Lembrar também é inventar em Keith Jarret no Blue Note, de Silviano Santiago
Por Vinicius de Silva e Souza
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| Silviano Santiago. Foto: João Rangel |
Há livros que contam uma história e há livros que parecem tentar descobrir, enquanto são escritos, o que exatamente significa contar uma história. Keith Jarrett no Blue Note, de Silviano Santiago, pertence a essa segunda espécie. O romance não se entrega facilmente à distinção entre memória e invenção, entre experiência vivida e experiência narrada, entre o acontecido e que só pode existir porque alguém decidiu contá-lo. Mais do que narrar uma história, o autor parece interessado em observar o que acontece quando a memória se transforma em matéria literária — e quando a literatura, por sua vez, passa a interferir na própria memória.
O título já anuncia uma espécie de chave de leitura. Keith Jarrett, o grande pianista de jazz, está no Blue Note, mas sua presença não funciona apenas como referência musical ou como elemento decorativo. O jazz funciona como um princípio de composição do romance. Há improvisação, repetição, variação, retorno, silêncio, temas que reaparecem modificados, lembranças que voltam sob outra perspectiva, acontecimentos que parecem nunca se encerrar completamente. Santiago escreve como quem improvisa em torno de uma melodia conhecida: não precisa necessariamente avançar em linha reta, porque seu interesse está também nas possibilidades de retornar a um mesmo motivo e fazê-lo significar outra coisa.
É por isso que a leitura do romance exige certa disponibilidade para o fragmentário. O que importa muitas vezes não é saber simplesmente o que aconteceu, mas acompanhar o modo como o que aconteceu continua reverberando no presente de quem recorda. A memória não aparece como um arquivo confiável. Ela é uma matéria móvel, sujeita ao desejo, ao esquecimento, à fantasia e à interpretação. Lembrar é sempre reconstruir.
Em Keith Jarrett no Blue Note, uma questão aparece de maneira particularmente forte porque o romance parece se construir a partir de uma intimidade que nunca é inteiramente oferecida ao leitor. Existe sempre alguma coisa que escapa. O narrador lembra, comenta, interpreta, aproxima acontecimentos, estabelece relações, mas também deixa claro que toda lembrança possui uma margem de incerteza. O passado não está simplesmente esperando para ser recuperado. Ele precisa ser produzido novamente.
O que faz com que o romance também possa ser lido como uma reflexão sobre o próprio ato de escrever. Quem narra não está apenas contando aquilo que viveu: está tentando compreender o que viveu. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas. A experiência, quando acontece, é caótica, descontínua, muitas vezes incompreensível. A narrativa vem depois e tenta estabelecer relações. Dá nomes às coisas. Escolhe o que merece permanecer. Transforma uma sequência de acontecimentos em alguma espécie de forma. A literatura nasce justamente desse movimento de organização — mas também da consciência de que nenhuma organização será definitiva.
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O jazz de Keith Jarrett ajuda a pensar essa operação. Uma improvisação musical não é simplesmente ausência de forma. Pelo contrário: pressupõe conhecer profundamente uma linguagem para poder deslocá-la. Há uma estrutura, mas ela pode ser tensionada. Há uma melodia, mas ela pode ser prolongada, interrompida, repetida, deformada. O romance de Santiago trabalha de maneira semelhante com a memória. O passado funciona como uma espécie de tema musical sobre o qual o narrador improvisa. Cada retorno acrescenta alguma coisa, mas também modifica aquilo que havia sido dito anteriormente.
É nesse ponto que o livro cresce: ele entende que a memória não é necessariamente uma busca pela verdade, mas uma busca por sentido. Talvez não seja possível saber exatamente como as coisas aconteceram e talvez seja impossível recuperar completamente uma amizade, uma paixão, uma ausência ou uma determinada noite. Mas é possível tentar compreender o que essas experiências fizeram conosco.
