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Na tua face: Vergílio Ferreira constrói a complexidade feminina em Ângela

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Por Marina Rufo Spada Boyd Em Na tua face , romance escrito em 1993 pelo português Vergílio Ferreira, é-nos exposto duas figuras femininas de características ímpares, psicológica e fisicamente. Embora tais figuras sejam de complexa análise – dado o característico uso de Vergílio Ferreira das analepses, prolepses, elipses, monólogos interiores dentre tantas outras ferramentas de difícil descodificação – o narrador não deixa muitas ferramentas à mão do leitor, e assim nos cabe a tarefa de desatar os nós que as mantém ligadas – e amarrá-las quando necessário. Sendo assim, fica ao leitor reconstrução de elementos diegéticos a partir da seleção de fragmentos de informações que o texto oferece. Apesar das duas personagens femininas complementarem-se ao longo do romance, cabe aqui analisar a construção de apenas uma delas: Ângela. A figura de Ângela aparece-nos logo ao primeiro capítulo da trama, já formada quase que em toda sua completude. Como sendo as personagens im...

A bagaceira, de José Américo de Almeida

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Por Pedro Fernandes Houve um tempo não muito distante que o Brasil em sua boa parte era rural – sobretudo as regiões Norte e Nordeste porque quase dotadas de uma incumbência cultural (e também histórica) de produzir para a subsistência e o consumo urbano e, logo, do restante do país. Nesta última parte, duas vistas se destacaram, as extensas monoculturas no sertão e no litoral, em que as produções se concentravam entre os grandes senhores de terra, os donos dos latifúndios, estes que se beneficiavam além das benesses trocadas das estreitas relações com os setores da política ruralista do esforço sem fim dos trabalhadores do campo que eram despossuídos de terra ou de recursos para o cultivo, visto que os investimentos econômicos estavam intimamente ligados às tais relações políticas. Quer dizer, houve esse tempo ou esse tempo ainda é atual?  Entre esse tempo e o atual o que se modificou mais acentuadamente foi a paisagem rural pelas extensas migrações para a zona ...

16 + 2 romances de formação que devemos ler

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Goethe à janela de seu apartamento em Via del Corso, Roma. Pintura de Johann Tischbein, 1787. Há uma forma romanesca que tem ganhado espaço entre os leitores nos últimos anos, sobretudo devido ao gosto elevado pela obra da escritora italiana Elena Ferrante indicada nesta lista – a tetralogia napolitana. Neste meio tempo as livrarias receberam ainda livros como O pintassilgo , de Donna Tart ou a reedição de clássicos como A montanha mágica , de Thomas Mann. Mas, o que há em comum entre estas obras e qual forma romanesca é esta? A forma é do romance de formação (cf. enuncia o título da postagem). O termo é uma tradução do alemão Bildungsroman e teria sido empregado pela primeira vez em 1803, pelo professor de filologia clássica Karl Morgenstern numa conferência sobre “o espírito e as correlações de uma série de romances filosóficos”, segundo Friz Martini. Como lembra Wilma Patricia Marzari Dinardo Mass, “mais em tarde,  em conferência de  1820, o mesmo Mo...

Cem anos de solidão cumpriu a profecia de Melquíades

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Por Conrado Zuluaga Gabriel García Márquez. Foto: Ben Martin.  Nos anos anteriores aos 13 meses de reclusão – o tempo gasto para colocar em pouco mais de quatrocentas folhas a história que havia ruminado durante 20 anos –, Gabriel García Márquez enfrentou dois assuntos cruciais que ele próprio contou em diversas ocasiões. De um lado, era o autor de quatro livros publicados ( A revoada , O veneno da madrugada e Ninguém escreve ao coronel ), que vendiam pouco e tinham pouca repercussão; de modo que, na prática, continuava sendo um desconhecido. E, de outro, tinha mais coisas a dizer, mas não encontrava nem o tom e nem o modo de fazer: "Meu problema maior de romancista era que depois daqueles livros me sentia preso num beco sem saída, e estava buscando por todos os lados uma brecha para escapar. Sentia ainda que me restavam muitos livros pendentes, mas não conhecia um modo convincente e poético de escrevê-los". O "modo convincente e poético" encont...

Rodolfo Walsh, a pena e a pistola

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Por César G. Calero – Um fuzilado está vivo! Rodolfo Walsh era um resoluto escritor de romances policiais e incipiente divulgador cultural quando em dezembro de 1956 ouviu de alguém essa frase que mudaria sua carreira e o levaria ao altar dos grandes mestres da literatura e do jornalismo espanhol. “Um fuzilado está vivo”, escutou no café onde ia jogar xadrez. A fala não era de um todo verdade. Do primeiro fuzilado passou-se a um segundo, depois a um terceiro... E o resultado foi sete fuzilados que viviam. Walsh, de berço católico e conservador, mergulhou então numa minuciosa investigação sobre os fuzilamentos perpetrados durante o levante do general Valle em junho de 1956. O resultado foi Operação massacre , obra de culto do chamado jornalismo de investigação.  Vinte anos depois de sua publicação, Walsh se converteria em objetivo principal do regime cívico-militar que tomou o poder em 1976. Oficial primeiro da organização armada Montoneros sob os pseudônimos de...