunto de contos que são transversais a uma só personagem (muito facilmente plasmada no próprio autor) e às suas deambulações por diversas cidades e quotidianos rotineiros, foi pela primeira vez publicada em 1963 e muito justamente é considerad...