Há também no livro uma dimensão profundamente afetiva. O autor não trata as relações humanas como elementos secundários da narrativa. São justamente elas que dão peso às lembranças. O que permanece na memória não é apenas o acontecimento em si, mas a maneira como fomos atravessados por alguém. A amizade, o desejo, a admiração, a perda e a distância se misturam. As pessoas que passam pela nossa vida continuam existindo de alguma maneira dentro daquilo que lembramos delas. Mesmo quando desaparecem, permanecem como personagens de uma história que continuamos contando para nós mesmos.
O livro consegue permanecer em uma espécie de fronteira entre romance, memória, ensaio e autobiografia. Não é necessário decidir definitivamente em qual desses lugares ele deve ser colocado. Talvez a força esteja justamente na impossibilidade de uma classificação. Santiago parece trabalhar contra a ideia de que os gêneros literários precisam permanecer separados. O ensaio pode aparecer dentro do romance; a música pode funcionar como estrutura narrativa. Da mesma maneira, a memória pode ser ficcional e a ficção pode conter uma verdade da memória. O livro se alimenta dessas contaminações.
Essa mistura também produz uma leitura que, em alguns momentos, pode parecer deliberadamente lenta. Silviano Santiago não tem pressa de levar o leitor de um acontecimento a outro. Há momentos em que a narrativa parece parar para pensar. E essa interrupção é importante. O romance não quer apenas contar o que aconteceu, mas permanecer um pouco dentro daquilo que aconteceu. Como no jazz, a duração de uma nota importa tanto quanto a nota em si. O silêncio entre dois acontecimentos também pode dizer alguma coisa.
Há ainda uma questão importante relacionada à própria posição de Silviano Santiago na literatura brasileira. O autor tem uma obra marcada pelo trânsito entre crítica e ficção, entre pensamento e narrativa, e por uma permanente desconfiança diante das fronteiras rígidas entre esses campos. Keith Jarrett no Blue Note leva essa característica para dentro da própria forma do romance. O livro não quer esconder que está pensando. Seus personagens e acontecimentos importam, mas importa também aquilo que a narrativa pensa sobre eles.
Por isso, talvez seja mais interessante ler o romance não como uma história sobre Keith Jarrett, mas como uma história sobre aquilo que a música, a memória e a amizade permitem pensar. Keith Jarrett funciona como presença, referência, atmosfera e, sobretudo, como uma espécie de figura capaz de organizar o imaginário do narrador. O jazz oferece uma linguagem para falar daquilo que não pode ser dito de maneira totalmente direta. Assim como uma improvisação pode dizer algo sem precisar transformar tudo em discurso, a literatura também pode se aproximar de experiências que resistem à explicação.
No fim, Keith Jarrett no Blue Note parece ser menos um livro sobre o passado do que sobre nossa impossibilidade de deixá-lo para trás. O passado não permanece porque foi preservado intacto; permanece porque continuamos modificando-o. Cada lembrança é uma nova versão daquilo que já aconteceu. Cada narrativa acrescenta alguma coisa ao acontecimento original. E talvez seja justamente aí que esteja o sentido mais profundo da literatura de Santiago: não recuperar aquilo que se perdeu, mas criar uma forma para que a perda continue podendo ser experimentada.
O romance deixa uma impressão curiosa porque, quando termina, a sensação não é exatamente a de ter recebido uma história fechada. É como se tivéssemos escutado uma música que continua depois que o som acaba. Algumas imagens permanecem, algumas relações continuam reverberando, algumas perguntas não encontram resposta. E talvez seja melhor assim. O livro parece saber que certas experiências perderiam sua força se fossem completamente explicadas.
Silviano Santiago constrói, então, um romance em que lembrar é uma forma de criação. A memória não é uma fotografia do passado, mas uma espécie de improvisação sobre aquilo que já não existe. E a literatura, nesse movimento, não aparece como o contrário da verdade. Ela aparece como uma das maneiras possíveis de alcançá-la. Não a verdade factual, absoluta, verificável, mas aquela verdade mais incômoda e mais humana que surge quando tentamos compreender por que determinadas pessoas, músicas, lugares e momentos continuam vivendo dentro de nós.
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Keith Jarrett no Blue Note
Silviano Santiago
Companhia das Letras, 2024
112 p.

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